O PIB, o trimestre de ouro e as perspectivas para o futuroEis que surge, coberto de glórias, o resultado do terceiro trimestre do PIB brasileiro de 2008. De acordo com o IBGE, a expansão do Produto Interno Bruto do país chegou a incríveis 6,8%. Incríveis por conta da crise financeira mundial que traz, em todo canto, um pessimismo contagiante e problemas nas economias de diversos países (Brasil inclusive). O número é sensacional, mas infelizmente devo lembrá-lo de que a realidade e os acontecimentos brasileiros de outubro e novembro é que “são elas”.

Quando falamos em PIB e como o número final é composto, muita gente torce o nariz, já que, via de regra, o assunto acaba se tornando técnico demais – quase ninguém realmente entende os detalhes econômicos da composição. Assim, deixando o economês de lado, o mais importante agora é entender de onde veio esse crescimento e se ele vai ou não manter o mesmo ritmo em 2009. Não, não vai.

O primeiro ponto importante que devemos apontar é que o consumo e a situação financeira[bb] das famílias brasileiras deu um salto expressivo – dois dos grandes pilares do crescimento. É fato, as pessoas tomaram gosto pelas compras e foram atrás de automóveis, casa nova, troca de apartamento e etc. – mesmo, na maioria das vezes, se endividando.

Outro ponto de forte impacto no crescimento foi a participação maciça em investimentos por parte do governo. O chamado PAC (Plano de Aceleração do Crescimento) trouxe ao país inúmeras obras e impactou positivamente os dados medidos pelo IBGE.

Sob o aspecto prático, o que aconteceu nesse terceiro trimestre mostra como o país aproveitou os últimos momentos em que a crise ainda era uma “marolinha”. Aos poucos, a onda foi crescendo e agora vem despedaçando, de maneira inédita, empresas, bancos e economias mundo afora. Segundo o economista José Julio Sena, o governo Lula pode ter tido nesse 3º trimestre de 2008 o seu último momento de crescimento:

“O terceiro trimestre já ficou para trás. E, definitivamente, pode ser o último de crescimento forte do governo Lula”

Trata-se de um risco real, dada a forma como a política econômica vem sendo conduzida. Todos nós, em algum momento, já discutimos a maneira como o Banco Central “jogou” com a política de juros básicos. Eu mesmo fui um forte critico – dou minha mão à palmatória, já que exagerei nas críticas. Mas, agora, a situação é nova e o desenvolvimento e crescimento do país nos próximos meses e anos se darão a partir do que for decidido nos próximos meses. Abusando deste espaço e de sua paciência, lanço novas (velhas) críticas:

  • Não podemos mais conviver com os juros absurdamente altos que o governo leva ao mercado através da Taxa Selic;
  • Não podemos mais conviver com os “juros assassinos” que os bancos usam suas operações financeiras. Tais taxas deveriam ser qualificadas como crime contra a economia popular.

O país, hoje mais do que nunca, precisa ser empreendedor, apoiar as ações de micro crédito e o desenvolvimento de negócios[bb] sustentando e desonerando as pequenas e médias empresas. Não é verdade que foram feitos pacotes milionários de ajuda aos bancos? Esta ajuda chegou pra valer nas pontas? As empresas se beneficiaram?

Por que não brindar a economia como um todo e seus contribuintes, encarando o problema de frente e diminuindo, por exemplo, a carga tributária? É desmotivador e chato para qualquer ser humano trabalhar quatro meses do ano para pagar impostos e não ver retorno expressivo e de qualidade nos serviços através deles financiados.

O presidente Lula e o Ministro Mantega estão corretos ao afirmar que o Brasil de hoje está muito mais preparado para enfrentar crises internacionais do que no passado. Estamos, sim, mas não podemos agora errar e subestimar o potencial devastador da crise. Cadê a seriedade? O mundo busca possibilidades de crescimento, oportunidades[bb] na crise.

E, nós, brasileiros, nação tão rica e otimista? O que buscamos na crise? Para onde vamos? Os números do terceiro trimestre impressionam, mas não garantem um 2009, 2010, 2020 de sucesso. Parece-me que o Brasil ainda não encontrou sua direção em meio ao caos: caminhamos rumo ao crescimento ou diretamente para a estagnação? Como brasileiro, quero o melhor, não interessa quem governe. Ufa, que venha o 4º trimestre.

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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Ricardo Pereira
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