Olá amigo, como vai? Em meus últimos dias de viagem com a família pelas terras do Tio Sam, é inevitável não pensar em compartilhar tudo o que vivi e observei por essas bandas com você.

Um pouco da minha relação com os Estados Unidos

A primeira vez que eu vim para cá, eu tinha 13 anos de idade. A tão sonhada viagem a Disney, algo impossível para meus pais me darem, foi patrocinada pelo meu avô, após a gentileza (enorme!) dos meus tios, em toparem me levar na viagem que fariam.

Nascia ali uma paixão enorme por viagens e uma grande admiração pelos Estados Unidos e seu povo. Mas oras, o que sabe um garoto de 13 anos? Hoje posso dizer o seguinte: se um “garoto” de 60, continua sabendo muito pouco, imagine um de 13.

O tempo passou, e tudo o que ficou foi uma vontade enorme de voltar. Mas, ano após ano, estava complicado arrumar mais “avôtrocínio”, já que ele não era um grande fã dos estadunidenses.

Aquele misto de frustração e vontade durou até meus 25 anos, quando surgiu a chance, ainda na faculdade, de trabalhar (veja só você), justamente na Disney.

A visão de quem rala

Embora o programa de estágio internacional da Disney (International College Program) seja muito divertido sob vários aspectos, dá uma boa noção do que é trabalhar nas posições mais baixas de uma empresa. Falo de limpeza, lojas, restaurantes e, como é a vida de quem ganha um dos salários mais baixos do país.

Sim amigo, uma das empresas mais fantásticas do mundo, também é a que paga mais mal os seus “membro do elenco” (gíria Disney para funcionário). Trabalhando as 44 horas semanais normais, retirando o aluguel cobrado pela Disney do uso de seus apartamentos, o valor líquido final era de algo em torno de USD 700,00.

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O gasto com supermercado somava outros 300 dólares na conta, e no fim ainda restava 400. Claro, eu fazia horas extras, e engordava um bom tanto o resultado final. Mas a conclusão disso tudo é: não é moleza não. Aqui o dinheiro vale mais, a receita média é maior mas, tem que ralar.

Some a isso seguro saúde, parcela do carro, aluguel de um lugar maior… Fica tudo justo e apertadinho para quem está na ponta de baixo da cadeia produtiva.

MAS (e aqui com letras garrafais mesmo), essas pessoas das “posições de entrada” todas tem carro, moram em casas com sistema de ar condicionado e aquecimento, possuem máquinas de lavar roupa, secar, lava-louças, TV de alta definição, compram roupas que para nós são de “grife” e, moram em um lugar onde há retorno visível de seus impostos.

No fim das contas, o sonho tem contornos de uma realidade muita dura.

Os cabelos brancos e as novas experiências

A vida (e muito trabalho) me agraciou com possibilidades seguidas de retornar aos braços do velho “Uncle Sam”. E a cada ida, velhas idealizações que morriam, e novas percepções tomaram seus lugares.

Pouco importando se em maior ou menor número do que no Brasil, percebi que trambiques, esquemas e fraudes também sobram por aqui.

Se há o “jeitinho brasileiro”, aqui também há um jeito peculiar de tentar extorquir o turista. Um exemplo é a hora que você está pegando o carro na locadora, quando o atendente te enfia tudo quanto é tipo de “extra” e dobra sua conta, se aproveitando da falta de conhecimento do estrangeiro.

Também existe venda de ingressos falsos em lojas montadas para enganar turistas. Posso dizer que já vi de tudo: taxista dizendo que recebeu uma nota de 10 quando recebeu uma de 50 em Chicago, cia aérea dando voucher sem valor para diária de hotel, ameaças em apresentações de venda para programas de “time share” (clube de viagens) e até roubo de pertences em quarto de hotel chique.

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A América que “deu certo”, pode estar dando errado

Há certas “instituições” que eram imaculadas, mesmo ciente de que nada é perfeito e que, onde há gente, há merda. Uma delas era a “política do troco certo”.

Comentário comum: “nos EUA você não vê ninguém dar troco a menos; ou dão as moedas exatas, ou, se não tem o valor, voltam dinheiro a mais.” Resultado: o cliente nunca ERA lesado.

Comparação óbvia com o Brasil onde, moedas de “1 centavo” são coisa de museu, e 0,97 é igual a 1,00, sempre. Consumidor “dar centavo” para as empresas virou algo tão comum que, quem reclama, é mal visto (mesmo estando certo).

Dizem que grandes desastres são a soma de dezenas de pequenos problemas. E, são esses pequenos sinais que mostram o curso das grandes mudanças.

Já faz 5 anos (desde 2011) que tenho notado trocos “à brasileira” em restaurantes, hotéis e nos mais variados estabelecimentos comerciais. O troco deu 53,70? Garçom entrega 53,00 sem o menor pudor.

Não amigo, não estou falando de um caso isolado. Estão falando de 7 em cada 10 restaurantes, em todas as viagens nesses últimos 5 anos. E não, também não se trata do carrinho de hot dog do “John”, que normalmente volta o troco certinho! Estou falando de grandes redes, entre elas, algumas queridinhas dos brasileiros.

Some-se a isso, todos os outros esquemas, o sistema de saúde problemático, a infraestrutura com sinais claros da idade – estima-se que 1 a cada 9 pontes das 607 mil que existem, estão classificadas como “estruturalmente deficientes”.

Para deixar tudo “nos conformes” até 2028, os EUA terão de investir anualmente 20,5 bilhões de dólares, segundo o FHWA (hoje investem em torno de 12bi).

Lembrando que aqui não existe trens de alta velocidade (quem citar o “Acela” vai tomar uma vaia), poucas cidades tem transporte público no nível das grandes capitais européias (nação sobre rodas, alô!) e… Experimente, só por curiosidade, calibrar o pneu de um carro: parece que voltamos nos anos 50.

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Podia ser no Brasil, mas foi lá!

E, jamais nos esqueçamos que, embora as fraudes apuradas pela Lava Jato sejam monstruosas, as maiores fraudes do mundo também são do país mais rico do mundo.

A crise no mercado imobiliário em 2008 que arrebentou com a economia mundial (não só a americana, como é o caso que vivemos aqui), foi criada; não teve nada de acidental.

Houve um grupo que ganhou (e como) muito dinheiro com isso tudo. Não vou me estender nesse assunto, mas se quiser aprender um pouco sobre isso, o filme “A Grande Aposta” trata do assunto de forma relativamente simples.

Acredite, o mundo pagou o preço de um esquema multimilionário criado para favorecer quem? Claro, os bilionários! Sabe as agências de risco que rebaixam o Brasil e ferram a coisa toda por aqui? Pois é… Também participaram do esquema não rebaixando papéis sabidamente podres.

Tudo o que eu falei poderia facilmente ser um “conto tupiniquim”, não é? Mas não foi. E tem gente que fala do “subprime” como algo, assim, chique! Cambada, não foi! Foi golpe, 171, pilantragem da grossa, e não obra do acaso.

Conclusão

Toda vez que abordo esse assunto, tem sempre aquele que fala: “culpa dos ‘chicanos’! Pode ver que foi algum latino que estava no meio, americanos de verdade não fazem isso”.

Como se nós, brasileiros, fôssemos outra coisa que não LATINOS e como se todos os demais americanos, tirando os índios, também não fossem imigrantes. Pior, ter pele clara e olho azul passou a ser sinônimo de honestidade.

Sem dúvida há muitos batedores de carteira que se encaixam nesse estereótipo “latino”. Mas, não tem muitos desses no meio da galera dos jato particulares que quase quebraram o mundo. E aí, José?

Fato: há um abismo social, econômico e estrutural entre o Brasil e os EUA, e, nem se eu juntar tudo o que pode haver de ruim por aqui, vou conseguir sequer chegar perto de tornar o Brasil um país aceitável dentro dos moldes estadunidenses. Contra fatos é inútil argumentar.

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Porém, com o passar dos anos, minha percepção mudou. Hoje, chego a sentir pena daquela minha versão que tinha uma necessidade quase desesperada de falar mal do Brasil e, se tudo desse certo, mudar-se para a Flórida. Nem tudo o que reluz… Você sabe!

A pergunta inevitável: Eu mudaria para cá se tivesse a chance? Provavelmente sim. Mas, sem aquele sonho juvenil da “beleza americana”. Sabendo que a vida aqui é dura e cinza como em qualquer parte do mundo.

Que sorrisos, gramados perfeitos e cercas brancas, são bem menos frequentes do que gostariam até os próprios habitantes desse lugar. Mas que, com todos os defeitos, as qualidades ainda fazem deste um lugar digno de habitar os sonhos de quem quer viver melhor.

Vai parecer piegas, talvez seja a idade chegando mas, na outra ponta, o Brasil, com todos seus defeitos, ainda tem algo que não sei se conseguiria sentir aqui: a sensação de estar, de fato, em casa. Um abraço e nos vemos em breve!

Renato De Vuono
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