Olá leitor! Cá estou iniciando o segundo artigo nesta coluna e antes de mais nada agradeço os feedbacks e os “shares” do 1º artigo. Muita gente me perguntou se o que escreverei também será útil para profissionais de outras áreas, além de Psicologia e saúde e acredito que sim. Apenas não será específico para uma determinada profissão. Como o foco é o profissional liberal, sejam todos bem-vindos.

O nosso tema hoje é a pessoa do profissional. Sim, você, leitor, a partir de uma visão emocional, psicológica da sua relação com o trabalho e carreira, que sem que percebesse, foi sendo construída “lá atrás”, em sua família, com modelos, através de comportamentos, bem como pelas crenças e valores que lhe transmitiram, inclusive de geração em geração (há inúmeros estudos mostrando esta influência no uso do dinheiro).

É na família que acontece a socialização econômica, ou seja: a aprendizagem da criança em relação ao dinheiro e de conceitos e comportamentos econômicos. E é nela que são transmitidas as crenças e valores que mencionei acima, que repercutirão na vida adulta. Quer checar?

O que mais ouviu ou viveu em sua família a respeito do dinheiro? Experiências negativas ou positivas? O que seus pais lhe ensinaram ou não ensinaram sobre dinheiro? Agora pense: elas influenciaram na sua maneira de usá-lo? Provavelmente sim e sendo afirmativo: como foi ou é, em seu trabalho/ sua profissão?

Um exemplo pessoal: tenho duas frases interessantes que eram vivenciadas em minha família. A primeira é de que “dinheiro e amor não combinam”, e a segunda que é “trabalhe duro que o dinheiro vem”. Aprendi direitinho a lição, mas não foi tão bom assim.

Por que? Não basta “apenas” trabalhar duro, e às vezes nem é o caso! Tem que se trabalhar com prazer, ter estratégias, montar um plano para que o dinheiro venha e mais, que fique e dê resultados. E sobre a primeira (dinheiro e amor)… Isso deu um “nó” na minha cabeça, que demorei para desfazer, bem como os seus “estragos”.

Entendeu como funcionam as mensagens recebidas na família da gente? Em meu doutorado, investiguei esta questão e ficou evidente como até os avós exercem influência, ainda mais num país cuja herança cultural dos imigrantes é muito forte e a família um valor de referência.

Pense nos valores que seus pais, avós, tios transmitiram ao longo da vida. Você concorda com eles? São os seus também? De que maneira influenciam a prática profissional? E no uso do dinheiro?

Pode não parecer, mas no momento de tomada de decisões, incluindo as econômicas, muitas destas crenças estarão presentes através do otimismo excessivo, confiança demais, na necessidade de acreditar, negação, comportamento de manada, entre tantos outros.

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Então, uma das primeiras “tarefas” que deve ter com você mesmo ao pensar na sua profissão, é olhar para os aspectos familiares a respeito de crenças e valores, pois são eles que nortearão muito de suas escolhas e mais ainda, as decisões que tomar ao longo da vida. Lembre-se daquela maravilhosa música que diz: “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”.

E antes que me critique por estar falando de família e “jogando boa parte da culpa” nela, lembre-se que sou terapeuta familiar há mais de 20 anos e adoro família! Só acredito que nem tudo que nos ensinam lá é bom sempre. O desenvolvimento humano é dinâmico e há também (e felizmente) nossa história pessoal, traços de personalidade, contexto de vida, etc.

O que adoro fazer é ver qual o melhor que ela (família) ofereceu e ampliar isto ao máximo, deixando para trás o que não foi bom, tirando lições, e seguindo em frente, ok? E vale para o trabalho e dinheiro! Aqui, o seu trabalho e o seu dinheiro!

Vamos continuar… A escolha da profissão também passa (e muito) pela nossa história familiar:

  • Quais os motivos que levaram você a ser um profissional da área de saúde, que cuida da dor humana?
  • Quem na família também trilhou este caminho ou não teve ninguém na família e isto o levou a buscar algo diferente?
  • A sua escolha de sua profissão teve como uma das razões ficar próximo de sua família ou se diferenciar dela, buscando outro percurso? Quais as consequências em sua prática?
  • Que histórias viveu que optou por cuidar tão diretamente do outro em sua fragilidade? E cuidando tão bem deste aspecto delicado e subjetivo que é a dor, a angústia humana, há lugar para o dinheiro?

Nossa! Até cansa pensar nisto tudo, não é mesmo? Você não precisa e nem deve responder tudo de uma única vez. Vá aos poucos, refletindo e tendo uma acolhedora conversa consigo mesmo. Uma sugestão: anote e aos poucos vá elaborando.

Bem, além dos aspectos familiares, há também os aspectos culturais que se apresentam através de mensagens que escutamos ingenuamente e não nos damos conta de que estão causando alguns “estragos” em nossos comportamentos e mais ainda, na nossa prática profissional.

Por exemplo, já ouvi muito em minhas oficinas e palestras que fica difícil conciliar dor com dinheiro, como por exemplo: “cuidado humano e dinheiro não combinam”, “terapeutas devem ser mais humanas e tolerantes com as dificuldades dos pacientes, inclusive as financeiras”.

Como na Psicologia 89% dos profissionais são do sexo feminino, fica ainda mais complexo conciliar competência profissional com a financeira, porque (aqui me incluo) nós mulheres acreditamos (eu acreditava) não sermos boas o bastante para lidar com o dinheiro, muitas vezes por conta de uma matéria que tivemos chamada Matemática! Não é por aí. Ouço isso com muita frequência e esta realidade também apareceu nos dados de minha tese.

Ainda falando sobre a influência da cultura na prática profissional, na Psicologia ainda há, infelizmente, um viés assistencialista que gera um conflito entre o cobrar e o cuidado com seu cliente.

Novamente convido-o a observar se isto acontece com você e pensar numa forma de fazer diferente, sem se sentir desconfortável, mudando a sua narrativa para uma mais atual e positiva, que lhe permita trabalhar com tranquilidade e coerência com seus valores. Lembre-se do que escrevi no primeiro artigo: você cobra pela técnica!

Feito tudo que escrevi acima, tente entender qual o lugar que o dinheiro ocupa na sua profissão. Ele (dinheiro) tem sido um facilitador para que você atinja suas metas de vida? Espero realmente que sim, mas se não, hora de mudar. Mãos à obra!

Conclusão

No artigo de hoje escrevi sobre a nossa base emocional/psicológica e social onde está construída nossa profissão e nossa prática. Ainda enfocando a pessoa do profissional, mais especificamente do psicoterapeuta, um aspecto importante que abordarei posteriormente será o estresse ou síndrome de burn out, mais comum do que se imagina.

Vejo você no próximo artigo, já escrevendo sobre as questões do dia a dia e os aspectos administrativos. Até lá!

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Foto “Human being”, Shutterstock.

Valéria Meirelles
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