Jaime comenta: “Navarro, aqui em casa usamos uma planilha criada por nós para gerenciar as finanças, mas nem isso tem dado certo. Seja porque esquecemos de atualizar os dados ou porque alguém gastou além da conta, a verdade é que a ferramenta parece não estar sendo tão útil nessa missão de cuidar do dinheiro. Onde estamos errando? Obrigado”.

Uma ferramenta é apenas… Uma ferramenta! Você certamente já ouviu aquela história de dar um martelo para uma criança, certo? O martelo seguirá sendo um martelo e tendo sua função inalterada, mas a criança certamente se machucará ao manuseá-lo. Não experimente isso em casa, por favor.

O exemplo do martelo é propositalmente extremo para tornar o entendimento simples. O correto uso de uma ferramenta qualquer pressupõe conhecimento sobre ela e, mais do que isso, perfil adequado, objetivos claros para o seu uso, preparação prévia e a atitude correta.

Nas finanças pessoais acontece a mesma coisa. O melhor sistema de controle financeiro ou a mais completa planilha de gastos são apenas ferramentas. São parte da solução, é óbvio, mas são instrumentos de controle que dependem de prioridades bem definidas, comprometimento e disciplina.

Orçamento familiar: é preciso ir além das planilhas de controle financeiro

No trabalho ao lado de famílias e pessoas com problemas financeiros, percebi que é comum confundir ferramenta com solução. Muitas pessoas acreditam que a planilha será a salvação para o endividamento, quando na verdade ela é um instrumento de apoio que requer, antes de seu efetivo uso, mudança de comportamento.

Detectei três grandes pontos que costumam ser negligenciados e que, ao serem devidamente trabalhados, dão sentido ao uso contínuo da ferramenta escolhida (anotações a lápis, planilha ou sistema).

Apresento, assim, o que precisa ser encarado, melhorado e incentivado antes de culpar qualquer ferramenta pela não solução dos problemas financeiros:

Senso de urgência

Todo mundo tem coisas importantes e urgentes para fazer e resolver. O problema é a frequência com que deixamos as coisas importantes de lado e acabamos por ficar “atolados” de coisas urgentes com as quais lidar. O quadro é clássico: procrastinamos e deixamos as atividades importantes para depois, até elas se tornam urgentes.

Infelizmente, é mais ou menos isso que algumas pessoas fazem com as próprias finanças. Ao não priorizar determinadas decisões financeiras e a necessária mudança de padrão de consumo, aquilo que era importante (dar atenção constante ao dinheiro, hoje!) logo se tornará urgente, mas de um jeito complicado: o endividamento causa angústia e ansiedade.

  • Você já comprou com o cartão de crédito mesmo sem ter certeza do total da fatura até aquele momento?
  • Você já se esqueceu de pagar alguma conta ou boleto?
  • Você já agiu no esquema “Esse mês já gastei demais mesmo, vou começar o controle financeiro no mês que vem”?
  • Você já se viu naquela situação em que a planilha de gastos do orçamento familiar ficou desatualizada e ai você largou mão dela?

O devido cuidado com as finanças pessoais é uma questão de prioridade, ou seja, é uma decisão consciente e que implica pequenas atitudes que devem ser tomadas a todo instante. Abrir mão disso é deixar tarefas importantes se acumularem, e logo a “bola de neve da urgência” pode fazer estrago.

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Diálogo

É comum as famílias irem “empurrando com a barriga” a questão financeira e deixarem a situação chegar em um nível crítico. Só a partir desse ponto começam a discutir a sua relação com as finanças. Pergunto: como tornar o assunto “dinheiro” agradável quando a conversa só gira em torno dos problemas que ele representa?

  • Quais são as prioridades da família?
  • Que conquistas devem ser priorizadas no curto, médio e longo prazo?
  • Quais são as despesas importantes e que devem ser mantidas? Por quê?
  • Quais são as despesas que podem ser reduzidas? Por quê?
  • Quem tem mais aptidão e interesse para auxiliar no controle financeiro?
  • Vamos nos organizar para economizar e conseguir investir parte do que ganhamos?
  • Como posso ajudar no dia a dia da família e das finanças?

Uma conversa em família pressupõe interesses comuns, sonhos que façam sentido e compromisso com o bem-estar de todos. Isso requer respeito e humildade para ouvir, interpretar o que escutou e opinar com cuidado e de forma inteligente.

O diálogo é fundamental para alimentar o sentimento de união e a sensação de estar caminhando rumo ao que se pretende construir e conquistar, mas ele precisa ser sincero e acompanhado de atitude e ação. Ao conversar, muitas necessidades e novos passos surgirão, e é preciso abraçá-los e executá-los.

Sugiro que você não deixe para conversar sobre dinheiro só quando ele for sinônimo de problema. Em vez disso, seja proativo e mantenha as finanças como uma prioridade, tentando agir tanto quanto fala e pensa, e não apenas criticar e reclamar.

Leitura sugerida: 5 sinais de que o dinheiro é um tabu em sua vida

Liderança

Adivinha quem é o responsável por lidar com as suas contas, despesas e receitas todo mês? Pois é, você mesmo! Há uma espécie de “acomodação paternalista” rondando muitas famílias brasileiras, em que fica uma esperança preguiçosa de que as coisas vão melhorar e logo a situação financeira vai se resolver.

Nada se resolve sozinho, é preciso liderar a mudança. Em uma família, não basta apenas priorizar as finanças e conversar sobre dinheiro (itens anteriores deste texto); é preciso liderar os integrantes do lar rumo à transformação. Como? Falando menos e fazendo mais, ou seja, dando o exemplo!

  • Quando será a reunião familiar para discutir o orçamento familiar?
  • Quem será o responsável por pagar determinadas contas e lançá-las no controle financeiro da família?
  • Como garantir a receptividade necessária para eventuais dúvidas sobre finanças e investimentos?

Além disso, o líder da família é também responsável por criar e manter um ambiente saudável e aberto para o enfrentamento das situações e a mobilização pelas prioridades. É fundamental assumir esse papel de forma consensual e deliberada, pois não se trata de um cargo.

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Conclusão

Ferramenta é apenas ferramenta. O que interessa são os planos que temos para usá-la e o sentido dado ao seu uso. Em relação ao dinheiro, isso significa relativizar o papel e a importância do controle financeiro em si e dar mais valor ao aspecto humano e familiar: as finanças pessoais precisam ser uma prioridade.

Ao evitar a procrastinação em relação às tarefas de consumo e investimento, manter um diálogo franco e honesto sobre finanças e assumir as rédeas do orçamento familiar, o uso de qualquer ferramenta torna-se automático e muito mais fácil. Tudo aquilo que faz sentido, gera motivação; e essa motivação acelera o aprendizado e a prática.

O que você pensa sobre ferramentas de controle financeiro e a necessidade de mudança de hábitos e atitudes antes de usá-las? Deixe sua opinião no espaço de comentários abaixo. Se preferir, provoque-me no Twitter: @Navarro. Obrigado e até a próxima.

Foto “Family budget”, Shutterstock.

Conrado Navarro
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