Como fica a previdência privada em época de juros baixos?Ana Luiza comenta: “Navarro, estou preocupada com essa redução dos juros em nosso país. Comemoro a notícia, mas fico apavorada de pensar que minha previdência privada vai render cada vez menos e pode simplesmente não ser suficiente para os planos que fiz de aposentadoria alguns anos atrás. Como devo encarar essa realidade? A previdência privada vai render cada vez menos também? E agora? Obrigada”.

A nova realidade dos juros historicamente menores é singular: ficou para trás o sonho de rentabilizar em mais de 10-15% nosso capital de forma simples, fácil e segura. Juros baixos significam avanço do ponto de vista econômico, mas também desafios para quem se preocupa com suas decisões de investimento e proteção de capital.

Se por um lado o crédito fica mais barato, o que em tese também se reflete no preço final dos produtos (que tende a cair), por outro a escolha de alternativas de investimento[bb] capazes de sustentar rentabilidades iguais às do passado fica cada vez mais técnica e difícil.

Por que ficou tão mais difícil investir?
A renda fixa do Brasil pré-Dilma garantia ganhos médios de mais de 10% ao ano, um retorno expressivo e capaz de satisfazer poupadores e especialistas (afinal, adoramos fazer simulações e coisas desse tipo). Acontece que os produtos administrados por terceiros (bancos, gestores e etc.) implicam cobranças de taxas, sendo as taxas de administração e carregamento as mais comuns.

A taxa de administração é, como o nome já diz, o percentual que pagamos aos gestores por decidirem onde e como nosso dinheiro será investido. Ora, transferir essa responsabilidade, o que é cômodo, tem seu preço – e temos que reconhecer que a lógica é justa. Produtos como os de previdência privada cobram ainda a taxa de carregamento, que é cobrada a cada aporte realizado. Na prática, apenas parte do que investimos mensalmente é usada para capitalizar nosso futuro.

Os ganhos elevados do passado permitiam que essas taxas ficassem meio “encobertas”. Ou melhor, que elas não fossem questionadas e comparadas pelos investidores. Os ganhos líquidos (depois de descontadas tais taxas e os impostos) eram bons, então por que haveríamos de reclamar? A história agora é outra. Bem outra…

O agravante da aposentadoria
Segundo uma simulação feita pelo professor de finanças da USP, Rafael Paschoarelli, somente a mudança no patamar de juros ocorrida neste ano, quando as taxas do governo caíram de 11% para 8,5%, pode implicar mais de 15 anos de trabalho (e de contribuições extras ao plano de previdência). Os juros caíram, mas a inflação ainda não, e isso complica o ganho líquido ao longo do tempo.

Produtos de previdência privada conservadores são os mais afetados por essa realidade, já que sua composição é baseada em títulos públicos, privados e cotas de fundos de renda fixa tradicionais – todas opções influenciadas diretamente pela queda nos juros e mudanças na taxa Selic.

Na prática, o que deve ser observado em relação à aposentadoria?
O aspecto prático dessa realidade é óbvio: se permanecermos em produtos de previdência privada conservadores, cujas taxas de administração e carregamento são elevadas, simplesmente não teremos capital suficiente para manter o padrão de vida desejado (e projetado) quando contratamos o plano. A conta não vai fechar!

Então, o investidor[bb] atento deve:

  1. Buscar saber que tipo de produto de previdência privada ele e sua família possuem. Qual o tipo do plano contratado? Qual a estratégia do gestor? Quanto tempo você ainda tem pela frente em relação às contribuições? Ele investe apenas em renda fixa ou também tem renda variável? Qual a taxa de administração? E a taxa de carregamento?
  2. Avaliar como as taxas podem ser reduzidas. Aportes iniciais maiores costumam diminuir bastante as taxas de carregamento, o que permite que seu dinheiro seja mais bem aproveitado ao ser investido. As taxas de administração já estão sendo revisadas, então é preciso pesquisar opções e conversar com seu atual administrador;
  3. Constituir um novo plano já pensando no cenário econômico atual. A escolha agora deve ser por produtos mistos, com uma constituição mais arrojada, mas ao mesmo tempo inteligente. Aproveitar o tempo favorece essa estratégia, já que se pode escolher um plano de previdência privada que invista em renda variável durante os anos iniciais dos aportes e diminua essa exposição ao risco à medida que os anos passem (e a data de aproveitar o benefício se aproxime);
  4. Pesquisar e conhecer muito bem os gestores. A diferença entre uma aposentadoria tranquila e uma terceira idade de arrependimentos pode estar na escolha da empresa que oferece o plano. Escolher o produto mais adequado para o seu perfil passa a ser um passo decisivo na construção de patrimônio e liberdade para o futuro. Informar-se mais e melhor, além de consultar profissionais especializados (consultores financeiros, por exemplo) são atitudes que você deve considerar a partir de agora.

As variáveis foram embaralhadas…
Antes você escolhia um produto conservador, garantia 10% ou mais de rentabilidade anual e ficava sossegado. Agora você tem que considerar os juros em queda, a inflação que ainda não voltou ao centro da meta, a expectativa de vida que aumentou (e continua aumentando) e ainda o Imposto de Renda (esse sempre existiu).

Então, caro leitor, a simulação feita há dez anos não vale quase nada hoje em dia. O que você contratou lá atrás não será suficiente a partir de agora. Novas simulações são necessárias, seja para dotá-lo da motivação necessária para renegociar tudo que está feito ou simplesmente para desafiá-lo a conceber um plano adicional para essa fase da vida que chegará.

Marcia Dessen, consultora financeira e colunista da Folha de S. Paulo, fez uma simulação em que mostra a diferença nas simulações em um intervalo de 10 anos e uma diferença nas taxas de juros. O resumo está abaixo, mas o artigo completo você pode ler clicando aqui.

Simulação de Marcia Dessen - Folha de S. Paulo

Encare os fatos com seriedade!
A verdade é que a aposentadoria de todos nós está ameaçada. Primeiro porque vamos viver mais, muito mais que nossos pais e avós, e segundo porque o cenário econômico em que baseamos nossos planos alterou-se em alta velocidade. Fica o recado: pense nisso enquanto você ainda pode fazer alguma (muita) coisa.

Seja sincero, você já havia pensado nisso? Já tomou alguma atitude para mudar os planos que já possuía para a aposentadoria? Compartilhe conosco sua opinião usando o espaço de comentários abaixo ou o Twitter – sou o @Navarro por lá. Valeu e até a próxima.

Foto de sxc.hu.

Conrado Navarro
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