O uso inteligente do crédito, mais regulação e o BrasilEnquanto os países mais desenvolvidos, capitaneados principalmente pelos Estados Unidos, enfrentam uma das piores crises financeiras da sua história, o Brasil continua a apresentar resultados econômicos importantes e sólidos, como a divulgação do crescimento consistente do PIB e a expectativa de crescimento para este ano – que, ao que tudo indica, deve ficar acima dos 5%. É verdade que o crédito ficará mais caro, mas a preocupação que ronda a cabeça do brasileiro é outra: temos chance de viver uma crise semelhante por aqui?

O resultado brasileiro até aqui é muito bom. A crise financeira atual está sendo considerada sistêmica e nasceu no coração financeiro mundial (Wall Street). Crise esta que levou ao desmoronamento instituições históricas, como o Lehman Brothers, que ditavam inovações financeiras e negociavam ativos à margem de regras demasiadamente liberais (palavras de alguns economistas). Por enquanto, sobrevivemos bem.

A pergunta retórica entre os especialistas é bem direta: qual o real motivo da crise? O que alimentou todo esse transtorno para os americanos e para o mundo? Agora fica fácil convencer a opinião pública de que a crise vinha se desenhando, especialmente por conta da liberdade e alavancagem do sistema financeiro norte-americano. Vemos seu reflexo na bolsa de valores[bb] brasileira, mas o que mais devemos levar em conta?

Hoje vemos um Fed diante de um presidente (Ben Bernanke) combalido, tentando convencer os congressistas americanos do que parece não ter uma explicação lógica. Afinal, como explicar algo que tem sua eficácia ainda muito discutida? Como explicar a necessidade de um socorro emergencial de US$ 700 bilhões em poucos dias?

Com o poder, o contribuinte
Como será que reagirá o contribuinte americano? Sim, aquele que tem suas aplicações em bancos de varejo ou que investe em um pequeno negócio próprio, mas esta fora do mercado financeiro[bb]. Indignação? Fica a impressão de que, quando o bolo cresce e fica suculento, quem está fora do sistema simplesmente não é convidado à mesa para receber sua fatia.

Acredito,  como outros colegas que analisam de perto o noticiário econômico, que, em breve, o congresso acabará cedendo e liberará o empréstimo. Como sempre, tudo para evitar um mal maior, um crash mais crítico do mercado. Os contribuintes participarão da conta. Paciência.

A lição que fica dessa história toda precisa ser bem trabalhada: parece óbvio que o sistema financeiro americano precisa de regulação e maior controle por parte das autoridades monetárias, mas as inovações financeiras não tentarão, de formas igualmente surpreendentes, avançar pela marginalidade destas novas regras?

Enquanto isso, no Brasil…
Voltando para a nossa realidade, alguns pontos em comum com o crescimento do crédito americano, que no decorrer do tempo levou o pais rumo à crise financeira, merecem atenção e algum debate.

O crédito no Brasil ainda é pequeno em relação ao PIB: algo em torno de 36,5%. No entanto, alguns indicadores começam a preocupar o leitor mais atento e que se preocupa com a hipótese de uma crise semelhante aparecer por aqui:

  1. O país possui o dinheiro mais caro do mundo. Quem não conhece as taxas de algumas modalidades, como cheque especial e o crédito rotativo do cartão de cartão de crédito? Algo perto da imoralidade;
  2. Os brasileiros não estão acostumados a lidar com o crédito fácil (não confundir com barato) e as dívidas acabam se tornando bolas de neve, com enorme potencial de destruição. Expandir demais essas opções cria um sem número de pessoas endividadas e que, em algum momento, podem não ter condições de honrar seus compromissos.

A jornalista Mirian Leitão tem interessantes dados sobre o crédito, publicados em um recente artigo de sua autoria:

“Em dezembro de 2004, os brasileiros tinham R$ 17 bilhões em empréstimos consignados. Em junho de 2008 o valor chegava a quase R$ 73 bilhões. No mesmo período, o crédito pessoal pulou de R$ 43 bilhões para R$ 116 bilhões. Os empréstimos para pessoas físicas saíram de R$ 134 bilhões para R$ 315 bilhões.”

Os números impressionam. Mas calma. No Brasil, as regras de concessão de crédito são muito mais rígidas que nos EUA, o que é um ponto relevante em uma discussão desse gênero. Tudo pode se complicar, claro, se a crise durar muito tempo e atingir de forma mais intensa nosso país.

Entendendo o efeito dominó
Com a crise ou desaquecimento da economia em níveis alarmantes, o primeiro sinal evidente sempre é o aumento do desemprego. Como a coisa toda se desenrola? Pense nestes cidadãos sem emprego e com dívidas ainda em andamento. O pouco que lhes resta será usado para o bem da família, alimentação, cuidados pessoais e etc. A dívida é deixada de lado.

É fácil imaginar os desdobramentos em cadeia que a inadimplência causaria, certo? Afinal, quantos milhões financiam casas, apartamentos e outros bens de consumo? Diante desse cenário, voltamos a afirmar: crédito fácil pode ser um perigo para as finanças pessoais[bb]. Evite essas opções, seja honesto e prático com seu futuro: planeje as compras e use só o dinheiro que você já tem. Seu bolso e o país inteiro agradecem.

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Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Ricardo Pereira
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