Retrospectiva 2007 e perspectivas 2008Hoje é o último dia útil do ano. Uma pena. Lá se vai 2007, um ano espetacular sobre todos os aspectos possíveis e imagináveis. Desenvolver um artigo capaz de condensar e listar um apanhado geral do ano que termina, e ao mesmo tempo tentar observar o que 2008 reserva, é um desafio ao mesmo tempo complicado e gratificante. Principalmente porque 2007 foi o ano do nascimento do Dinheirama, um fato marcante por si só. Assim, convido-o para essa rápida viagem, na expectativa de que o material seja instrutivo e interessante.

O MUNDO
Em 2007: Começamos pelos Estados Unidos, afinal todos se lembram que a economia norte-americana passou por maus momentos em 2007. A crise do subprime balançou o mercado financeiro[bb] e levou grandes bancos e corporações a resultados pífios. As agências de risco tiveram, até certo ponto, sua imagem arranhada já que foram incapazes de prever os problemas de crédito. Empresas do ramo imobiliário tidas como excelentes instituições simplesmente sumiram do mapa.

A crise teve proporções de alto risco para todo o mundo e foi necessária a presença coordenada dos Bancos Centrais norte-americano (Fed), Europeu, Canadense entre outros para garantir a liquidez no mercado financeiro e evitar problemas até certo ponto imprevisíveis.

Em 2008: Passados 6 meses do inicio da crise, ainda é cedo para ter uma idéia clara sobre seus efeitos nos mercados internacionais. Até que ponto ela afetou o desenvolvimento da economia norte americana? Especialistas ainda tentam responder à essa pergunta. Por hora, pode-se adiantar que o crescimento da economia já está comprometido. Mesmo com o corte da taxa básica de juros realizada pelo Fed, tem-se a impressão de que não foi o bastante para evitar ou até estancar o mal, livrando o país da recessão.

A revista Exame, especulando sobre o cenário de 2008, teve acesso ao último relatório do Banco Merrill Lynch que classifica como 100% as chances de que em 2008 a maior economia do mundo sofra uma desaceleração. A revista revela que o banco Bear Stearns, sabidamente um dos maiores afetados pela crise, teve seu primeiro prejuízo registrado em 2007, depois de mais de 84 anos positivos. É o primeiro prejuízo desde a sua fundação.

Finalizando, a revista colhe um depoimento de uma das figuras mais emblemáticas do mercado, Alan Greenspan[bb] – o oráculo – que profetiza que “A economia do país começa a viver os primeiros sintomas de estagflação”, termo difundido onde se observa ausência de crescimento e alta de preços.

OS EMERGENTES
Em 2007: Se de um lado a economia norte-americana parece se desfazer, do outro lado, com a missão de manter o mundo crescendo e produzindo, alguns países começaram a ter seu papel valorizado. O bloco chamado BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China chegou ao topo das paradas financeiras e fazendo barulho.

Jim O´neill, autor do termo Bric, criado quando chefiava a área de pesquisa da Goldman Sachs em 2001, certamente não imaginava o quanto, em pouquíssimo tempo, se destacaria esse bloco diante do cenário mundial. Em uma recente entrevista, divulgada no portal da revista Istoé Dinheiro, o economista traça um cenário promissor para os países do bloco e avalia o quanto o grupo representa na “vida econômica mundial”. Segundo ele, tais países estão afastados da potencial crise americana:

“No ano de 2007, a contribuição dos quatro BRICs para o aumento do consumo mundial foi duas vezes maior do que a dos Estados Unidos, o que demonstra que o descolamento já ocorreu. Um risco muito maior do que o subprime americano seria uma freada na China”

Em 2008: Fica claro que Rússia, Índia e China (vamos abordar o Brasil separadamente) passaram por um período de crescimento espetacular, sobre tudo porque apresentaram um processo de urbanização muito forte. Além disso, foram países que se reconstruíram e que, em tese, teriam seu crescimento facilitado. Isso explica o crescimento de dois dígitos apresentados em muitos anos.

Ainda segundo Jim O`neill, a forte demanda por commodities está intimamente ligada ao crescimento exuberante dos emergentes, o que praticamente garante o crescimento em 2008 e desenha ótimas perspectivas para o futuro. Particularmente, acredito que 2008 será um ano de ratificação da importância desses países no cenário mundial, pois após sucessivas demonstrações de austeridade fiscal e certa abertura da economia, colhem agora os frutos de uma melhor administração[bb].

O BRASIL
Em 2007: O ano começou com os reflexos de um dos maiores acidentes da história da aviação comercial do país. Trágico. No foco do problema uma das estrelas do mercado corporativo dos últimos anos, a Gol Linhas Aéreas Inteligentes. Os reflexos foram marcantes, as ações da empresa que tinham uma grande procura tiveram forte revés e levantaram forte turbulência nas finanças da empresa, que ainda decidira absorver a deficitária Varig.

No decorrer do ano, a crise da aviação fez outras vitimas e o ápice foi observado em um outro acidente, desta vez com a empresa TAM, que também experimentou o gosto amargo da queda do preço de suas ações e queda de seu presidente.

Bolsa de Valores
Sem ser específico em qualificar papeis, 2007 foi, definitivamente, o ano em que o brasileiro começou a investir em ações[bb]. E o melhor, tomou gosto pela coisa. Assistimos de perto diversas IPOs (sigla em inglês para Oferta Inicial de Ações), que marcaram para sempre a história da Bovespa, que teve em sua própria oferta a mais volumosa negociação, com captação de 6,6 bilhões de reais e valorização de 52% no primeiro dia de pregão.

Ao todo, foram mais de 60 aberturas o capital e mais de 10 ofertas secundárias, de empresas que já eram listadas e decidiram pulverizar mais capital. Hoje podemos dizer que as empresas encaram a Bolsa de valores como um verdadeiro local de captação de dinheiro. Isso é ótimo. É um sinal de práticas corporativas modernas e focadas em resultados.

CPMF
Nunca um assunto foi tão amplamente discutido. De uma hora para outra, nas rodinhas dos bares, nas empresas, na mídia em geral, a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras) alcançou um status de extrema importância. Todo mundo só falava nela. De um lado o governo federal, tentando mostrar a necessidade dos R$ 40 bilhões da contribuição. Do outro lado os empresários, a mídia e os partidos de oposição não medindo esforços para acabar com a não tão provisória contribuição.

No final, o Senado Federal deu cabo do “imposto do cheque”, restando ao governo o gosto amargo da derrota, dentro de sua própria base aliada. Logo após o resultado, o mercado financeiro reagiu com grande temor. Não se sabia ao certo o que o governo iria adotar como providências para eliminar possíveis perdas e manter as metas fiscais. O temor, aliás, ainda permanece vivo nas atitudes dos investidores.

Aumento de impostos foi o discurso do ministro da Fazenda Guido Mantega, imediatamente desautorizado pelo presidente Lula. O presidente assegurou ainda que os projetos sociais não seriam afetados pelo revés da CPMF. O fato marcante é que vivemos em um Estado que arrecada muito, mas ainda arrecada e gasta de maneira ineficaz.

O brasileiro praticamente doa 4 meses de seu trabalho para os cofres do governo, sem ter a contra partida na qualidade dos serviços prestados. As negociações em torno da CPMF mostraram, de forma bem clara, a extrema necessidade de uma reforma tributária. Quem sabe não a vemos sair do papel em 2008. Será?

Em 2008: O Brasil mostrou fundamentos econômicos muito sólidos: inflação controlada (apesar da alta das commodities agropecuárias como leite, carne bovina e feijão), reservas cambiais em um patamar nunca alcançado, moeda valorizada e contas em dia. Enfim um cenário que faz bem para todos.

O maior exemplo disso foi o descolamento visto em relação à crise norte-americana, que permitiu ao Brasil a obtenção resultados expressivos. A expectativa de crescimento da economia se confirmou na casa de 5%. Para 2008, como foi recentemente divulgado pelo Banco Central, a probabilidade é de aumento de 4,5%.

Se espera para 2008 o chamado Investment Grade, ou grau de investimento, que trará ao país ainda mais investimentos diretos. No entanto, com a derrota do governo na questão da CPMF muitos analistas consideram pouco provável que isso aconteça já no ano que vem. As questões básicas levantadas por eles são o comprometimento do crescimento com a dívida pública, os gastos correntes e o superávit fiscal. Conseguirá o Brasil manter o superávit fiscal? Cortar gordura da máquina pública, esse é o caminho.

Não podemos nos esquecer da taxa Selic. A última ata do Banco Central sinalizou que, pelo menos no inicio de 2008, a taxa de juros permanecerá inalterada. A inflação parece estar controlada, mas focos de pressão inflacionária são sentidos aqui e acolá. De acordo com o relatório Focus de dezembro, a expectativa do mercado para a taxa Selic final de 2008 é de 10,5%. A taxa hoje está em 11,25%. Há quem acredite que em 2008 não haverá nenhum corte na taxa básica de juros. É esperar para ver.

Um feliz 2008!
Muito aconteceu em 2007. Momentos felizes e tristes que farão, em 2008 e no resto de nossas vidas, muita diferença. A mensagem final que gostaria de passar é que nunca foi tão possível e recompensador mudar sua vida, traçar e alcançar seus objetivos. Muita informação está disponível. Em 2008, aposte em você. Estude mais, leia mais e corra atrás de seu futuro. Planeje tendo a certeza de que um futuro melhor está virá, repleto de sucesso.

Feliz 2008! Sucesso, saúde e paz!

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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.

Crédito da foto para Marcio Eugenio.

Ricardo Pereira
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