Poucas pessoas no Brasil possuem mais crédito para falar sobre dinheiro quanto o gerente bancário, pelo menos aos olhos da maioria dos clientes. Não estou me referindo ao crédito que ele pode intermediar junto à instituição financeira em que trabalha, mas à confiança dispensada ao gerente bancário, profissional que escolhe os investimentos e toma decisões importantes para muita gente.

Como em toda profissão, existem muitos profissionais sérios e comprometidos, pessoas que se prepararam e buscaram qualificação para exercer essa atividade tão importante. Ao longo dos anos, tenho acompanhado de perto o desempenho de inúmeros gerentes bancários, profissionais que me atenderam e também aqueles que tratei por questões de trabalho. Confesso que o resultado até agora me assusta bastante!

Na primeira vez em que me lembro de ter me aproximado de um gerente bancário, eu havia completado 17 anos, quando fui até uma agência para buscar informações sobre aquelas contas conhecidas como “universitárias” – esse tipo de conta oferecia uma série de benefícios (isenção de taxas, por exemplo).

A abordagem foi gentil, porém em pouco tempo já ficou clara a intenção de barganhar. O gerente condicionou a abertura da conta e total usufruto dos benefícios à contratação de um título de capitalização. Levantei na hora e segui para outro banco.

Isso faz muito tempo. De lá pra cá, muita coisa aconteceu, inclusive em relação à dinâmica econômica e financeira do Brasil. As mudanças deixaram nossa economia mais previsível (em relação ao passado) e novos produtos surgiram.

O gerente bancário teve que acompanhar muito de perto todo esse desenvolvimento e também crescer a partir das mudanças. Pelo que percebo, infelizmente a profissionalização que esperávamos aconteceu, só que não para favorecimento do cliente.

Estou falando de oferecer produtos realmente interessantes para cada tipo de perfil e, mais do que isso, ouvir e orientar sem necessariamente vender. O que mais se vê são gerentes que se tornaram exímios vendedores e cumpridores de metas. Faz parte, é normal, mas é algo que chama minha atenção como alguém que trabalha com educação financeira.

Talvez você devesse “demitir” seu gerente bancário

Volto a frisar que também conheci (e ainda conheço) muitos profissionais éticos e qualificados que fizeram (e ainda fazem) um ótimo trabalho, sem também deixar de cumprir os objetivos traçados por seus empregadores.

Se o seu gerente bancário não é um profissional honesto e capaz de realizar seu trabalho sem parecer um vendedor chato, sugiro que exija um novo foco para seu relacionamento, solicitando outra pessoa para atendê-lo, e considere até mesmo buscar esse profissional em outra instituição.

Achei que seria legal preparar algumas questões importantes que possam servir de base para você “demitir” seu gerente bancário e buscar um novo gerente em outra agência ou até mesmo outro banco.

Situação 1: Você liga para o gerente e nunca consegue ser atendido e, pior, ele nunca retorna

Uma das razões para a existência do gerente bancário é justamente oferecer ao cliente um contato que seja acessível em momentos de necessidade e dúvida. É comum, entretanto, as pessoas buscarem o contato com o gerente e não conseguirem ser atendidos a tempo e com eficiência.

Antes de escrever esse texto, tomei o cuidado de conversar com algumas pessoas para saber se elas já tinham tentado ligar para seus gerentes – eu queria saber como havia sido esse atendimento.

Para minha surpresa, quase ninguém conseguiu ser atendido de imediato e ninguém que deixou recado ou enviou um email para o gerente teve resposta em até 24 horas. As pessoas devem exigir dos gerentes agilidade, afinal uma boa oportunidade costuma surgir e ir embora em pouco tempo.

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Situação 2: Seu gerente não entende nada sobre investimentos

Hoje, os bancos oferecem aos seus colaboradores uma série de treinamentos e os gerentes que atendem os clientes com renda mais elevada possuem certificações (como o CPA-10 e CPA-20, concedidos pela ANBIMA) que garantem certa qualificação para o profissional comercializar e distribuir produtos de investimento.

O avanço nas exigências internas de certificação ainda não parece ter chegado aos responsáveis por atender o público em geral. O primeiro contato geralmente é sofrível e vou exemplificar com uma história que aconteceu comigo.

Na semana passada, fui até a agência de um grande banco e fiquei aguardando para ser atendido, para fazer um primeiro contato. Meu discurso foi o de que eu não estava tão contente com o meu atual banco e por isso havia decidido conhecer alguns diferenciais de outros lugares.

Papo vai, papo vem, logo joguei a pergunta: “Tendo em vista o atual cenário de juros altos no país, em sua opinião é melhor adotar uma estratégia mais conservadora investindo em títulos públicos ou eu deveria ser mais arrojado e aproveitar os preços relativamente baixos de algumas ações?”.

Para quem acompanha de perto o mundo financeiro, essa pergunta parece bastante simples. Não foi o que senti naquele momento. O atendente, que tinha status de gerente (li na sua mesa), poderia ter perguntado sobre meus objetivos, tentado explorar um pouco meu perfil e etc.

Em vez disso, o gerente foi ficando vermelho e depois de falar sobre o CDB do banco, disse que um título de capitalização também poderia ser muito interessante para guardar dinheiro para o futuro. Título de capitalização, de novo? Não!

Agradeci e nunca mais apareci por lá. Ficou claro pra mim que ou ele não sabia muita coisa sobre o que eu perguntei (renda fixa, juros e bolsa de valores) ou já estava condicionado a “empurrar” produtos bancários que são interessantes para o banco.

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Situação 3: Seu gerente muda o tempo todo

Nada mais desagradável do que procurar por seu gerente e descobrir que ele não é mais o mesmo. Ai de repente você se acostuma com o novo profissional e, passado algum tempo, a instituição troca de posição de novo. Como criar um relacionamento desse jeito? Parece birra, mas isso é bem sério e ainda acontece bastante.

Nesse caso, talvez você precise “demitir” o banco e buscar mesmo outra instituição. A mudança constante desse profissional pode sinalizar que essa rotatividade seja causada pelo mal desempenho em vendas ou pelo ambiente de trabalho.

Se o gerente não anda trazendo resultados expressivos para a instituição financeira ou mesmo a pouca atratividade para os profissionais seguirem carreira por lá, melhor tomar cuidado mesmo. Fique atento!

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Conclusão

É importante que tenhamos sempre e cada vez mais uma postura diferente em relação ao trato financeiro. Para ter bons resultados, o envolvimento e o protagonismo em relação ao nosso dinheiro não podem ser terceirizados para ninguém, nem mesmo o gerente bancário.

Defendo que é importante buscar uma assessoria com profissionais independentes e casas especializadas em investimentos, bem como com gerentes capacitados e que demonstrem integridade e preocupação com o seu patrimônio.

Quando o assunto é dinheiro, todo cuidado é pouco! Pessoas ingênuas podem facilmente ser ludibriadas, principalmente quando a esmola é demais ou quando há uma diferença grande de conhecimento sobre o tema (o que costuma acontecer no atendimento bancário tradicional).

Dedique um pouco do seu tempo para “testar” seu gerente. Visite-o sempre que possível e exija um bom atendimento. Se ele não puder lhe atender de maneira satisfatória, não desista e busque alguém que possa lhe orientar, mesmo que para isso precise ir para outro banco ou contratar um assessor pessoal de investimentos. Seu bolso agradece!

Foto “Shocked senior”, Shutterstock.

Ricardo Pereira
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