Bruna comenta: “Navarro, ouvi de uma pessoa que admiro que devemos tomar cuidado com alguns produtos oferecidos pelos grandes bancos e seus profissionais de atendimento. Do que exatamente ele está falando? Existem ‘armadilhas’ que devemos evitar nessas instituições financeiras? Obrigada”.

Nunca a concorrência bancária foi tão grande no Brasil. Nunca a concentração bancária foi tão presente no Brasil. Afirmações aparentemente contraditórias, mas que denotam um cenário típico: o mercado está concentrado em seis grandes conglomerados financeiros, que concorrem de forma agressiva por novos clientes.

O resultado é um sistema financeiro robusto, mas concentrado. Ficam à margem dessa realidade bancos pequenos e médios, bem como gestores independentes de recursos, butiques de investimento e corretoras de valores, quase sempre desconhecidas do público, mas com excelentes oportunidades de investimento.

Sob a ótica do cliente, há enorme abrangência territorial (número de agências e correspondentes), mas uma oferta muito ostensiva de produtos de varejo com características medianas ou ruins. A grande capilaridade e o modelo tradicional de atendimento transformam alguns produtos em “armadilhas” a serem evitadas.

4 armadilhas bancárias que você deve evitar

1. Título de Capitalização

O apelo é sempre muito grande para este produto, afinal há sempre muitos sorteios, você pode ganhar prêmios, bens e até dinheiro, e ainda receber todo o capital “aplicado” de volta ao final do período. Ora, se há um componente associado à sorte, então trata-se de uma aposta, não de um investimento.

Chamo de armadilha porque nem sempre há um entendimento claro das regras e características do Título de Capitalização. Por isso, fica o alerta: se acredita que pode ganhar, entenda que está colocando seu dinheiro em um produto cujo objetivo são os sorteios. Se prefere investir, há alternativas melhores.

Há também a questão da carência, afinal o dinheiro comprometido com este produto precisa ficar o tempo todo para ser resgatado integralmente. Para não ficar nenhuma dúvida, já escrevi sobre os detalhes do Título de Capitalização em outros três artigos, que convido você a ler. Escolha e clique em um deles abaixo:

2. Empréstimos oferecidos na tela do caixa automático

Trata-se de uma técnica de persuasão simples, sutil, mas muito eficaz: você acessa o sistema do caixa automático para, digamos, pagar uma conta e então uma mensagem na tela diz que você tem um “crédito especial pré-aprovado” e o convida a clicar em algum botão.

A depender da sua situação, você pode pensar “Puxa, que legal, eu estava mesmo precisando de um ‘fôlego novo’, veio em boa hora”. As chances de que você saia da agência e gaste tudo, sem perceber, é enorme. Bem, o dia que estava planejado para ser de um simples pagamento de conta se transformou na aquisição de uma nova dívida.

3. Decidir “para ajudar o gerente”

Em nome do relacionamento, muitos clientes acabam aceitando péssimas recomendações de seus gerentes bancários. Há quem defenda que isso é normal e aceitável até, mas não me parece muito inteligente. Faz sentido prejudicar sua construção de patrimônio para se sentir mais especial dentro da agência?

O contrário precisa ser praticado. O interesse em mantê-lo fiel ao banco e seus produtos deve vir do gerente, que por sua vez precisa oferecer boas alternativas e auxílio na tomada de decisões. O bom atendimento é aquele que supera as expectativas do cliente, não apenas aquele que resolve seus problemas. Já escrevi sobre três atitudes de gerentes que irritam (clique aqui para ler).

4. Fundos conservadores com custos elevados

Fundos de renda fixa (conservadores, portanto) não devem apresentar taxa de administração maior que 1% ao ano, ou corre-se o risco de perder em rentabilidade para alternativas de investimento igualmente seguras como LCI, LCA e Tesouro Direto. A realidade nos bancos, no entanto, ainda não é essa.

Na prática, os fundos conservadores oferecidos nos primeiros contatos costumam ter taxas de administração de 1,5% a.a. ou mais, alguns deles associados a sorteios (estes chegam a ter taxa de 3,5% a.a.). Opções melhores só são apresentadas quando o cliente diz que pode investir mais dinheiro ou mostra que sabe de melhores opções de investimento (educação financeira).

No Dinheirama, já publicamos um texto que enumera 5 erros ao investir em fundos de investimentos (clique para ler).

Conclusões

Como clientes, temos uma responsabilidade muito maior do que imaginamos. Precisamos assumir que há uma diferença muito grande no nível de informações e conhecimento que possuímos em comparação com profissionais ligados ao mercado financeiro e bancos. A partir daí, devemos buscar a educação financeira.

Há duas maneiras de interpretar este artigo de hoje. A simplista, potencialmente perigosa e errada dirá que eu sou contra os bancos e o trabalho dos gerentes, que estas instituições são perigosas e querem “nos esfolar”. A inteligente, transformadora e correta dirá que o sistema é esse e que o mais importante é aprender mais e reclamar menos.

Porque, veja, podemos ser sócios dos bancos (comprando ações na bolsa de valores) e eles são importantes para nossa economia. O que não podemos é acreditar (e consentir) que eles sabem o que é melhor para nós. Devemos tomar nossas decisões financeiras e lidar com as consequências. Você concorda?

Participe. Deixe sua opinião no espaço de comentários abaixo e vamos fazer da educação financeira um assunto mais praticado. Obrigado e até a próxima.

Foto “Businessmen with umbrella”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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