Você, seus investimentos, decisões financeiras e a "guerra dos juros"Leila diz: “Navarro, estamos presenciando uma queda nos juros cobrados dos bancos, diminuição das taxas de administração dos fundos de investimento, muita propaganda das instituições financeiras. No meio de toda essa atividade, estão o consumidor, o correntista de banco e o pequeno investidor. Como ter certeza de que não seremos ‘engolidos’ por ofertas ruins e pelas mudanças? Obrigada”.

Mensagens na tela dos terminais de autoatendimento, abordagens peculiares de profissionais nas filas dos bancos ou nos caixas, propagandas repletas de números e simulações em horário nobre, há uma intensa campanha das instituições financeiras para conquistar clientes a partir da “nova realidade” dos juros baixos.

Diante disso, a dúvida: será que o produto oferecido, as alternativas de crédito e as aplicações que eu já conheço continuam sendo interessantes sob o ponto de vista financeiro? Colocando de outra maneira, será que eu encontrarei melhores opções em instituições concorrentes?

A concorrência tem um vencedor: o consumidor
Todo esse barulho em torno das mudanças no setor financeiro causa estranheza para um grande número de brasileiros, mas é algo bem-vindo e que temos que comemorar. Ainda que nossas taxas de juros como um todo ainda sejam muito elevadas (o que é fato), ver reduzidas cobranças permite ao consumidor condições mais justas ao realizar uma negociação ou investimento. Afinal, quem não quer pagar mais barato?

O problema é que todo barulho vem acompanhado de muito ruído, o que torna a comunicação um desafio. Antes, bastava um ótimo relacionamento com o gerente bancário para estar seguro e tranquilo em relação às decisões de consumo, negociação e poupança. Será que isso mudou? Sim, e optei por listar três importantes passos para lidar melhor com essa realidade.

1. Identifique a informação que faz falta
O problema do ruído é que ele acaba alimentando falsas necessidades e põe em xeque certas verdades. Tenho ouvido com frequências frases como “Agora que os juros estão mais baixos, vou finalmente trocar de carro porque vale a pena”, “a caderneta de poupança não vale mais a pena agora que a Selic caiu” ou ainda “agora consigo aproveitar as oportunidades do banco para ter um limite maior”.

A sensação de que comprar ficou mais fácil porque os juros caíram nos coloca diante de um passo fundamental: é preciso rever o que eu quero fazer com meu orçamento e se o que falta é mesmo informação para tomar uma melhor decisão ou simplesmente mais planejamento para lidar com os limites da atual situação financeira familiar. Assim, minha primeira sugestão é que você identifique e isole as variáveis que deseja compreender melhor e simplesmente esqueça as demais (por hora).

Exemplo: seu problema é renegociar uma dívida no cartão de crédito, então você quer tomar um empréstimo pessoal em algum lugar para quitar o débito e aliviar as contas. Certo, então foque nisso primeiro e esqueça a possibilidade de trocar o carro (“porque os juros e o IPI caíram”) e qual será o destino do seu dinheiro quando você for começar a poupar.

Limite-se a entender bem o que precisa ser feito, defina prioridades, resolva-as e só então recomece o processo (novas metas, informação, decisão etc.). Todo esse agito em torno das informações tem deixado muita gente paralisada – e, enquanto ficamos parados, as dívidas continuam crescendo. Foco. Paciência. Atitude.

2. Busque respostas fora dos meios que você já conhece
Nossa tendência natural ao definir um problema a ser resolvido é buscar a solução nos caminhos que já trilhamos e de onde já conseguimos respostas. Isso é natural, válido e deve continuar assim, mas se as novidades trazem o ruído que incomoda tanto, é provável que você tenha que sair de sua “zona de conforto” para realmente silenciá-lo.

Tome os casos dos juros mais baixos oferecidos em algumas modalidades de crédito. As regras para conseguir fazer parte do seleto grupo de consumidores agraciados com as novas taxas incluem muito mais que apenas abrir conta no novo banco. Você terá que ir além dos apelos da publicidade e visitar diferentes instituições, sempre acompanhado de diversas perguntas. Algumas sugestões:

  • Quais são as taxas de juros oferecidas para as modalidades de crédito disponíveis hoje?
  • Quais as diferenças para quem já é cliente e quem ainda não é?
  • Como tenho certeza de que terei acesso às melhores condições em termos de taxas e juros?
  • Serei obrigado a contratar algum produto, ter algum valor investido ou tomar alguma atitude (passar a receber o salário, por exemplo) para ser beneficiado?
  • Quais são as tarifas a serem cobradas caso eu abra minha conta? Quando e em que condições elas serão aplicadas?

Repare que se trata de um questionário básico, mas que está longe de ser nosso guia em decisões deste tipo. Quando digo que é importante ir além do que você conhece, quero dizer que o papel de estar bem informado sobre as mudanças em curso na economia não é mais do gerente de sua conta, mas seu também.

O ponto chave deste item é: depois de eliminar o que não é prioridade (ponto anterior), você agora deve entender, em todos os detalhes, o que precisará fazer (e contratar, assinar etc.) para lidar com a questão. E você deve fazer isso lendo, perguntando e, principalmente, comparando (próximo tópico). Prática. Ação. Retenção.

3. Compare “batendo perna” e aproveitando a tecnologia
Se agora pouco concordamos que é preciso ir além do que dizem nossos amigos e parentes (item anterior), é fundamental aceitar que isso representará a necessidade de sair de casa e fazer comparativos alinhados aos nossos objetivos (primeiro item). É hora de pesquisar, criar uma tabela de soluções, com seus prós e contras.

Sugiro avaliar os seguintes itens, de forma a dar-lhes peso e observações pertinentes (e isso é subjetivo, claro):

  • Quais são os custos da operação? Ao comparar diferentes produtos financeiros, lembre-se de listar o Custo Efetivo Total (CET) de cada um deles e se existem taxas adicionais, quais são elas e seus valores (taxa de carregamento, administração, abertura de crédito e por ai vai);
  • Há cobrança de tarifas? Quais são as tarifas que estarão relacionadas com o plano para conseguir taxas menores segundo a comparação do item anterior? A diferença no valor financiado deve ser somada aos encargos e cobranças que a mudança de instituição pode trazer;
  • Posso optar pela portabilidade de crédito? Pode ser que você já tenha uma dívida e baste simplesmente portá-la para outra instituição que ofereça CET e tarifas menores. Exerça este direito;
  • Meu relacionamento merece pontos? Lidar com pessoas atenciosas e que respondem às suas dúvidas com presteza, honestidade e atenção é algo que deve ser valorizado ao lidar com finanças. Defina nesta comparação um peso para o relacionamento e deixe isso claro para o profissional que atende sua conta. Esse pode ser um critério de desempate importante.

Para montar esta pequena tabela, use e abuse da tecnologia. Você sabia, por exemplo, que o Banco Central mantém um banco de dados atualizado e disponível on-line de todas as tarifas cobradas pelas instituições financeiras? Clique aqui para acessá-lo. Além disso, use comparadores de tarifas e os próprios sites dos bancos para buscar detalhes sobre o que pretende contratar. Controle. Referência. Decisão.

Conclusões
Espero que ao chegar aqui você esteja pensando: “Nada demais, ele falou coisas óbvias”. Lidar com dinheiro é, em essência, lidar com avaliações racionais óbvias. Ocorre que as emoções associadas ao consumo (somadas às expectativas sociais) sobrecarregam nosso processo de tomada de decisões de forma perigosa. Fazemos péssimas escolhas, criamos justificativas pífias para validá-las e depois reconhecemos que “era óbvio”.

Proponho então que você pratique o que já sabe. Se pechinchar é importante, faça isso. Se ler um contrato antes de assiná-lo pode evitar problemas futuros, faça isso. Se definir melhor o seu real problema ou necessidade vai facilitar as coisas, faça isso. Desejo-lhe sucesso nessa empreitada.

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Fico por aqui, obrigado e até a próxima. Ah, não se esqueça de me procurar também no Twitter: @Navarro. Abraço.

Conrado Navarro
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