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Quais os verdadeiros riscos de uma gestão ativa?

A premissa é que escolher ativamente as ações ou títulos de renda fixa permitirá superar a média desses mercados

por André Salmeron
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Gestão Ativa

Atualmente no Brasil, a maioria dos investimentos ainda segue uma lógica ativa, no qual os ativos que compõe a carteira são escolhidos por uma pessoa ou equipe de gestão, com base em análises próprias. A premissa é que escolher ativamente as ações ou títulos de renda fixa permitirá superar a média desses mercados.

Entretanto, será que esse realmente é o caso? Nesse texto, proponho explorarmos alguns dos riscos que estão associados a esse tipo de abordagem e compará-los com aqueles oferecidos por uma gestão chamada passiva, focada em replicar índices amplos. Para podermos entender melhor essas questões, vamos precisar falar um pouco sobre teoria econômica.

Um dos princípios da teoria financeira contemporânea afirma que os preços dos ativos, sejam eles ações ou títulos de renda fixa, sempre incorporam todas as informações relevantes sobre seu rendimento futuro. Em contrapartida, os preços estão constantemente se atualizando frente às novas informações, que chegam a todo momento de forma imprevisível.

Na medida em que o preço traz, dentro do possível, todas as informações relevantes disponíveis ao mercado, podemos tirar algumas conclusões. A primeira delas é que, como não temos como prever as informações futuras, não há como prever quais ações ou títulos terão os melhores retornos e a melhor saída é ter, dentro do possível, todos os ativos ao mesmo tempo.

Segundo, é que se vamos buscar ter o máximo possível de ativos disponíveis, a melhor forma de definir o peso de cada um é replicando o quanto o seu valor total de mercado representa do valor total dos ativos disponíveis. Isso porque se o mercado inteiro está posicionado no mesmo ativo, elevando seu preço, isso nos informa sobre sua relevância e vice-versa.

Para simplificar, então, você deveria buscar ter o máximo possível de diversificação dentro de uma classe de ativos e deveria ponderar cada ativo pela sua capitalização. Dessa forma, irá capturar aquilo que é, em linhas gerais, o retorno médio daquele mercado. Num sentido oposto, quanto mais você se afastar dessa composição “neutra”, maiores serão os riscos desnecessários, que são aqueles que resultam da falta de diversificação.

O risco de fugir da base neutra

O primeiro risco da gestão ativa é rejeitar uma carteira de base neutra para selecionar os próprios ativos, seja na renda fixa ou variável, local ou internacional. Caso as premissas que citamos acima sejam válidas, o normal seria que uma abordagem ativa seja incapaz de entregar retornos acima da média, especialmente no longo prazo.

Atualmente, temos dados extensos sobre a performance dos fundos ativos contra os principais índices de mercado, dentro e fora do Brasil. O resultado está em linha com o que foi discutido, e a esmagadora maioria dos fundos ativos não consegue gerar retornos superiores à média dos diversos mercados em que atuam. Para quem quiser conferir, segue link para o estudo SPIVA da América Latina 2022. (https://www.spglobal.com/spdji/pt/spiva/article/spiva-latin-america/)

Se considerarmos a renda variável nacional, os retornos absolutos dos fundos, em um período de dez anos, foram inferiores ao índice S&P Brazil BMI, similar ao IBRX 100, em 89,22% dos casos. Fundos focados em crédito privado, nesse mesmo período, renderam menos que o índice de debêntures da Anbima (IDA) em 92,75% dos casos. Ao considerarmos os retornos ajustados por risco, esses valores caem, respectivamente, para 87,97% e 75,36%.

Esses dados vêm se repetindo ano após ano dentro e estão em linha com aquilo que é observado, por esse mesmo estudo, nos EUA, onde é publicado anualmente há cerca de vinte anos. Isso deixa bastante claro que conforme a abordagem se torna mais ativa, fugindo de uma base neutra, ela tende a reduzir cada vez mais os retornos da carteira.

Gestão
Ao optar por esses ativos, ou por aqueles que oferecem uma exposição similar a um índice, você conseguirá capturar praticamente todo o prêmio disponível em um determinado mercado (Imagem: Freepik/ Rawpixel)

Os verdadeiros riscos de uma gestão ativa

Quando falamos de realizar uma gestão ativa dos recursos, estamos necessariamente falando de selecionar alguns ativos em detrimento de outros, o que resulta em carteiras cada vez mais distantes de uma base neutra. Como é impossível prever o futuro, e as informações atuais estão sempre refletidas nos preços, a sorte costuma ser de longe o fator mais relevante nos resultados obtidos por uma gestão ativa.

Algumas pessoas levaram essa afirmação ao limite, como o professor e autor Burton Malkiel, que sugeriu que um macaco vendado atirando dardos nas páginas do jornal de finanças seria capaz de montar um portfólio tão rentável quanto qualquer analista profissional. A ideia é que, como o futuro é imprevisível, não faz muita diferença escolher ações através de análise ou de forma aleatória, pois no final é a sorte que decidirá o resultado.

Embora não precisemos ir tão longe na nossa análise, é preciso ter em mente que ao escolhermos os próprios ativos ou delegarmos isso para uma gestão, ou equipe de analistas, estamos nos expondo a um risco importante. Esse é o risco de que nós, ou outras pessoas, sejam afetadas por vieses, análises erradas, previsões otimistas ou pessimistas demais, etc.

Isso tem implicações sérias para a capacidade de um portfólio nos ajudar a conquistar objetivos futuros, pois um erro grave de gestão pode gerar perdas que demorarão vários anos para serem sanadas.

Na recente crise do covid-19, houve fundos de ação considerados de excelência que tiveram perdas de mais de 70%, das quais ainda não conseguiram se recuperar.

Independente da pesquisa que tenha sido realizada, ou do racional que tenha sido aplicado nas decisões desses fundos, o resultado prático foi de perdas muito mais altas do que a média do mercado. Pegando dois casos mais extremos, sem citarmos nomes, o retorno acumulado entre 31 de dezembro de 2019 e 18 de agosto de 2023 seria de -36,52% e -47,42%.

Um ETF que replica o índice IBRX 100, que aplica nas cem maiores empresas da bolsa usando um critério de capitalização de mercado, teria gerado um ganho de 0,25% nesse período. Isso significa que mesmo com mais de dez anos de funcionamento, boas equipes de análise e nomes amplamente reconhecidos no mercado, esses fundos não lidaram nem de longe tão bem com a crise quanto um fundo indexado.

Como estamos falando de juros compostos, as perdas são tão exponenciais quanto os ganhos. Nesse cenário, esses fundos precisam de ganhos de 57,52% e 90,18% somente para voltarem à estaca zero. Apesar de extremo, casos como esse não são nem de longe incomuns, e revelam o verdadeiro risco assumido por quem gostaria de tentar ganhar do mercado.

A indexação é o melhor caminho

Quando estamos falando do seu bem-estar e do seu futuro financeiro, estamos discutindo algo muito sério, que deve ser tratado com o devido respeito. O que isso quer dizer é que nós devemos levar a sério aquilo que é recomendado pela comunidade científica de finanças, que é praticamente unânime na defesa de uma abordagem passiva, indexada e de baixo custo.

Ao optar por esses ativos, ou por aqueles que oferecem uma exposição similar a um índice, você conseguirá capturar praticamente todo o prêmio disponível em um determinado mercado. Esse é um dos princípios que norteiam uma boa alocação de recursos, razão pela qual está na base das carteiras que construímos na Portfel Consultoria.

Ao considerarmos o tamanho do impacto negativo que um erro grave da gestão poderá acarretar, entendemos que essas estratégias devem ser usadas com extremo cuidado, como nos casos em que ainda não contamos com opções passivas e viáveis no mercado local. Entretanto, conforme nosso mercado avança, será cada vez mais difícil justificar carteiras ativas.
O presente texto não deve, sob nenhuma hipótese, ser tratado como uma recomendação de investimentos. Se você gostaria de receber orientações específicas e individualizadas, entre em contato conosco via: www.portfel.com.br

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