Sempre defendi que educação financeira precisa ser um aspecto da cidadania, não uma disciplina ou prática restrita a especialistas da área. É muito bacana encontrar e conviver com profissionais que mantém um mesmo olhar sobre a questão e fazem questão de multiplicar este conceito.

Tive a oportunidade de conversar com Andy de Santis, autora do livro “Liberdade financeira ao alcance de todos” (Senac São Paulo), com Priscila Santos, e também das obras “Educador financeiro – um novo sentido ao papel do bancário na sociedade” (Appris) e “Lições de valor – educação financeira escolar” (Moderna).

Sua especialidade é desenvolver conteúdos e experiências de aprendizagem que promovam a transformação de indivíduos, grupos e organizações em direção à sustentabilidade. Mestre em educação (PUC-SP), especialista em sustentabilidade (FDC) e marketing de serviços (FGV), pós-graduada em marketing (Mackenzie) e graduada em comunicação social (ESPM), Andy trabalhou por 11 anos no mercado financeiro como responsável por programas de educação financeira e sustentabilidade.

Atualmente, é educadora financeira, docente em instituições de ensino superior e consultora de projetos para organizações públicas e privadas nas áreas de educação financeira, educação para ética e sustentabilidade e educação para gestão e liderança.

Confira como foi nossa conversa:

Andy, qual deve ser o papel da educação financeira na vida do brasileiro? Como convencê-lo a abraçar essa ideia e praticá-la?

Andy de Santis: Na minha opinião, o papel principal da educação financeira é promover uma reflexão profunda sobre escolhas. O tempo todo somos pressionados a adotar estilos de vida pré-definidos como “normais”, “certos” ou “ideais” na sociedade de consumo em que vivemos.

Todos os dias querem nos convencer de que é “normal” trabalhar de segunda a sexta em um emprego que você não gosta só para poder ir ao shopping no fim de semana e consumir coisas que farão você “feliz”.

Achamos “certo” dar presentes aos filhos para compensar a nossa ausência e acreditamos que, depois de certa idade, o “ideal” é viajar anualmente para fora do país. Se essas escolhas garantissem a felicidade, por que muitas pessoas que têm tudo isso se sentem incompletas ou deprimidas?

Defendo a ideia de que a educação financeira passa primeiro pelo entendimento dos valores das pessoas, do que é realmente essencial para trazer plenitude e felicidade a elas, apesar da opinião alheia ou da propaganda.

Só depois dessa reflexão é possível definir prioridades e, aí sim, tomar as decisões sobre receitas, despesas, patrimônio, entre outros assuntos financeiros. Não conheço ninguém que não deseje ser mais feliz ou entender as escolhas que levam a uma vida mais equilibrada. Para mim, esta é maneira mais simples de convencer alguém a abraçar esta reflexão.

Quais são os principais problemas em relação ao dinheiro que você encontra no seu dia a dia e como recomenda que eles sejam enfrentados?

A. S.: O superendividamento é certamente o sintoma mais grave de uma sequência de escolhas sem consciência ou planejamento adequado. Quando as dívidas do indivíduo chegam ao ponto de deixá-lo sem recursos suficientes para sustentar a sua sobrevivência básica, esta é a situação mais complicada de reverter.

Nestes casos, é preciso agir rápido para ajudá-lo a encontrar alternativas para “deter o sangramento”. A principal dica neste caso é não tentar resolver o problema sozinho. Abrir a situação para a família, buscar ajuda profissional de um planejador financeiro pessoal, recorrer a programas de apoio ao superendividado (como o do Procon), entre outras medidas para fortalecer a pessoa a encarar o problema de frente e encontrar saídas para a situação.

Há casos de casais que têm uma visão diferente sobre a situação financeira da família, o que demonstra uma falta de diálogo sobre as finanças dentro da relação. Isso acarreta problemas seríssimos, pois quando um dos dois ignora a realidade, age como se nada estivesse acontecendo a pode até agravar o problema. A outra parte do casal assume toda a responsabilidade sobre a solução, ficando sobrecarregada.

A American Bar Association (entidade equivalente à Ordem dos Advogados do Brasil) tem estatísticas segundo as quais 89% dos divórcios originam-se em brigas e acusações ligadas ao dinheiro. Antes que o casal chegue a esse ponto, é fundamental estimular o diálogo sobre sonhos, projetos de vida individuais e comuns, prioridades e planejamento em conjunto.

Gostaria que você falasse um pouco de sua experiência na condução de iniciativas de educação financeira e se acredita que temos realmente evoluído e alcançado mais gente com este trabalho.

A. S.: Comecei a atuar neste tema em 2010, dentro de uma instituição financeira. Naquela época, ficamos assombrados com a quantidade de bancários que se envolvia em dívidas. Isso acendeu uma luz amarela na minha compreensão de educação financeira.

Comecei a questionar: por que justo os bancários, mesmo conhecendo tudo sobre produtos e serviços financeiros, taxas de juros e planilhas, também se endividam? Foi aí que descobri a diferença entre conhecer conceitos ou ferramentas e tomar as decisões que levam ao equilíbrio financeiro.

A educação financeira é muito mais do que ensinar planilhas e conhecimentos técnicos, precisa considerar as emoções, os valores, os sonhos e o significado do dinheiro que varia para cada pessoa. É um assunto muito mais comportamental do que técnico.

Todos os meus livros e projetos estão alinhados neste ponto e procuram provocar o indivíduo para sair da sua zona de conforto, refletir sobre os impactos de suas escolhas para si, a sociedade e o ambiente e assim reequilibrar sua relação com o dinheiro e o consumo, hoje e no futuro.

Fico muito feliz quando vejo que a ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira) considera os aspectos emocionais, sociais e ambientais em suas iniciativas e acho que o Brasil está no caminho certo para formar uma população com mais educação financeira.

Você enxerga diferenças na maneira de lidar com as finanças ao olhar para as diferentes gerações? Os jovens, especialmente os que não viveram o período de hiperinflação, são mais ou menos conscientes em relação ao dinheiro? O que dizer sobre isso?

A. S.: Não gosto de generalizar, mas tenho percebido maior propensão a poupar nas novas gerações do que nas gerações passadas. Quem nasceu depois do Plano Real consegue ter a experiência concreta de poupar e conseguir adquirir produtos sem que seu dinheiro seja corroído de um dia para outro. Assim, vão aprendendo com a experiência.

Por outro lado, as novas gerações também convivem com a cultura do imediatismo, pois a tecnologia acelerou quase tudo ao nosso redor. Então, querem tudo para ontem, não têm paciência de esperar para conquistar aquilo que desejam.

Outro aspecto cultural presente em nossa sociedade atual é o mito do “descartável”. Quebrou? Jogo fora e compro outro. Não gostei? Descarto. A durabilidade das coisas era maior antigamente, hoje tudo é muito acessível e dura pouco. Isso estimula a compra por impulso, o desperdício e a falta de reflexão para a tomada de decisões.

Por isso a importância de trazer ao jovem a consciência sobre os impactos de suas escolhas no planeta. Ensinar que não existe “jogar fora”, tudo que se descarta permanece aqui e precisa ser transformado. Ensinar a importância dos 3 Rs (Reduzir, Reutilizar, Eeciclar) e outras lições importantes para torná-los mais conscientes.

Você defende um conceito que gostamos muito de abordar: liberdade financeira. Pode nos contar mais sobre como ser financeiramente livre e o que isso significa?

A. S.: Recentemente, conduzi uma roda de conversa sobre isso e perguntei a cada um: o que é liberdade financeira para você? Descobri que não há um significado padrão para esse conceito.

Alguns acham que ter liberdade financeira é depender cada vez menos do dinheiro para viver, ou seja, consumir menos, compartilhar mais as “coisas” que já foram produzidas, gerar menos resíduos, viver menos dependente do consumo.

Outros entendem que é acumular muito dinheiro para largar o emprego que odeia e finalmente trabalhar com o que ama. Na minha concepção, a liberdade financeira depende de entender o que é essencial para nutrir e sustentar a sua existência neste mundo.

Andy, muito obrigado por este ótimo bate-papo. Por favor deixe uma mensagem final para nosso leitor interessado em educação financeira e também como ele pode manter contato com você. Até a próxima.

A. S.: Eu que agradeço a oportunidade. Para quem está começando nesta jornada e quer conhecer um pouco mais sobre o assunto, indico meu livro “Liberdade financeira ao alcance de todos”, da Editora Senac São Paulo.

Se quiser conhecer mais sobre meus outros livros, projetos e receber meus posts, é só curtir minha página no Facebook. Como mensagem final, gosto sempre de deixar uma pergunta e hoje escolhi esta, para o leitor pensar: o que você precisa ter para sustentar o seu ser?

Conrado Navarro
Aviso: Os textos assinados e publicados no Dinheirama.com não representam necessariamente a opinião editorial do Blog. Asseguramos a qualquer pessoa, empresa ou associação que se sentir atacada o direito de utilizar o mesmo espaço para sua defesa. Também ressaltamos que toda e qualquer informação ou análise contida neste blog não se constitui em solicitação ou oferta de seu autores para compra ou venda de quaisquer títulos ou ativos financeiros, para realização de operações nos mercados de valores mobiliários, ou para a aplicação em quaisquer outros instrumentos e produtos financeiros. Através das informações, dos materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog, os autores não estão prestando recomendações quanto à sua rentabilidade, liquidez, adequação ou risco. As informações, os materiais técnicos e demais conteúdos existentes neste blog têm propósito exclusivamente informativo, não consistindo em recomendações financeiras, legais, fiscais, contábeis ou de qualquer outra natureza.

Comentários