Educação Financeira e Finanças PessoaisPropositalmente, começo o artigo com a mesma frase que usarei para terminá-lo: ter um carro ficou mais caro a partir do momento em que ficou mais fácil adquiri-lo. Estranho? Mentira? Como assim? Sempre que escrevemos algum assunto abordando automóveis, acabamos conseguindo um grande debate. De quebra, comprovamos o quanto o brasileiro é apaixonado pelo assunto.

O ponto de vista citado foi defendido pelo consultor financeiro Gustavo Cerbasi[bb] na revista Você S/A de fevereiro de 2008. O cerne da tese passa pelo acesso maior ao crédito, facilitado hoje em até 99 parcelas. Pondere, pois, que credito acessível no Brasil não significa crédito barato. Dessa maneira, as divisões dos pagamentos e os prazos são, na verdade, verdadeiras arapucas.

Crédito fácil, pagamento difícil!
Cerbasi nos lembra que, até pouco tempo, não existiam financiamentos com prazos superiores a três anos. Quatro, quando muito, costumavam ser prazos considerados muito longos. Sem muita opção, o brasileiro optava pelos carros populares e financiamentos de 48 meses.

Carros populares, é sabido, apresentam algumas compensações interessantes, sobretudo no aspecto prático: consomem pouca combustível, são fáceis de estacionar, se novos dificilmente precisam parar no mecânico e suas peças são mais baratas e disponíveis. Parece que essa realidade já não serve aos brasileiros.

Necessidade X Prazer
Com as explosões dos financiamentos, os valores mensais pagos antigamente na compra de um carro popular passam a permitir, muitas vezes, a compra de um carro maior, mais luxuoso e, advinhe, mais caro. A diluição das parcelas em um prazo maior, com juros estratosféricos a tira colo, fornece ao consumidor um falso poder aquisitivo. Não raro, compradores optam por carros maiores e acabam tendo de repassá-lo em pouco tempo, perdendo muito dinheiro[bb].

É bem verdade que o conforto deixa o brasileiro mais feliz, como também ponderou Cerbasi em seu artigo. No entanto, esse luxo custa alto demais para algumas famílias. A questão do padrão de vida precisa ser encarada com mais seriedade e menos romantismo. Viver além de nossas possibilidades é perigoso e pode trazer mais frustrações que alegria.

Imagine um financiamento com prazo de seis anos (72 meses). Por melhor que seja o carro, lá pelos seus 4 anos de vida começam a ser necessárias aquelas idas e vindas mais constantes ao mecânico e novos lançamentos da indústria passam a mexer de novo com sua cabeça. Conheço pessoas incapazes de viver sem um carnê de automóvel, transformando a desculpa do transporte em um gigante ciclo vicioso. Pior, acham tudo isso normal.

Mas Ricardo, não ficou mais fácil levar um carro mais bacana para a garagem?
Parcelas menores e grande oferta de crédito são a grande atração do momento, concordo. Mas só porque é fácil, é bom? Aliás, dinheiro que escorrega fácil pelas nossas mãos dificilmente vai para alguma coisa boa para nosso futuro financeiro. Pense nisso. Peças mais caras, consumo elevado e seguro mais caro são variáveis que podem comprometer todo o esforço financeiro de uma família. Muitos não se dão conta disso, alegando que a prestação “cabe em seus bolsos”. Você é assim?

Qualidade – Manutenção = Problemas
Nossas estradas não são nada boas. Muito provavelmente, as ruas de sua cidade são ainda piores. Manter um carro não é brincadeira, pode custar uma fortuna. Antes de entrar em uma roleta russa como essa, lembre-se que automóvel não é um investimento, mas um bem de consumo, como um eletrodoméstico[bb]. Sim, a comparação foi propositalmente “tosca”.

Investidores mais avançados, guardem suas pedras. Estou falando da visão cotidiana, não das revendas de carros ou alavancagem, onde ter um automóvel pode fazer parte da estratégia de crescimento do patrimônio. Estou falando da realidade da grande maioria dos brasileiros. Para esses, é melhor poupar antes e pagar à vista. Ponto! Lembre-se que nem sempre podemos ter tudo aquilo que queremos.

Logo, ter um carro ficou mais caro a partir do momento em que ficou mais fácil adquiri-lo (olha a frase aqui de novo). Não comprometa seu futuro com passos sem direção. Tão prazeiroso quanto dirigir um carro zero é estar de bem com o bolso e com a vida. Respeite seus limites.

Tenha um ótimo final de semana e use seu tempo livre para ajudar alguém. Algum amigo está em dificuldades fiananceiras ou precisa de orientação? Que tal apresentá-lo ao Dinheirama? Até a próxima.

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Ricardo Pereira é Analista Financeiro Sênior da ABET Corretora de Seguros, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para Marcio Eugenio.

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