Luiz Augusto comenta: “Navarro, conversando sobre finanças com um amigo, fiquei confuso. Ele é casado, tem dois filhos, trabalha como autônomo, paga aluguel e tem um carro simples. Eu sou casado, tenho uma filha, trabalho numa multinacional, pago o financiamento do meu carro zero e compro tudo parcelado no cartão de crédito. Ele disse que sou pobre e que ele é rico e que era para eu refletir sobre isso. Não entendi. Pode me ajudar? Obrigado”.

Fulano é rico, Ciclano é pobre, definir isso parece um enigma para muita gente. A questão é que frequentemente julgamos os outros pelas aparências e externalidades, sem entender suas verdadeiras prioridades.

Analisar isso de forma correta pressupõe revelar conceitos importantes sobre as finanças; alguns deles se chocam contra o senso comum das pessoas, que normalmente dizem que Fulano é rico porque tem “coisas”.

Sou pobre

Quem compra algum bem de consumo simples e barato através de um financiamento, não é o dono deste bem até que as prestações estejam completamente pagas. No entanto, a maioria das pessoas escolhe o caminho do endividamento por dois motivos:

  • Pela falta de disciplina financeira, elas encontram nas prestações a única forma de ter um compromisso para comprar algo;
  • É a forma de conseguirem realizar hoje os seus desejos de consumo, ainda que tenham que pagar muito mais por isso (os juros).

Para complicar a situação, normalmente as pessoas que adotam este modelo possuem apenas uma fonte de renda, como um emprego assalariado. Como comprometem boa parte deste recurso para o pagamento das prestações, nada pode dar errado com este emprego, senão a coisa se complica.

Quem vive em um modelo assim passa a aparente imagem de uma pessoa rica e bem-sucedida, enquanto na verdade é alguém pobre. Até que pague suas dívidas, ela não passa de uma colecionadora de boletos.

Eu só aceito discutir endividamento e construção de patrimônio através do crédito se o raciocínio for aplicado a itens que tragam valor para a família e em situações em que os juros são mais civilizados. Fora isso, dificilmente a escolha pela dívida se converterá em benefício ou em situação saudável.

Este modelo é o mais comum no Brasil, e acho-o simplista e imediatista demais. Nele, o futuro não tem vez, e negligenciar o amanhã costuma ser perigosíssimo por aqui.

Ele é rico

Algumas pessoas preferem administrar suas vidas financeiras de uma forma completamente diferente (e rara), sem assumir dívidas sem sentido, estruturando suas finanças dessa forma:

  • Logo que recebe sua renda, exerce sua disciplina e separa uma porcentagem dos ganhos para investir, pois é conhecedor do mercado financeiro (dedicou tempo para estudar sobre dinheiro) e divide suas aplicações em renda fixa e renda variável, conforme seu perfil de risco e suas metas de curto, médio e longo prazo;
  • Uma porcentagem maior dos ganhos é utilizada para o pagamento de suas despesas básicas, que incluem o aluguel do imóvel onde mora, escola para os filhos, dentre outros;
  • Uma porcentagem menor é destinada ao lazer com a família.

Ele tem desejos e sonhos de consumo, mas não os antecipa. Ele dá um jeito de encaixar suas despesas dentro de suas reais possibilidades financeiras. Ele não aceita pagar juros para ter uma vida mais confortável. Ao contrário, ele abre mão de ter hoje para ter muito mais amanhã.

Este modelo é o extremo e também é bastante comum. Não acho saudável deixar de viver com qualidade de vida hoje para garantir um futuro brilhante. O risco aqui é sempre continuar pensando no futuro e não usufruir nunca do que construiu.

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Meu amigo (verdadeiramente) rico

Tenho um amigo que é rico. Ele tem 46 anos, é casado e tem um casal de filhos. Depois de trabalhar 21 anos como assalariado na área de TI, há 4 anos deixou seu emprego e passou a trabalhar como consultor autônomo numa cidade de interior.

Ele mora em um apartamento alugado e tem um bom carro seminovo. Seus filhos estão no primeiro grau e estudam numa escola particular. Sua esposa tem um trabalho de meio período, pois gosta de ter tempo para acompanhar as tarefas de escola dos filhos e cuidar do bom andamento do lar.

Este meu amigo tem hoje uma renda mensal aproximada de R$ 10.000,00. Sua esposa gera mais R$ 1.600,00. Ao longo dos anos, investindo sistematicamente, eles formaram um capital de aproximadamente um milhão de reais.

Eles aplicam em títulos públicos e ações na bolsa de valores, de forma distribuída e respeitando seus perfis de risco. Com estas aplicações, conseguem obter um lucro médio líquido de R$ 6.000,00 todo mês.

Desta forma, sua família dispõe de uma renda mensal de R$ 17.600,00, gastando cerca de R$ 2.200,00 com moradia, R$ 2.500,00 com educação dos filhos (já inclusos cursos de línguas e atividades esportivas), R$ 2.000,00 com alimentação, R$ 800,00 com as despesas do carro (transporte, manutenção, seguro, combustível), R$ 1.000,00 com seguros (saúde e vida). O que sobra, alternam entre lazer e reinvestimentos.

Esse meu amigo é rico em todos os aspectos. Ele e sua família têm uma vida sustentável e possuem um ótimo relacionamento familiar. Possuem um patrimônio crescente e sabem colocar o dinheiro para trabalhar para eles.

Quando os filhos se tornarem independentes, seus investimentos irão crescer de forma mais acelerada e eles não terão que se preocupar com aposentadoria, pois terão muitos recursos para desfrutarem e até deixarem como herança para seus filhos (se assim desejarem).

Este é o perfil adequado quando se trata de educação financeira e qualidade de vida. Devemos poupar, mas também ter condições de usufruir daquilo que criamos, mas sem desperdiçar ou tentar viver uma vida que não é possível com os recursos/características que possuímos.

Leitura recomendada: Prosperidade: Comportamentos que Atrapalham seu Sonho de Ficar Rico

Conclusão

Sendo simples e objetivo: a (verdadeira) riqueza depende de suas escolhas. Pense mais nelas antes de pensar em dinheiro.

Foto “confused”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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