Eu não consigo guardar dinheiro. Acredite, eu já me vi inúmeras vezes repetindo essa frase, muitas vezes sem perceber. A sensação era tão paralisante, que aprendi rapidamente a culpar a tudo e todos por não conseguir poupar. Não adiantou.

Durante alguns anos de minha vida profissional, eu vivi sob muita pressão e tinha pouco tempo para me dedicar ao controle financeiro. Ou pelo menos, essas eram algumas justificativas que eu usava para fazer o tempo passar e não ficar tão chateado com essa história.

Não fazia sentido. Eu queria muito mudar essa realidade. Eu não consigo guardar dinheiro. Como assim? Percebi no mesmo momento que eu não tinha uma rotina saudável, me alimentava mal e cuidava de forma precária de minha empregabilidade.

Eu não consigo guardar dinheiro. Eu não consigo praticar exercícios físicos. Eu não consigo me alimentar direito. Eu não consigo escolher um lugar melhor para trabalhar. O mundo pareceu pesado demais para mim naquele momento, mas a realidade foi também uma espécie de alívio.

A minha vida estava bagunçada em mais de uma área. Em todas, praticamente. O problema não era o dinheiro, o bolso, mas minha atitude em relação às minhas próprias prioridades. Resolvi investigar um pouco cada tema, e aqui compartilho o que aprendi sobre dinheiro naquele momento.

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Eu não consigo guardar dinheiro: isso é antinatural

Sejamos sinceros, ninguém acorda super bem-humorado pensando “Ahhhh, hoje é dia de guardar dinheiro. Vou juntar e vai ser maravilhoso”. Nah, mais fácil acontecer de passar em frente a uma loja e, quase que na velocidade de um piscar de olhos, sair de lá com uma sacolinha.

Gastar é muito mais prazeroso que guardar dinheiro, principalmente se você considerar que o ato de comprar alguma coisa está cada vez mais associado a uma decisão tomada para “amenizar os efeitos da ansiedade”. O resultado… eu conto ou você conta? Pois é.

A verdade é que guardar dinheiro é antinatural. O fluxo normal é trabalho-dinheiro-gasto-necessidade de mais dinheiro-mais trabalho e por aí vai. Normal, uma ova, é verdade, mas é assim que estamos “acostumados” a pensar e fazer – e acabamos agindo de forma automática.

Ah, sim, é assim desde que o mundo é mundo, basta pensar que nossos antepassados precisavam sair para caçar mais de uma vez por dia para garantir suas refeições e a expectativa de vida era baixíssima. Estocar alimentos com segurança e por um bom tempo na geladeira é algo recente. Guardar dinheiro também.

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Eu não consigo guardar dinheiro: a recompensa demora

Quer saber? Sim, você tem razão, a gente demora um pouquinho para perceber e viver as vantagens de guardar dinheiro, que são incríveis diga-se de passagem. A saber:

  • Reserva para emergências. O assunto mais batido das finanças pessoais e um dos mais ignorados. Com dinheiro guardado, as emergências podem ser enfrentadas de forma mais suave, com mais calma e planejamento. Simples assim;
  • Realização de objetivos. Viajar é muito legal, uma das experiências mais recompensadoras que existe, mas para tanto é preciso gastar dinheiro. Eu disse gastar? Ah sim, mas se você não se planeja, você se endivida. Então é bom que você consiga guardar para evitar juros elevados (e por aqui, já sabe né, eles são altíssimos);
  • Desacelerar e ter mais tempo livre. Se você tem investimentos capazes de compor sua fonte de renda (ou até mesmo substitui-la), você também tem mais oportunidades de usar melhor seu tempo, desacelerando, abrindo um novo negócio, passando mais tempo com os filhos, sei lá.

Mas, sim, isso tudo requer planejamento e a celebração de tamanha independência requer disciplina, persistência e paciência. Aprendi, então, que se eu não consigo guardar dinheiro, fico mais distante de uma vida mais livre – ou melhor, realmente livre.

Construir a tranquilidade financeira demora um pouco, e não há nada de errado nisso. O problema não é exatamente esse, mas nossa maneira de agir e pensar: somos impelidos a agir e nosso “cérebro primitivo” é acionado quando somos provocados em relação à ganância e medo.

Adivinha? A maioria dos produtos, cursos e livros de finanças pessoais e investimentos apela justamente para o “medo de você continuar pobre” e/ou para “o seu desejo de ficar rico rapidamente”. Você se envolve, gasta seu dinheiro com esse material e sua vida não muda tanto, não é mesmo? Não é tão simples. Nem instantâneo.

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Eu não consigo guardar dinheiro: precisa ser um hábito

O que eu demorei para aprender e colocar em prática desde a fase do “eu não consigo guardar dinheiro” é que os hábitos que funcionam são os mais simples, de certa forma que possuem três características claras:

  1. O hábito em si é uma ação objetiva e clara (não precisamos pensar ou traduzir seu nome para uma atitude);
  2. As ações associadas ao hábito estão ao alcance (se você tiver que esperar uma semana ou viajar para conseguir, vai ser mais complicado);
  3. O resultado da prática do hábito precisa ser sentido já no primeiro dia (emagrecer é demais para um dia, mas suar um pouco ou sentir que gastou energia é possível).

Pense em um exemplo didático que sempre surge como um objetivo de vida no Réveillon: perder peso. Emagrecer. Nobre, importante e muito necessário, é verdade, mas perder peso significa emagrecer quantos quilos? Depende? De quê? De quem? Hum, já complicou…

O desejo de perder peso é isso, um desejo, e para se transformar em um hábito precisa ser praticado através de algo que caiba nas três regrinhas que mencionei acima. Que tal sair para caminhar todo dia por 45 minutos?

Opa, sair para caminhar todo dia por 45 minutos? O novo hábito é autoexplicativo (regra 1), basta colocar uma roupa mais confortável e um tênis e sair pela rua (regra 2) e você certamente vai chegar mais cansado e transpirando (regra 3).

O assunto é dinheiro, você tem razão. Funciona da mesma forma. Guardar dinheiro é legal, mas é muito abstrato. Economizar dinheiro também. Você precisa ser mais específico e claro com o que pretende em relação às finanças.

Experimente algo como “Vou pagar hoje usando cartão de débito”. Fácil de saber o que fazer (regra 1), seu cartão está sempre com você (regra 2) e você terá que ter saldo e pensar se pode comprar (regra 3).

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Eu não consigo guardar dinheiro: precisa ser prioridade

A esta altura, espero que você tenha compreendido que juntar dinheiro é, na verdade, mais simples do que pensava. E até mais fácil do que talvez jamais tenha imaginado. A questão é mesmo como nós lidamos com essa decisão, se fazemos isso de forma consciente ou se deixamos o piloto automático decidir por nós.

Com o bolso, não podemos nos dar ao luxo de deixar as coisas caminharem sozinhas, como se a vida fosse se encarregar de tudo. Lembre-se: guardar dinheiro é antinatural e os resultados demoram um pouco para aparecer.

Entra em cena uma palavra importante: prioridade. Ao lado da saúde, família, amigos, trabalho e lazer, dinheiro precisa ser um tema sempre presente nas conversas familiares, no dia a dia e no contexto da tomada de decisões.

No meu caso, para não deixar esse assunto esquecido, configurei lembretes diários para lançar minhas despesas no meu sistema de controle financeiro e decidi que eu iria transformar em um hábito a coleta das segundas vias de tudo que comprasse no cartão.

No fim do dia, eu tenho no bolso vários canhotos que preciso lançar no controle. Lembra das três regras? Vai ver que elas se encaixam perfeitamente tanto em “Anotar os gastos na planilha todo dia” quanto em “Pedir e guardar a segunda via de todas as compras”.

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 Conclusão

Eu não nasci sabendo investir, guardar dinheiro e lidar bem com as finanças. Pelo contrário, essa foi uma habilidade adquirida depois de errar bastante e lidar com inúmeras frustrações em diferentes áreas da vida (com consequências no bolso, inclusive).

Aprender a lidar com o próprio dinheiro é uma escolha que precisa estar associada a melhorias diárias, pequenas o suficiente para que sejam praticadas de forma muito fácil, mas constantes o suficiente para que entreguem resultado ao longo do tempo.

Você pode pegar um livro e logo olhar para o número na última página, pensando “Nossa, é muita coisa pra ler” ou você pode ler por um minuto. E por mais cinco minutos. Outros 30 minutos. Se você seguir essa lógica, ler o livro será mais legal e não será tão difícil.

A disciplina não é uma matéria que dominamos, mas uma realidade que dominamos na única fração consciente de tempo que controlamos: o agora. Amanhã você não sabe bem como será; ontem você não fez nada em relação ao dinheiro. Que tal já? Agorinha?

Conrado Navarro
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