A tarifa de ônibus e o gasto com transporte públicoAs recentes manifestações nas principais cidades brasileiras contra o aumento das passagens de ônibus (e tantas outras reinvindicações) nos faz olhar com mais calma todo o tema.

A primeira pergunta a ser feita é: será que a passagem de ônibus no país é mesmo tão cara?

Para responder essa dúvida, a Folha foi atrás do preço das passagens de ônibus em dez cidades ao redor do mundo e os compararam com Rio e São Paulo, onde as manifestações foram mais fortes.

No entanto, é válido levar em consideração que quando o preço da passagem na moeda local é transformado em dólar não serve de comparação, pois é preciso atribuir à análise quão fácil é ganhar o dólar em cada cidade (ou país).

Se a análise fosse feita apenas a partir da conversão da moeda local para o dólar, o Brasil estaria longe de ser o local com passagens mais caras. Através dessa ótica São Paulo e Rio de Janeiro apresentariam valores mais baratos, pela ordem, do que Londres, Tóquio, Ottawa (Canadá), Nova York, Lisboa, Paris e Madri.

Então, para uma análise mais apurada, a Folha levou em conta o preço das passagens em minutos trabalhados, considerando a renda média e as horas trabalhadas em cada cidade. Dessa maneira, São Paulo e Rio têm as passagens mais caras.

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Fonte: Folha.

O paulistano e o carioca precisam trabalhar cerca de 14 e 13 minutos, respectivamente, para pagar uma passagem de ônibus, enquanto que o morador de Pequim tem que trabalhar por menos de 4 minutos.

Transporte público: pobres gastam mais, ricos nem tanto

Outra forma de avaliar os gastos com transporte público foi mostrada no blog Achados Econômicos, onde Sílvio Guedes Crespo pontua sobre um pesquisa recente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

O estudo aponta que os gastos com transporte público subiram mais de 30% ao longo de seis anos entre as famílias com renda per capita de até meio salário mínimo. Por outro lado, entre famílias com renda superior a oito salários mínimos houve queda de mais de 15%.

A situação se inverte quando se analisa os gastos com transporte privado. O gasto dos mais ricos subiu mais de 20%, enquanto que o dos mais pobres caiu 20%. O gráfico abaixo ilustra com clareza tais variações.

Gastos com transporte

Fonte: Achados Econômicos.

Os dados analisados foram publicados pelo Ipea em setembro de 2012, mas são referentes ao período de 2003 a 2009. É válido ressaltar também que o estudo se refere à variação de gastos, não de preços.

O que isso nos mostra?

Carlos Henrique de Carvalho, um dos autores do estudo, resume a análise dos dados coletados pelo Ipea: “Está havendo um deslocamento de gastos do transporte público para o privado em todas as faixas de renda, com exceção dos mais pobres (renda per capita de até meio salário mínimo)”.

Dessa maneira ainda é possível constatar que, para os mais ricos, as manifestações que têm se espalhado pelo país não precisam ter o foco da redução de tarifas de transporte público. Afinal, este meio é cada vez menos utilizado por eles.

Sobretudo, pode-se concluir também que os mais ricos julgam que o transporte público oferecido pelos governos não valem o preço cobrado. Se os serviços de ônibus e metrô fossem de melhor qualidade, provavelmente não veríamos uma transição do meio público para o privado tão expressiva.

Fontes: Folha | Achados Econômicos. Foto de freedigitalphotos.net.

Willian Binder
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