O perigo das dívidas, a negociação e o futuro da famíliaMárcia comenta: “Navarro, imagino que muitos brasileiros ainda se encontrem endividados. Pois é, este é também meu caso e de alguns de meus amigos mais próximos. Vira e mexe leio informações sobre endividamento na Internet, em revistas, mas sinto falta de uma abordagem mais simples, objetiva e eficiente. Penso sempre no Dinheirama nestas ocasiões. Não quero a fórmula mágica para sair das dívidas, mas sua opinião sobre alguns dos fatores importantes para que tenhamos disciplina e inteligência financeira capazes de facilitar a análise da situação”.

Muitos brasileiros estão endividados. Muitos brasileiros continuam se endividando. Muitos brasileiros preocupam-se apenas com o consumo, prazer e a satisfação imediata, deixando o depois para, vejamos, depois. A lição fundamental do capitalismo, aqui traduzida por um simples “tudo custa”, não faz parte do dia-a-dia de um sem número de cidadãos. Por que? Infelizmente, tenho também muito mais perguntas que respostas. Mais reflexões que conclusões.

Avaliando o ambiente que cerca meu trabalho, penso que não somos muito bons em avaliar os riscos implícitos das negociações em que nos envolvemos. Não raro, nos vemos dando sala para a emoção, a sensação de bem-estar e o sentimento de realização. Claro, isso também faz parte da vida, mas não quando deliberadamente tomamos uma decisão que impacta, e muito, o futuro financeiro[bb] de nossa família. Não se assuste, o drama se faz necessário.

Sim, porque comprar um carro financiado quando não há real necessidade e condição de mantê-lo é uma atitude capaz de destruir o fluxo de caixa de muitas famílias. Conheço casos de indivíduos com carro cuja vida se resume a trabalhar para pagá-lo, cujos filhos mantém infra-estrutura mais que básica para estudar e cujo padrão de vida se deteriora sem que alguma reação seja tomada. O carro é um exemplo, se preferir substitua-o pela nova moto, pelas compras, pelo crédito rotativo e etc.

Vender o bem representaria um ótimo alívio e melhor capacidade de utilização do dinheiro[bb], de planejamento e saneamento das despesas inerentes ao modelo de vida dos integrantes desta família. Mas vender o carro implica também deixar de lado o gozo social, representado erroneamente pelo prestígio e a aparente diferenciação entre os pares e vizinhos. Vender o carro implicaria negociação, conhecimento de alguns pormenores comerciais, de esforço financeiro. Será que há disposição para tanto trabalho?

O lado pessoal da dívida financeira
De forma pouco usual, acabei traçando um perfil do endividado tradicional brasileiro. Pouca informação, pouco conhecimento, muito desejo e muita necessidade de inclusão social em sua forma mais perigosa (para se impor e se mostrar). Alguns aspectos do endividamento[bb] só são profundamente abordados e explicados pela recente fusão entre as áreas de psicologia e economia, representada pela Psicologoia Econômica, capitaneada no Brasil pela professora Dra. Vera Rita de Melo Ferreira, da PUC-SP.

Além da capacidade de honrar compromissos, é preciso que exista um forte trabalho humano, de atitude e de mudança de hábitos. É preciso combater a parca carga suportável de frustração carregada por cada um de nós e querer entender dos produtos e negociações financeiras aos quais nos submetemos. Para satisfação pessoal sempre existe disposição, não é mesmo? Que tal direcionar parte desta dedicação para os objetivos da família e seu futuro?

Acabo por colocar-me diante de três perguntas que gostaria de fazer aos endividados que ainda dão de ombros (humpf!) ao ler artigos e textos como este:

1. Qual é o total de juros que você paga em suas dívidas? Quase ninguém consegue dizer exatamente quanto os juros representam em suas negociações cotidianas. O surgimento do Custo Efetivo Total, ou CET, facilita o controle deste número e melhora a análise. No entanto, o raciocínio financeiro envolvido nas decisões ainda precisa ser muito bem trabalhado. Você paga muito juro? A taxa do financiamento ou de rolagem da dívida é alta? Pense da seguinte forma: se obter 1% ao mês de rentabilidade em aplicações financeiras não é trivial, pagar 1% para rolar alguma dívida parece inteligente?

2. Que mudanças este dinheiro usado para o rolamento de dívidas poderia trazer à família caso estivesse disponível? Aqui entra em ação sua capacidade de raciocinar. O valor usado para pagar os carnês e os juros podem ser empregados em investimentos[bb] para o futuro, em melhores condições de estudo para os filhos e em planos de previdência complementar para uma aposentadoria mais tranquila. Isso significa deixar de lado o consumo constante do presente e garantir chances confortáveis de consumo também no futuro.

Alguns entendidos adoram usar o conceito de alavancagem para jogar por terra a defesa do não endividamento. Se você não sabe o que isso significa, situação da enorme maioria dos brasileiros, acredite em mim: nenhum endividamento é saudável. Perceba que ele pode ser necessário, parte de um plano futuro de aquisição de patrimônio etc. Saudável, só quando ele é capaz de trazer dinheiro e retorno. Como? Pois é, isso é alavancagem.

No universo corporativo, a história é outra. Lá, dever é comum, alavancar-se também. Lá, existe planejamento, controle de custos, orçamento etc. Você já tem isso tudo em dia? Lá, usa-se o dinheiro emprestado para investir em projetos cujo retorno é maior que a taxa paga mensalmente, o que garante ganho de capital e poder de reinvestimento. Como é a sua vida neste sentido?

3. Quais os riscos que você corre ao emaranhar-se em uma teia de dívidas? Isso prejudica sua família? Como? É muito raro notar famílias cuja a decisão de endividar-se seja tomada em conjunto. A chance de decisões ruins serem tomadas diminuem drasticamente quando um grupo se reúne e discute as oportunidades, os riscos e os custos de suas ações. Dialogar sobre as alternativas financeiras só ajuda o processo de formação de idéias e opiniões.

Isso é Brasil
O homem quer trocar de carro, sem necessidade, e a mulher quer investir em um plano de previdência para os filhos. Ambos trabalham, mas ele ainda ganha mais e controla o dinheiro da família. O que acontece na maioria das vezes? Pois é, 2007 e 2008 são anos recordistas em números de carros vendidos e evolução da indústria automobilística. Se você acha que isso não acontece, reveja seus conceitos sobre dívidas, investimentos e cuidados financeiros. Você pode estar comprando muita coisa absolutamente supérflua e deixando o futuro dos seus filhos para depois, para o futuro.

Será que para o endividado é chocante saber que ele é o grande responsável por sua situação? Deveria ser. Como e por onde começar? Aceite que está devendo e que é importante para você e sua família que você pare de se endividar. Liste seus credores, examine e detalhe quanto deve para cada um deles. Estabeleça prazos para o pagamento das contas e, se for o caso, renegocie-as buscando prazos melhores e taxas mais baixas.

Ah, sim, antes de endividar-se tanto novamente lembre-se: você é o que você é, não o que você tem ou gasta. Dinheiro é secundário, é consequência. O descaso deliberado com o dinheiro é irresponsabilidade, é falta de maturidade e de disciplina. Não ter dinheiro, mas andar de carro novo não é bonito. Não se trata de ser mão de vaca, mas de empreender o próprio futuro[bb] a partir do que é possível fazer hoje.

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Crédito da foto para stock.xchng.

Conrado Navarro
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