Fernanda comenta: “Navarro, serei bem objetiva porque estou em apuros: existe alguma maneira mais eficiente de lidar com as contas (principalmente boletos)? Pergunto porque é comum eu me esquecer de pagá-las ou simplesmente não ter o dinheiro necessário no dia do vencimento. O que devo fazer? Obrigada”.

Você abre sua caixa de correspondências ou passa pela portaria e lá estão elas, as contas. Como de costume, você dá aquela “bufada”, brinca com o porteiro (“Mais contas? Pode ficar para você!”) e, ao chegar em casa, joga tudo em cima da mesa. Já é tarde, você está cansado(a), melhor mexer nisso “outro dia” (amanhã?).

O “outro dia” chega e você, atrasado para o trabalho, toma um rápido café da manhã e corre para conseguir chegar a tempo no serviço. As contas ficaram lá, onde você as deixou ontem, por sorte em cima da mesa, ou por azar dentro de uma gaveta. Hoje você vai chegar em casa e uma nova conta provavelmente estará à sua espera.

Ah, sim, é bem provável que você se lembre de pagar a maioria das contas que recebe. Mas a gaveta ou aquela mesa bagunçada provavelmente ainda tem pelo menos um ou outro boleto vencido e, pior, esquecido. Bom, sua cabeça pode não se lembrar desta ou daquela conta, mas seu credor certamente se lembrará dela no mês que vem.

Eu disse “você isso”, “você aquilo”, mas não é porque adivinhei que você age assim com suas contas. Calma. Foi só uma maneira de contar a história mais comum que presencio no meu dia a dia de facilitador da educação financeira para diversas famílias brasileiras. Porque gostamos de gastar, mas não de ter que pagar. Engraçado, né? Nem um pouco!

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Esquecer de pagar não é normal

“Ok Navarro, você já sabe como as coisas funcionam, mas como lidar com essa realidade?”. Aqui começa a mudança de mentalidade (daqui a pouco vamos falar da mudança de hábito): esquecer de pagar contas ou não se planejar para elas não pode ser realidade, mas uma situação a ser enfrentada e resolvida.

Não é normal deixar um boleto para lá e uma conta para cá. Não é normal assumir despesas frequentes, mensais e sempre dirigidas à sua casa sem ter condições de pagá-las. Portanto, comece assumindo que isso é um problema que precisa ser resolvido com o apoio da família.

Ao aceitar que trata-se de uma situação que precisa ser resolvida, você conseguirá olhar de uma maneira mais objetiva (e menos apaixonada) para o seu orçamento doméstico. Duas coisas deverão saltar aos seus olhos:

  • Não há registro das despesas. O principal problema das famílias é não ter absolutamente nenhum controle sobre seu dinheiro. Qual a principal categoria de gastos dentro de um mês? Moradia? Alimentação? Com o que a família tem gasto seu dinheiro todo mês? Registrar as despesas e contas pagas permite analisar e interpretar sua situação financeira de uma forma direta: as receitas devem ser suficientes para pagar as despesas. Ponto;
  • Não há previsão das despesas. Não adianta também apenas registrar tudo e constatar, todo fim do mês, que o total das despesas foi maior que o de receitas. Sentar e chorar todo dia 30 não muda em nada a sua realidade financeira. Como será o mês que se inicia? Como garantir que as despesas não crescerão a ponto de sacrificar toda a receita? É importante projetar os gastos fixos e variáveis para simular a passagem do mês, o que permitirá uma visão clara dos eventuais ajustes necessários para que problemas financeiros sejam evitados.

Repare que o que estou dizendo é simplesmente que você se esquece de pagar as contas porque não registra a importância de pagá-las todo mês. E você fica sem dinheiro para um ou outro boleto porque não pensa no seu fluxo de caixa futuro, ou seja, no que vai acontecer com seu dinheiro no decorrer do tempo.

É bem óbvio, eu sei que você a esta altura já está nervoso(a) com a simplicidade do conceito: se todas as contas e receitas estiverem anotadas e registradas, inclusive para os meses seguintes, você será capaz de olhar para o seu orçamento de uma forma proativa, inteligente, com tempo para fazer alterações de rota.

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A solução em três etapas

Sempre que trabalho com orçamentos desatualizados e famílias que costumam deixar determinadas dívidas se acumularem, dou três sugestões:

  1. Agende o pagamento do boleto ou da conta no dia em que recebê-la. Chegou em casa, tem conta para pagar, não espere o “outro dia” ou a “melhor hora”. Aproveite a tecnologia (hoje os bancos “estão” no seu celular) e agende o pagamento para a data de vencimento apresentada no boleto;
  2. Registre na mesma hora o pagamento da conta no seu orçamento. Seu fluxo de caixa precisa ser parecido com uma linha do tempo, ou seja, um controle de entrada e saída de recursos de acordo com os dias do mês (como no extrato bancário). Então é hora de já anotar o débito agendado para a data certa;
  3. Certifique-se de que há saldo suficiente para as despesas registradas no orçamento. Da mesma maneira que esquecer de pagar a conta é perigoso, agendar seu pagamento e não se lembrar de garantir saldo suficiente na data do vencimento também é. Você precisa atualizar o orçamento com frequência e sempre basear-se na previsão dos gastos para o mês, levando em conta os agendamentos futuros.

Você provavelmente tem despesas recorrentes (aquelas que todo mês você paga), portanto é importante que elas sejam projetadas para um período à frente do mês atual. Procure ter o menor número possível de despesas fixas e evite que certas despesas variáveis apareçam todo mês (ou você correrá o risco de encará-las inconscientemente como fixas).

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Conclusão

Todo mundo já se esqueceu de pagar uma conta, e eu também já passei por isso. O problema é quando o esquecimento se torna sinônimo de negligência e passa a ser usado como uma desculpa para o endividamento. Esquecer, tudo bem, mas fazer disso um estilo de vida é uma decisão terrível!

Orçamento doméstico, tudo começa e termina nele. Começa porque é através dessa ferramenta que você terá um diagnóstico preciso de sua situação financeira atual; termina porque a sua caminhada de vida jamais deverá ser dissociada de seu uso. Pode ser um caderno, uma planilha de orçamento ou um software gratuito de controle financeiro, não importa.

Se você tem a sensação de que já conhecia as saídas para o problema das despesas apresentadas aqui, fique tranquilo. Finanças pessoais representam problemas de atitude, não de conhecimento. Sabemos muito bem o que precisa ser feito, mas daí a fazer são “outros 500”. Você concorda? Obrigado e até a próxima.

Foto “Looking over bills”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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