Salve leitor do Dinheirama! Mais um ano se inicia e as velhas reflexões permanecem. Uma das mais é antigas é “dinheiro e felicidade”: uns dizem que dinheiro traz felicidade, outros dizem que manda buscar, outros que não traz. Seja como for, a reflexão é muito mais profunda do que simplesmente sentimentos versus moedas.

De certa forma, vivemos dentro da “Matrix”; o mundo que nós vemos, sentimos, cheiramos, ouvimos é nada mais que uma interpretação da realidade pelo nosso cérebro. Existir é algo para lá de relativo.

Sem querer me aprofundar em uma área da qual nada sei, e o nada que sei vem da minha curiosidade insaciável, o fato é que a maneira como duas pessoas enxergam (ou vivem) a “mesma coisa” é absolutamente diferente, por isso reações e opiniões são tão ímpares.

O papo está meio exotérico? Mas no fim, o que não é? Se parar para pensar, vivemos em um mundo que, a despeito de toda tecnologia, leis, contratos, é baseado em um dos laços mais subjetivos e de fácil corrupção da humanidade: a confiança.

Quer ver? Confiamos todo nosso dinheiro a estranhos, só porque eles nos prometem pagar uns trocados se o deixarmos sob sua tutela. Confiamos nossos filhos a terceiros (escolas, cursos etc.) durante uma parte enorme de suas vidas só porque todos fazem a mesma coisa.

Confiamos nossas vidas a outros motoristas, pilotos de avião, capitães de navios, apenas por pressupormos que eles sabem o que estão fazendo. E assim poderia discorrer durante páginas e mais páginas de como o lastro social, por mais bisonho que isso pareça, ainda é a confiança.

Questione-se, por exemplo: qual é a garantia de que o banco devolverá o seu dinheiro? Um pedaço de papel, um aperto de mãos e supostamente a intervenção do Estado. Se pensarmos friamente, a garantia é uma ilusão.

Se tudo é tão subjetivo, por que esperamos tanto do dinheiro?

Qual o motivo de acreditarmos que o dinheiro é a resposta para todos nossos anseios? E é sempre nesse momento que vem aquela voz grave e abobalhada da plateia e diz: “Mas é melhor estar deprimido em Paris do que em Osasco!”. Aliás, por que esse preconceito com Osasco?

Nessa hora, prendo a respiração, peço calma aos deuses do descontrole e respondo entre dentes: “Qualquer lugar é péssimo quando se está deprimido”. Repare na ilusão na qual essa pessoa vive.

Onde eu quero chegar com tudo isso é: vivemos correndo atrás do próprio rabo, vivendo o futuro, pensando em tudo o que queremos ter e deixamos de ser gratos pelo que temos, pelo que somos. E, acredite, caro leitor, isso faz toda a diferença.

Como já me ouviram falar um sem número de vezes, o dinheiro é uma mera ferramenta que nos permite comprar conforto. Mas quando ele finalmente chega em nossas vidas, é preciso que tenhamos nossas expectativas sob controle e nossa mente em paz.

Nesse momento percebemos que não importa onde estejamos, seja num hotel seis estrelas nas Maldivas ou em um churrasco na casa dos amigos, o que determina nosso grau de satisfação nada tem a ver com o preço das coisas, e sim com nosso estado de espírito.

Digo isso, pois vivi essa situação e não porque suponho que seja assim. Tive uma infância e juventude de muitas privações, literalmente o primo pobre. E, desse modo, criei enormes expectativas acerca do dinheiro. Idealizei que a vida seria muito melhor com dinheiro – eu era o babaca que preferia chorar em Paris.

E vejam como a vida é irônica: muito mais rápido do que eu podia conceber, eu e minha esposa atingimos um nível financeiro muito maior do que sonhávamos, e o que parecia distante, virou corriqueiro. E em pouco tempo, eu estava, literalmente, deprimido no paraíso. A dinâmica é a seguinte: na primeira vez, o êxtase é total.

Há uma música que diz “rio porque rico ri à toa”. É mais ou menos isso que acontece, mas junto com a situação, vem a necessidade visceral de repetir a dose, mas de forma ainda melhor. Aí vem a segunda vez, a terceira, a quarta, e quando se percebe, aquilo que era um sonho passa a ser comum.

Não há mais valor, não há mais frio na barriga… você troca o brilho nos olhos, pelo olhar “blasé” dos “bacanas” que acham tudo chato: comida de avião, imigração, restaurante. Pode ser que tenha gente que goste dessa coisa de “sou tão foda que nada mais tem graça”. Eu não!

O dia em que me vi no papel daqueles que eu mais detestava, tive um grande baque e, naquele momento, decidi que tinha que mudar tudo. Eu não queria chorar em Paris, queria apenas sorrir no quintal da minha casa.

Mergulhando de cabeça nessa “missão essencial”

Comecei uma jornada intensa em busca da essência perdida, em simplificar e, sobretudo, me humildar. E mergulhei de cabeça nessa missão: vendi meu “carro bacanão”, comprei um usado com mais de 6 anos de uso e tive a incrível experiência de pagar menos IPVA! Vendi minha empresa!

Desconectei-me de tudo o que me lembrava um estilo de vida que só leva as pessoas, no fim do dia, a sentirem um vazio sem fim. Troquei os extremos pela constância. A busca sem fim pela felicidade tornou-se o encontro real com a satisfação e o contentamento. Troquei a culpa pela responsabilidade; o difícil pelo trabalhoso.

O resultado não podia ser outro: o melhor investimento da minha vida rendeu dividendos à altura. Hoje posso dizer que sou eu quem tem o carro, e não o carro que me tem. Não importa o que eu dirija, o impacto é nulo em minha autoestima.

Troco de celular só quando o meu para de funcionar. A cada nova roupa que compro, doo duas, até eu achar que tenho uma quantidade compatível com a realidade. Consegui fazer uma viagem de 30 dias ao exterior e não fazer compras.

No domingo (dia em que escrevi este texto), chorei de emoção ao ver meu filho se deliciando ao som da fanfarra da Festa do Figo de minha cidade, exatamente a mesma emoção que vivi quando entrei com ele a primeira vez na Disney.

Posso afirmar que sinto a mesma satisfação em passear com minha família no parque da cidade ou no Caribe, pois a satisfação mora dentro de mim. Encontrei a perfeição? Claro que não! Ainda alimento enormes expectativas em relação às pessoas, por exemplo. E, claro, muitas vezes acabo me frustrando. Mas ao menos penso que já dei um enorme passo.

Parece “papo de autoajuda”, daquele que “discute pobreza em uma mesa de riqueza”, do sujeito que “dá conselhos, pois tem a geladeira cheia”. Amigo leitor, sabe qual o desfecho trágico da depressão severa? Suicídio. O sujeito tira a própria vida, esse bem que é o mais precioso que recebemos.

Em 2014 tivemos dois grandes astros que trilharam esse caminho sem volta: Phillip Seymour Hoffman e Robin Williams, dois dos atores que mais admiro. Ambos enormes talentos. Conquistaram aquilo que poucos mortais terão privilégio de conquistar e, ainda assim, não viam mais razão para viver.

Juntos podemos fazer um lista enorme de pessoas que “tinham tudo” e acabaram descobrindo que não tinham nada. O dinheiro só serve àqueles que não o servem. É como a corrida pelo pote de ouro no fim do arco-íris e a descoberta frustrante de que o arco-íris é apenas uma ilusão.

Conclusão

Passado o trecho tétrico do texto, reforço: antes de buscar riqueza material, busque riqueza espiritual. Acredite: é preciso preparo para lidar com o sucesso financeiro, do contrário, a decepção pode ser devastadora.

A partir do momento que entendemos que as coisas não trazem satisfação, mas que esta mora dentro de nós, nossas conquistas passam a ter um gosto especial. Por isso rogo a você: busque a evolução pessoal antes de todo o resto. Não deposite nas coisas e mesmo nas outras pessoas a esperança que deve ser depositada apenas em você.

O que isso tem a ver com dinheiro? Tudo! Quando aprendermos a valorizar cada centavo que temos, deixaremos de lamentar os milhões que não ganhamos.

E assim fico por aqui, espero que tenha gostado e que essa reflexão seja o início da mudança do seu relacionamento com o dinheiro. Para quem não espera nada, o “pouco” será sempre mais que o suficiente. Que 2015 gere muitos dividendos espirituais para cada um de nós.

Foto “Man on top”, Shutterstock.

Renato De Vuono
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