Dinheiro no Brasil é caro, vira e mexe você me escuta falando isso ou lê algum texto em que alerto para o perigo embutido nas compras feitas arrastando com elas os juros dos empréstimos.

Ao mesmo tempo, eu (e todas as torcidas juntas) comemoro quando a Taxa Selic cai, afinal de contas ela é o principal balizador para o custo do dinheiro no país. Em agosto de 2016, a Selic estava em 14,25% ao ano. Hoje está em 5% a.a., valor mais baixo já registrado.

Se a Selic literalmente despencou, por que os juros dos empréstimos não seguiram o mesmo caminho? A resposta para esta pergunta deveria ser simples, mas não é; os juros deveriam estar mais baixos, mas não estão. Vamos discutir um pouco o tema para aprendermos juntos sobre essa realidade?

Juros dos empréstimos, veja como são elevados:

Modalidade2016 (ao ano)2019 (ao ano)
Cartão de Crédito475%308%
Cheque Especial321%308%
Cartão de Crédito Parcelado152%178%
Empréstimo Pessoal132%113%
Consignado (setor privado)44%35%
Consignado (INSS)30%23%
Consignado (setor público)27%19%
Financiamento de veículos26%20%

Fonte: Banco Central

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Taxa de juros do cheque especial será bem menor em 2020

A boa notícia diante deste quadro começa a valer de fato em 2020: o Banco Central (BC) limitou a 8% ao mês o juro máximo que pode ser cobrado no cheque especial, o que equivale a cerca de 150% ao ano – metade da média atual conforme vimos na tabela. Continua alto, mas é uma sinalização interessante para o consumidor.

Se por um lado há agora uma imposição por parte do BC, os bancos ficarão livres para cobrar uma tarifa para disponibilizar o limite de cheque especial aos clientes, o que não ocorreu até agora.

Para limites de crédito de até R$ 500,00 está vedada a cobrança de tarifa; acima desse valor, os bancos poderão cobrar uma taxa mensal de até 0,25% do valor que exceder R$ 500,00. Atualmente, cerca de 19 milhões de clientes têm limite até este valor.

Juros dos empréstimos: por que não caem?

A resposta para a pergunta “Por que os juros dos empréstimos não caem?” geralmente tem respostas diferentes, dependendo do interlocutor. As mais comuns são: inadimplência nos empréstimos, falta de competitividade, custos na intermediação bancária (compulsório) e a gravidade da crise brasileira.

Cabe salientar que estas são razões alegadas, ou seja, apontadas por diferentes instituições e participantes do mercado financeiro, o que não significa que sejam de fato as mais relevantes. O lado estratégico das empresas do setor não é acessível, portanto quero comentar os temas de forma a dar um panorama, não um diagnóstico.

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Razão alegada 1: Inadimplência nos empréstimos

Inadimplência nos empréstimos é um fator relevante, uma vez que varia bastante de acordo com o tipo de crédito e natureza da operação de financiamento (com ou sem garantia). Na média, a taxa de inadimplência para a pessoa física está em 5%.

No cartão de crédito rotativo, por exemplo, a inadimplência pode chegar perto de 40%, taxa que cai para abaixo de 3% para o cartão parcelado e fica perto de 14% para o cheque especial, todas estas modalidades sem garantia.

No caso dos consignados e financiamentos de veículo, exemplos de empréstimos com garantia, as taxas de inadimplência são bem mais baixas, variando de 2,1% a 4,2%.

O que tudo isso significa ou tem a ver com a redução da Selic e dos juros para o consumidor? Quando muitas pessoas devem, isso compromete o sistema e a lógica acaba sendo “quem paga em dia, precisa pagar por aqueles que não pagam”. Os juros não caem.

Some a isso o patamar de endividamento geral da população, perto de 45%, e temos uma situação clássica de análise de risco. As pessoas em geral não podem se endividar tanto mais, então ao conceder crédito é preciso ser seletivo e ter rentabilidade. O cálculo do BC leva em conta o total das dívidas dividido pela renda no período de 12 meses.

O quanto a inadimplência precisa baixar ou melhorar para ajudar os juros a caírem é uma incógnita, especialmente porque este indicador não deve ser analisado de forma isolada.

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Razão alegada 2: Falta de competitividade

Não é novidade para ninguém a situação do nosso sistema financeiro quando o assunto envolve alternativas para se abrir e utilizar uma conta corrente no dia a dia. Apesar do significativo aumento na concorrência, ainda dá para dizer que temos um bom caminho a percorrer para realmente “abrir” o mercado.

Você provavelmente tem conta em um dos seis principais bancos brasileiros. Se não tem mais, já teve. Se nunca teve, alguém de sua família com certeza tem. Fintechs e bancos digitais estão mudando este quadro muito rapidamente, o que é bem-vindo e muito relevante para o consumidor.

Este item é importante porque estou falando não só de maior concorrência direta, o que por si só já tem um peso enorme na oferta de produtos mais interessantes (baratos), mas também nos desdobramentos disso para o cliente, como por exemplo:

  • Open banking. Algo que o Banco Central vem apoiando e que deve ser colocado em operação até 2021, o open banking nada mais é do que a possibilidade de acessar as informações sobre clientes em diferentes instituições, desde que respeitado o princípio da reciprocidade (a instituição que aderir ao open banking permitirá que seus dados sejam compartilhados, mas também terá acesso aos dados de concorrentes). O BC inclusive acabou de colocar o tema em consulta pública. As implicações deste acesso tendem a ser interessantes para que empresas diferentes possam criar produtos cada vez mais assertivos e aderentes a determinadas parcelas da população;
  • Cadastro positivo. Parece bastante justo e coerente que um bom pagador tenha acesso a juros mais baixos quando decidir financiar algum bem, e isso já funciona em muitos países mundo afora. Por aqui, a pontuação de crédito (ou credit score) não é exatamente uma novidade, mas sua utilização e acesso por parte do consumidor e empresas começou a ganhar força mais recentemente.

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Razão alegada 3: Custos na intermediação

Os bancos são taxativos ao afirmarem que o spread tem alguns componentes não totalmente compreendidos pelos que criticam os juros altos. Os custos na intermediação compõem esta lista e são ao mesmo tempo compreensíveis e questionáveis.

Compreensíveis na medida em que as instituições financeiras precisam garantir sua operação, entregando agilidade, bons serviços, mas principalmente excelente retorno para seus acionistas. Os lucros bilionários são uma prova de eficiência neste sentido.

Questionáveis porque não são exatamente conhecidos e explicados, o que torna a discussão um pouco evasiva e simplista. Talvez a concorrência maior e mais acirrada exija que as operações sejam cada vez mais otimizadas, e esse movimento já está começando.

Eu diria que as principais instituições financeiras são um importante esteio para nossa economia, afinal são capilarizadas (muitas agências), grandes e robustas o suficiente para contribuir para com nosso ecossistema e economia. Os bancos são necessários e muito importantes para o progresso.

Diminuir o número de agências, criar canais de atendimento mais eficientes, oferecer mais tecnologia capaz de minimizar custos e integrar-se a diferentes serviços, plataformas e outros produtos (de outras empresas, inclusive) já são mudanças que começam a ocorrer. Isso ajuda na oferta de juros menores.

Razão alegada 4: Gravidade da crise

Ao observar o cenário econômico atual, com inflação sob controle, Taxa Selic em patamar historicamente baixo, mas com crescimento muito fraco, fica fácil também colocar na conta dos juros ao consumidor a crise vivida nos anos recentes e seus reflexos.

A questão aqui é relativamente simples: uma mistura de desemprego elevado, famílias endividadas e ausência de perspectivas de aumento (ou recomposição) formal de renda. O efeito colateral mais comum é o aumento da informalidade, mas para efeitos de tomada de crédito isso não é legal.

Um financiamento ou empréstimo requer garantias, e as instituições ficam ainda mais seletivas quando o momento econômico não é favorável. Isso sem contar que precisam manter-se rentáveis, o que significa fazer bem o que chamamos de gerenciamento de risco.

Os números mais recentes mostram uma leve recuperação econômica, maior crescimento do emprego formal e mais confiança, um indicador fundamental para retomadas mais duradouras. Tudo isso ajuda a baixar os juros dos empréstimos.

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Juros dos empréstimos: de olho nas fintechs e nas alternativas

Nem eu, nem você. Nós não temos o poder de baixar os juros dos empréstimos no grito. Nossa parte se traduz em entender um pouco melhor do que está acontecendo, das razões para essa realidade para buscar alternativas. Algumas sugestões:

  • O planejamento é um aliado contra os juros elevados. Não deixar para depois o controle financeiro é uma decisão inteligente neste momento;
  • Pesquisar muito bem as alternativas de crédito é importante, comparando o Custo Efetivo Total (CET);
  • Ficar de olho nas fintechs pode ser interessante também, afinal muitas delas estão surgindo justamente para preencher lacunas deixadas pelos grandes bancos, além de oferecer produtos mais competitivos;
  • Criar a própria reserva de paz e oportunidades também é essencial. Você precisa começar a guardar dinheiro e fazer disso um hábito, e aí não precisará sempre de empréstimos.

Conclusão

Discutir a queda dos juros dos empréstimos é tão importante quanto pagar mais barato no crédito, quando ele for necessário. Uma das coisas que sempre defendi é justamente a necessidade de nivelar melhor o conhecimento de finanças pessoais, evitando assim a assimetria de informação.

A queda dos juros no Brasil é realidade, mas ainda ocorre em câmera lenta. Nota-se um compromisso grande da atual equipe econômica em lidar melhor com essa realidade, sem demagogia e intervencionismos delirantes como no passado. Tomara que funcione.

Enquanto observamos atentamente os desdobramentos dessa aventura, cabe a nós manter atenção redobrada diante da oferta de crédito, questionando taxas, mas também nossas próprias decisões e estilo de vida. Quanto menos dinheiro emprestado, melhor.

Conrado Navarro
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