A essa altura, deve ter ficado claro que para mim não existe finanças sem pessoas, e não existe pessoas sem emoções. Por isso, toda vez que alguém te disser que é uma pessoa 100% racional, fuja! Deve ser um psicopata.

Outra coisa na qual não acredito são os “testes de perfil do investidor”. E o motivo é muito simples: não dá para determinar em 10 minutos algo que não pode ser determinado durante uma vida. Lembrou-se do seu gerente do banco, aquele que não é seu amigo? Pois é, não tem como, naquele cafezinho, ele determinar todo seu futuro financeiro.

Por isso, para mim, o verdadeiro planejamento financeiro é algo para a vida toda, até porque, para cada momento há um planejamento – aqui se explica porque não dá para fazê-lo em dez minutos com questões de múltipla escolha.

Dito isso, peço licença para falar sobre outra coisa. Hoje vou falar sobre o medo. Isso mesmo, medo! Esse sentimento que nos paralisa, tem um papel fundamental na sobrevivência ou, pelo estado que ele provoca, em nossa morte – seja ela literal ou metafórica.

Ouço sempre pessoas dizendo que investem em imóveis ou poupança porque tratam-se de alternativas “mais seguras”. Outras, que investiram na Bolsa, perderam dinheiro – porque não dominaram o medo – e agora gritam aos quatro ventos que a Bolsa de Valores é invenção do “tinhoso”, é cassino.

O curioso é que essas mesmas pessoas não sentem um pingo de remorso em perder R$ 10 mil do dia para noite ao comprar um carro zero. E o detalhe: esse dinheiro é perdido para sempre, não volta. Na Bolsa, se você não vender suas ações na baixa, há pelo menos a chance de recuperar o prejuízo. Não parece um contrassenso?

Mas ainda existem os imóveis, que “sempre valorizam” (uma tremenda mentira) e ninguém pode tirá-los de você (há controvérsias também). Os imóveis são como ações, podem valorizar-se ou desvalorizar-se. Há ainda o custo da depreciação, que pouca gente se lembra. Para aqueles que alugam, existem ainda os temidos períodos de vacância (quando os imóveis ficam vazios) e a baixíssima rentabilidade do aluguel atualmente.

O fato é que, desde o momento que somos concebidos, lutamos por nossa sobrevivência. Corremos risco a cada suspiro, a cada passo. Segurança é apenas um conceito pré-fabricado, uma ilusão criada para manter as pessoas sob controle.

E assim é com o nosso dinheiro: se você acha qualquer investimento que não seja a poupança arriscado demais, gostaria de lembrá-lo de um tal Fernando Collor (e sua fiel escudeira Zélia Cardoso) que, sem qualquer pudor ou cerimônia, meteu a mão nesse “templo sagrado” do dinheiro brasileiro.

Agora pense: você acha mesmo que se algum governante realmente quisesse, ele não lhe tomaria seus imóveis à força? Pense mais um pouco: você de fato tem um imóvel ou um papel que diz que você tem um imóvel?

Deixando as suposições apocalípticas de lado (Deus queira que ninguém mais mexa em nosso queijo), o fato é que a poupança (como já dito um sem número de vezes) é tão segura quanto qualquer investimento garantido pelo FGC, e entre eles estão: CDB, LCI, LCA e alguns outros.

Os títulos do Tesouro, mesmo não garantidos pelo FGC (até porque tem outra característica), em minha opinião (e de um punhado de especialistas) são ainda mais seguros que a poupança (não estamos falando de volatilidade aqui, e sim de calote).

Porque se o governo não honrar sua dívida interna (já ouviu falar em “Risco Soberano”?), o cenário econômico seria tão caótico que qualquer sistema de depósito bancário já estaria quebrado e o dinheiro todo teria virado pó.

Afinal, estamos falando da hipótese em que o país, de fato, teria ido à bancarrota – hipótese que a maioria das escolas de economia do mundo sequer aceita como possível. Em tempo: mesmo com o sequestro da poupança e calote na dívida externa, o pagamento dos títulos da dívida interna jamais deixou de ser honrado.

Então amigo, pensando no fato de que você mora no Brasil; já perde dinheiro calma e passivamente com seu carro e sua casa; perde até pelo fato de ter nascido aqui; as oportunidades que temos são as que temos; e riscos são inerentes a própria vida, eu pergunto: você tem medo de quê?

Quem sabe, da próxima vez você decida por comprar um carro usado e use a diferença para aplicar em investimentos não imaginados antes. E, assim, você poderá ter dois cenários. Se ganhar, será duas vezes: o dinheiro que deixou de perder no carro que, por sua vez, gerou um lucro inesperado. E se perder… bem, para você que só comprou carro novo a vida inteira, esse já seria um dinheiro perdido de qualquer forma, não seria?

Deixe sua opinião sobre esta provocação sobre o medo de investir no espaço de comentários abaixo. Grande abraço e até a próxima.

Foto “Protect your money”, Shutterstock.

Renato De Vuono
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