Professora Vera Rita de Mello FerreiraEstamos no final do ano, momento em que todos os sentidos estão voltados para os presentes de Natal, 13o salário e para a esperança de um ano novo melhor. Para entender melhor o nosso comportamento econômico nesse período do ano e no nosso cotidiano, com muita satisfação trago para você, leitor do Dinheirama, uma entrevista enriquecedora sobre Psicologia Econômica. Tive a oportunidade de conversar com a Professora Vera Rita de Mello Ferreira, psicanalista, doutora em Psicologia Econômica (PUC-SP), consultora e pesquisadora da área de tomada de decisões[bb], com foco sobre o componente emocional e as decisões econômicas.

Ela é representante no Brasil da IAREP – International Association for Research in Economic Psychology  e autora, dentre outras publicações, dos livros “Decisões econômicas – você já parou para pensar?” (Saraiva, 2007) e “Psicologia Econômica – estudo do comportamento econômico e da tomada de decisões” (Campus/Elsevier 2008). O objetivo do trabalho desenvolvido por ela é, em suas palavras:

“Levar à população informações sobre decisões econômicas, o que iria além de explicações sobre o funcionamento da Economia em si, para chegar aos componentes da tomada de decisão, operações psíquicas fundamentais nas quais emoção e razão encontram-se profundamente inter-relacionadas, e as principais ciladas, já identificadas pela Psicologia Econômica, e pela Psicanálise também, em que se pode cair com relação a processos de percepção, memória e avaliação dos dados, responsáveis, portanto, por grandes equívocos nessa área, a despeito das melhores intenções.”

Estou certa de que as informações trazidas pela Professora Vera Rita contribuirão muito para nossa tomada de decisão no momento das compras e de como conduziremos nossa vida rumo a um cotidiano mais consciente e com escolhas responsáveis. Confira e deixe seu comentário.

1. Obrigada pela disponibilidade Professora Vera Rita. Pode começar contando-nos um pouco sobre a Psicologia Econômica no Brasil?

Vera Rita: A área ainda está em construção no Brasil. Apesar de ter ganhado força por volta dos anos 80, muitas pessoas ainda não a conhecem. Há mais de 100 anos, na Europa, alguns pensadores sociais começaram a buscar uma abertura no campo econômico e a disciplina nasceu da necessidade de dar um enfoque mais abrangente à economia, que não daria conta de explicar suficientemente os fenômenos econômicos.

A Psicologia Econômica abrange o estudo dos mecanismos psicológicos através dos quais emerge o comportamento econômico e seus efeitos. A economia tem fortes influências sobre a vida dos indivíduos e a psicologia pode contribuir em muito para o entendimento e a discussão dos problemas nessa área.

2. Como você define o comportamento econômico do brasileiro?

VR: Não é muito diferente do que encontramos no Ocidente. Podemos mencionar alguns pontos interessantes:

  • Há uma falta de consciência de como os indivíduos fazem suas escolhas. Eles não gostam de pensar, de falar sobre economia[bb], de refletir sobre a administração financeira;
  • O brasileiro não tem tradição de poupar, isso em parte devido à experiência com a inflação. Também não tem tradição de fazer doações, por razões que ainda precisam ser investigadas;
  • Não se dão conta de como estão se comportando no mundo. Por exemplo, não se reflete sobre querer ter um filho, comprar presentes, dar uma carona no seu carro.

O importante é saber que comportamento financeiro diz respeito a qualquer tipo de escolha que envolva recursos finitos. Isso vai além do dinheiro, inclui sustentabilidade, comportamento consciente, cuidado com o meio ambiente, reciclagem etc. No Brasil, há somente 15 anos que estamos com a inflação controlada e isso desorganizou  muito a cabeça dos indivíduos – e só agora passamos a pensar em investimentos, previdência privada, dentre outros temas.

3. Chega o final de ano, momento de “euforia coletiva”, onde o foco está nas compras de Natal. Quais são as principais ciladas identificadas pela Psicologia Econômica em que o consumidor costuma cair?

Vou citar três ciladas mais comuns que acontecem:

Contabilidade mental: o indivíduo faz um cálculo mental do seu 130 salário e o relaciona com suas despesas de forma estanque. Exemplo: ganho R$5.000, gasto R$2.000. Sobram R$ 3.000. Amanhã resolvo arrumar a casa e gasto mais R$4.000 e não me dou conta que já ultrapassei meus R$5.000!

Empolgação momentânea: essa é a cilada mais popular. Todo ano, pesquisas apontam que as pessoas irão usar o 130 para quitar suas dívidas e guardar uma parte para o IPVA e despesas escolares. Em janeiro, a pesquisa é repetida e observamos que não só as pessoas não fizeram o que pretendiam como se endividaram mais por conta das festas de final de ano. Não temos consciência da necessidade de planejamento e deixamos nos levar pela máxima “eu mereço”. Não resistimos ao primeiro impulso de compra; é como uma pessoa de regime que promete comer só um docinho e, quando percebe, já ingeriu vários.

Presentes para os filhos: é uma cilada que os pais caem com freqüência. O sentimento de culpa pela ausência física ou mesmo pela falta de afeto leva os pais a cederem aos desejos dos filhos. Compensam a frustração dando presentes caros.

4. Por que os indivíduos, mesmo conhecendo a fórmula “gastar menos do que se ganha”, acabam contraindo tantas dívidas? Por que é tão difícil mudar esse padrão?

VR: Uma das questões é a empolgação do momento, citada na questão anterior. Quando eu me vejo na frente da possibilidade de comprar, vem a ilusão. Ilusão de que a compra irá resolver todo o sentimento de frustração e vazio que está em mim. O marketing, o crédito fácil oferece máximas do tipo “aqui está a solução dos seus problemas”. Esse apelo, junto com meu desejo, é a combinação ideal para consumir.

Veja, temos dois tipos de funcionamento mental:

  • O imediatismo, o piloto automático onde eu quero aliviar minha frustração agora. Esse funcionamento predomina em todos nós. Enganamos-nos usando bons argumentos para justificar essa ou aquela compra;
  • O pensar, quando eu examino as alternativas no plano geral. Procuro saber o que é melhor para mim em longo prazo e opto pela reflexão.

É preciso ter serenidade para suportar a sensação que a tendência ao imediatismo provoca, que é a busca para reduzir a tensão o mais rápido possível. É importante saber que emoção e razão são indissociáveis. Em tudo há emoção, elas são raízes de nosso pensamento, e, portanto, de tudo mais que daí decorre. Sua força se faz sentir todo o tempo e, freqüentemente, elas aparecem de forma que não estamos preparados para acolhê-las. É oportuno lembrar que o desejo é inconsciente e jamais poderá ser plenamente satisfeito – essa é uma condição naturalmente humana.

5. Acho muito instigante a expressão “avesso da tomada de decisão”, citada por você em um de seus textos. Quais os fatores que levam as pessoas a não enxergarem esse avesso? Quais as razões dessa cegueira?

VR: Começa pelo fato de que nossas operações mentais são inconscientes, não temos idéia clara do que realmente nós queremos, do que está presente em nossa mente, dos nossos motivos. Na hora da decisão, procuro o mais rápido, a solução mais rápida. Eu quero me livrar do desconforto e “pulo a parte” de analisar com calma as alternativas. No imediatismo, eu vou! Busco um atalho mental na hora de avaliar minhas alternativas e faço isso de acordo com meu jeito de ser, meu conjunto de valores e crenças.

6. Olhando para o universo infantil, sabemos que as crianças são também consumidoras. Você pode nos falar um pouco sobre como os pais podem conduzir uma educação financeira saudável de seus filhos?

VR: A educação financeira infantil não é minha área de atuação, então vou falar como psicóloga e pela minha experiência clínica. A educação financeira deve seguir a educação em  geral, sendo focada na realidade e respeitando as fases do desenvolvimento infantil:

  • A criança aprende por meio de exemplos e não por palavras. O foco é no plano concreto. Os pais precisam ser coerentes em seus ensinamentos, isto é, não adianta ensinar o filho a economizar se eles não fazem isso;
  • Estar atentos em exemplos que fazem sentido para a criança por meio de ações, como dar a mesada no dia combinado e um valor coerente com a renda familiar. A questão social deve ser trabalhada nesse momento, analisando o contexto e suas diferenças;
  • A educação financeira abrange não só o dinheiro, mas sim tudo que é finito, como ensinar sobre o cuidado com o meio ambiente e a sustentabilidade. É incoerente quando eu guardo moedas e não economizo água ou energia elétrica, por exemplo. A criança precisa entender o sentido de tudo isso.

7. Noto que o brasileiro costuma assumir a posição de vítima das situações. Esse estado de “vitimização” dificulta muito a busca por uma situação econômica estável. Como sair desse estado empobrecido de conformismo?

VR: O problema é muito complexo. No Brasil, vemos uma euforia geral – nessa época do ano – que é igualmente danosa. Não somos vítimas e nem tudo está maravilhoso, a realidade não é assim. Sair do estado de vítima é assumir responsabilidade e é natural fugirmos dessa condição. Isso é uma pena, pois adiamos o amadurecimento, sendo esse a única maneira de crescer e não cometer os mesmos erros.

Não aprendemos quando cometemos o mesmo erro e ficamos reféns desse ciclo vicioso: errar e culpar os outros ou a situação. O autoconhecimento é um caminho importante para o amadurecimento, pois quem conhece melhor sua vida e os problemas que está enfrentando certamente encontrará as alternativas para conduzi-los.

Muito obrigada, Professora Vera Rita, por sua disponibilidade e pelo aprendizado. Se você quer saber mais sobre esse importante e pioneiro trabalho, acesse www.verarita.psc.br. Até a próxima.

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