Jair comenta: “Navarro, sou universitário e quero começar a investir o pouco dinheiro que recebo fazendo estágio. Meu objetivo é investir no curto e médio prazo em alguma aplicação que possa dar um retorno elevado, mas sem risco. Confesso que não sei exatamente como começar e se a definição do que desejo faz sentido. Você pode dar uma luz nesse processo? Obrigado”.

Qual seria a graça de ser jovem não fosse a ansiedade típica, a pressa por resultados, a tendência a se acomodar e preferência por atalhos na busca do sucesso pessoal, profissional e financeiro? Pois é, ser jovem é sinônimo de ter pouca bagagem e muitos sonhos.

Não admira, portanto, que ao serem perguntados sobre dinheiro e investimentos, os jovens se mostrem ávidos por rentabilidade, desde que seja logo e sem risco. É o que mostra o perfil traçado pela Anbima e publicado nesta semana na Folha (clique para ler o artigo completo).

A pesquisa foi feita com 296 alunos do curso online “Como Investir em Você”, oferecido pela Anbima em parceria com outras universidades como um piloto para avaliar novas parcerias voltadas para a educação financeira dos jovens. Os resultados são ao mesmo tempo uma oportunidade, mas um enorme desafio. Confira:

  • 94% dos jovens têm perfil conservador ou moderado como investidor;
  • 93% dos estudantes dizem ter dificuldade de controlar os gastos;
  • 90% admitem caráter impulsivo nas compras;
  • 80% acham difícil decidir como investir devido às muitas opções no mercado;
  • 70% já tentaram realizar o orçamento doméstico;
  • 53% pretendem investir no médio prazo (de dois a cinco anos);
  • 34% assumem que suas despesas são maiores que suas receitas; e
  • 33% não confiam nas recomendações de profissionais financeiros.

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A equação do jovem não fecha

Então repare: o jovem quer um investimento seguro e de baixo risco (perfil conservador), de rápido retorno (curto e médio prazo) e com rentabilidade elevada (juventude). E ele não quer passar muito tempo procurando e entendendo as opções disponíveis (acham isso “difícil”). Resumindo, seria algo assim:

(Investimento Seguro + Curto/Médio Prazo + Rentabilidade Elevada) x Preguiça = Zero Investimento e Muito Consumo

A combinação desejada pelos mais jovens simplesmente não existe. Investir é um processo e requer dedicação, paciência e a compreensão de que os resultados só serão consistentes se houver interesse genuíno em aprender (em vez de preguiça) e adequação dos objetivos aos produtos financeiros disponíveis.

O que jovem pode fazer para investir melhor?

O problema está na atitude e no comportamento ao olhar para o papel dos investimentos em relação ao projeto de vida de cada um (prioridade). Minha sugestão para mantermos a séria brincadeira com as fórmulas (digo isso porque sou avesso a fórmulas, mas o caráter ilustrativo delas é muito útil) ficaria assim:

(Investimento Constante + Curto/Médio/Longo Prazo + Estratégia) x Prioridade = Investimento e Consumo em harmonia

Permita-me explicar em mais detalhes a relação entre as variáveis das equações mostradas neste texto e sugerir algumas mudanças práticas:

  • Prefira Investimento Constante a apenas Investimento Seguro. O principal conceito é simples: não existe a melhor hora para investir; o que existe é investir ou não. Logo, é mais importante investir todo mês, de forma disciplinada e organizada, que ficar preocupado em encontrar o “melhor investimento” para seu perfil (que muda com tempo);
  • Insira o Longo Prazo no seu horizonte de investimentos. Ainda que o montante a ser investido pensando no futuro distante seja pequeno, o hábito de considerá-lo na sua estratégia é fundamental para garantir tranquilidade em todas as etapas da vida. Portanto, é bom encontrar logo um objetivo de longo prazo e começar a investir pensando nele – seu futuro agradece;
  • Pense mais em Estratégia que apenas em Rentabilidade. Sim, é ótimo ver o dinheiro se multiplicando rapidamente, mas não um produto capaz de garantir isso de forma contínua. Variáveis como inflação, mudanças nas regras de investimentos feitas pelo governo e perfil de risco das aplicações exigem que o raciocínio evolua de “Quero retorno sempre elevado!” para “Como posso garantir o melhor retorno diante das circunstâncias e tendo em vista meus objetivos?”.
  • Quem tem Prioridade não tem Preguiça. Aqui está o item crucial de toda a mudança necessária na relação com as finanças. Jovens são ansiosos e apressados por natureza, mas esses sentimentos se agravam quando não existe um projeto de vida claro e forte. Não confunda prioridades com planos; prioridade significa buscar o que se quer, enquanto planos costumam ser vagos e nada práticos. Prioridades se transformam em planejamento e execução; planos se transformam em frustração e ilusão.

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Não culpemos os jovens por serem jovens

Duas coisas importantes precisam ser ditas: 1) os jovens não são os únicos a acharem que existe um investimento mágico (sem risco, de rápido e alto retorno); e 2) melhor que esse comportamento seja típico na juventude, quando ainda há muito tempo para mudanças de rota e de atitude.

Não se trata de culpar os mais novos e “rogar praga” para que nunca alcancem sua independência financeira. Também não adianta apenas apontar os excessos de consumo voltados para a aparência e inclusão social como se essa questão fosse simples de resolver.

A juventude é uma época recheada de sensações e descobertas capazes de elevar a ansiedade a níveis perigosos – e é justamente essa a “beleza” dessa fase. Com isso, reconheço que os desafios da educação financeira são enormes principalmente porque o jovem se desafia sem considerar as consequências. Não fosse assim, qual seria a graça?

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Conclusão

Certo, mas justificar tal realidade só porque ela é natural e aceitável nos mais novos é se resignar diante da oportunidade apresentada também por ela. É aquela história: quanto antes começarmos a lidar com as finanças com determinação, disciplina e foco (o que depende das prioridades), mais cedo colheremos os frutos dessa decisão: qualidade de vida e realização pessoal.

O que você acha dessa questão e do atual envolvimento dos jovens com seus investimentos? Registre sua opinião no espaço de comentários abaixo. Obrigado e até a próxima.

Foto “Young investor”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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