O mercado vê com bons olhos a eleição de Mauricio Macri no pleito presidencial argentino. O ex-presidente do Boca Juniors, deputado e prefeito de Buenos Aires venceu em segundo turno as eleições diante do candidato da situação, Daniel Scioli, que representava a continuidade do projeto de esquerda inserido durante 12 anos de governos Kirchner (primeiro com Néstor de 2003 a 2007, e depois com sua esposa Cristina, de 2007 a 2015).

A expectativa é que o novo governo do país vizinho traga uma dinâmica favorável à economia brasileira. De acordo com Marcus Vinícius de Freitas, professor de Direito e Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), a eleição de Macri representa um sopro de ar fresco na América Latina.

Marcus explica que nos últimos 20 anos, houve um aumento da presença da esquerda latino-americana, que ascendeu ao poder, com a promessa de representar um novo tempo na região.

“Ao apresentarem resultados sociais inicialmente positivos, entendeu-se que o projeto de poder representado pelos movimentos de esquerda teria uma longa perenidade, uma vez que muitos da direita, em alguns dos países, equivocaram-se, profundamente, ao apoiar os regimes militares que assumiram o poder na região”, avalia. Segundo Freitas, com a melhoria na qualidade de vida e a ascensão de muitos ao mercado consumidor, o discurso à esquerda parecia fazer sentido.

No entanto, regimes distributivistas de benefícios sociais não levam em consideração a produtividade dos seus respectivos Estados e a capacidade de geração de riqueza pela iniciativa privada.

“Amarrados pelo peso dos programas sociais, além de uma corrupção generalizada, nos últimos anos, tem-se observado uma fadiga de material, no sentido de que aqueles no poder não conseguiram levar os seus países a um novo patamar de desenvolvimento econômico”, ressalta Marcus.

No caso da Argentina, isto é evidente. Apesar de uma leve redução da pobreza, a Argentina, sob a direção da família Kirchner, praticamente derreteu no mercado internacional. Seus títulos perderam valor e a economia entrou numa espiral negativa quanto à sua capacidade de conseguir sobrepujar seus enormes desafios.

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Macri surgiu num país devastado economicamente e que, mais do que qualquer coisa, precisa de um choque de realidade e de capitalismo. A Argentina, importante “player” regional, não pode ficar circunscrita a uma realidade que lhe dificulta uma inserção internacional maior, além de um crescimento econômico pífio naquela que já foi a 7ª maior economia do mundo.

“As primeiras medidas de Macri, ao condenar a falta de democracia na Venezuela e começar a liberalização do mercado de câmbio, evidenciam um presidente que está disposto a liderar e alterar a cartilha política da Argentina nos próximos anos. E a Argentina precisa disso, se quiser ter acesso aos mercados internacionais e quiser caminhar adiante. Desesperadamente”, diz Marcus.

Para o professor da FAAP, o fato de Macri ser um empresário é importante porque se espera um maior senso de urgência para a resolução da crise econômica. “Isto passa por um incremento da participação da Argentina no comércio internacional, o que envolve, de forma direta, o seu maior parceiro, que é o Brasil e o Mercosul. Espera-se que Macri dê ao Mercosul um tom mais econômico e empresarial do que ideológico, como tem sido a sua marca registrada deste Acordo nos últimos anos. O Mercosul precisa abrir suas fronteiras e acabar com o protecionismo”, afirma.

O especialista avalia que há muito por fazer para recuperar a Argentina. “Não se espera de Macri que seja o novo Messias. Barack Obama foi assim interpretado e realizou muito pouco em face daquilo que se esperava dele. O que se espera de Macri, no entanto, é que ele tire a Argentina do atoleiro em que se encontra. E que, ao fazê-lo, também dê uma ajudinha ao Brasil, que, lentamente, tem ido para o brejo. E os dois países não merecem isso.  Nem podem”, destaca.

Para as empresas exportadoras brasileiras, a eleição de Macri pode representar boas oportunidades. Cerca de 20% das importações argentinas são provenientes do Brasil, das quais quase 90% são produtos manufaturados. A retomada do comércio bilaterial entre os países influencia setores como o automotivo, alimentos e bebidas, calçados, têxtil, entre outros.

Recentemente, o governo argentino anunciou a eliminação de uma polêmica barreira à importação e de impostos às exportações de trigo criados na gestão da ex-presidente Cristina Kirchner. Tal medida provocou a queda na produção e nas exportações – forçando o Brasil a procurar novos mercados para comprar o insumo do pão brasileiro.

Agora, a expectativa é que incremente no longo prazo o comércio bilateral, caso os produtores de trigo que tenham deixado o cultivo voltem a produzi-lo, aumentando produção e exportação para o Brasil, historicamente o principal destino deste grão argentino.

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Foto “Buenos Aires”, Shutterstock.

Isabella Abreu
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