Dinheirama - Finanças Pessoais“A inflação está sob controle e o país continuará crescendo cerca de 5% este ano”. A frase é mais uma das já tradicionais (e duvidosas) frases proferidas pelo Ministro Guido Mantega. Mais que uma afirmativa, podemos entendê-la como uma aposta. Ontem, o Banco Central divulgou o seu relatório de inflação, onde aponta que a expectativa de inflação para este ano é de 4,6%, número ligeiramente acima do centro da meta de inflação, estipulada em 4,5%.

No artigo “Que tal o Regime de Metas de Inflação” tivemos a oportunidade de aprofundar um pouco mais o debate e simplificar o tal Regime de metas. Vale lembrar que o Brasil adotou o Regime de Metas de Inflação em junho de 1999, após um forte ataque especulativo. Antes, o país adotava o chamado Regime das Bandas Cambiais.

Para facilitar o entendimento, perceba que, desde a criação do Plano Real, a supervalorização da taxa de câmbio e a elevação do grau de abertura externa da economia foram os pilares principais da política de combate à inflação.

Em 1999, graças ao ataque especulativo, a autoridade monetária percebeu que, em um contexto de instabilidade do sistema financeiro internacional, trabalhar com ancoragem cambial era totalmente ineficaz, pois tirava do Banco Central o controle e a manutenção de sua própria política de controle da inflação, deixando o país vulnerável demais e com a possibilidade de perder o controle da taxa de câmbio nominal.

O papel do Banco Central
A atual direção do Banco Central tem sua atuação marcada pela ortodoxia na condução da política econômica, não exitando ao utilizar da sua mais controversa arma no controle da inflação: o possível aumento da taxa básica de juros, a já tão conhecida taxa Selic.

O governo utiliza como índice para desempenho inflacionário o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo). Ainda no contexto exposto pelo ministro Mantega, mesmo com esse aumento na expectativa de inflação tudo estaria dentro do esperado, não existindo nenhuma pressão inflacionária neste momento, ao contrário do presenciado no ano passado, com a alta dos preços dos alimentos.

Oferta e demanda
Ao lembrar a questão agrícola e dos alimentos em geral, Mantega de fato demonstra melhora na capacidade de ampliação na oferta de alimentos para 2008. Boa notícia, mas esse fenômeno de equilíbrio entre oferta e demanda é essencial também para outros setores da economia.

Em 2007, o grande carro-chefe da economia foi o setor automobilístico. Segundo o presidente da Anfavea, Jackson Schneider, no ano de 2008 a indústria de automóveis irá investir cerca de US$ 5 bilhões, o que elevará a capacidade instalada no setor de 3,5 para 3,8 milhões de automóveis/ano ainda em 2008 Esse otimismo todo em torno do setor inclui a área de auto peças, que projeta um mercado de até US$ 20 bilhões em 2010.

Sabe-se que ampliar a capacidade de exportação da indústria automobilística é um dos grandes objetivos do governo, que considera essa exportação como maneira de compensar a indústria em uma possível restrição ao crédito por parte do governo, com o objetivo de conter a inflação causada pela demanda.

Após o comentário infeliz do Ministro Mantega (sobre a restrição ao financiamento e crédito), muitos correram às lojas para comprar seus carros aproveitando ainda as “boas condições” de hoje. Entre aspas, sempre, porque ainda vivemos entre as mais altas taxas de juros.

Crédito fácil não é o mesmo que crédito barato. Já devo ter escrito isso uma dúzia de vezes por aqui. Dando o braço a torcer, mesmo alto o juro no Brasil há muito tempo não chegava nesse patamar cerca de 31,2% ao ano (projeção em fevereiro) para financiamento de automóveis, contra 44,3% na média geral para os demais tipos de crédito para pessoas físicas.

Dívidas de longo prazo quase nunca são boas, você há de concordar. Entretanto, na realidade do país onde poucos conhecem e aplicam um bom planejamento financeiro[bb] e os juros altos encarecem o crédito, muitos ainda optam pelo caminho do financiamento em diversas prestações.

Altos juros, crédito farto e inadimplência
As justificativas das financeiras e bancos para o alto juro do crédito no país são duas:

  • Alta carga tributária
  • Inadimplência

Eu colocaria mais um item: a ganância do setor bancário, algo que na realidade faz parte do jogo do capitalismo. A tributaçõ segue elevada, é verdade, mas o aumento do crédito nos últimos anos não resultou aumento na inadimplência. Ela caiu de 7,3% em 2007 para 7,1% em 2008 (prestações em fevereiro de 2008 que registravam atrasos superior a 90 dias).

A expectativa geral é de que se o governo não atrapalhar, o crédito total concedido a pessoas e empresas deve chegar ao fim de 2008 representando algo em torno de 40% do PIB (Produto Interno Bruto). Pouco se comparado com o Chile (50%), Malásia e Tailândia (80%).

Preparar, Apontar, Fogo!
Depois de viajar nas ondas do crédito e da inflação, finalmente chegamos ao ponto crucial do artigo: a constatação de que existe um excesso de consumo no país, inclusive acima da produção. Ao apontar a arma do aumento para a taxa de juros, o Banco Central erra o foco. A meu ver, soa como uma bala perdida.

O aumento do consumo não significa, simplesmente, que as pessoas estão gastando mais. Entram também aí os gastos das empresas (que estão investindo e criando novos postos de trabalho) e principalmente os gastos do governo.

Percebe-se desde cedo que os gastos do governo estão desajustados. Gasta-se muito com o custeio da máquina, ingerência no trato das obras, corrupção, previdência deficitária etc. A arrecadação dos impostos cresce mais que a economia, fato que impulsiona os gastos e programas assistencialistas do governo.

Sob o aspecto econômico, gasto é gasto!
Fica o puxão de orelha: o exemplo deveria vir de quem realmente tem mais poder, eliminando despesas de custeio e não investimentos, garantindo o consumo de quem apenas agora começou a aproveitar uma economia ajustada. Quando vamos, como país, mudar de postura?

Nosso governo sempre cita exemplos asiáticos de desenvolvimento. Acredito que, neste sentido, poderiamos utilizar exemplos de um dos tigres que vive, como o Brasil, tendências inflacionárias: a Coréia do Sul. Lá, as medidas tomadas para conter os preços passaram pela redução (em alguns casos até eliminação) de tarifas de importação, redução de impostos locais e cortes de gastos públicos.

Aqui, ao que se sabe, a opção vem sendo diferente: “culpar” o crédito e aumentar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSSL) cobrada dos bancos, aumentando o custo dos financiamentos, já que os bancos repassaram a mudança para taxa de juros.

Claro, falar é sempre fácil, mas nossas armas são as palavras. Queremos um Brasil melhor, assim como você. Bom final de semana. Aproveite seu tempo livre para conhecer o Fórum Sociedade Dinheirama e aprofundar o debate sobre economia, investimentos, empreendedorismo etc.

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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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