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Crise de confiança, os mercados e a realidade financeira

Publicado por Ricardo Pereira em 08.10.2008 na seção Economia Geral

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Crise de confiança, os mercados e a realidade financeiraVocê, leitor fiel do Dinheirama, já deve estar cansado de ler e ouvir falar da crise financeira atual. Eu estou cansado. Não dá, são diversos artigos pela internet abordando o assunto; os telejornais mostram o que o mundo financeiro pensa e está fazendo para tentar conter o sangramento; os jornais dedicam quase que o caderno todo de economia[bb] para registrar os acontecimentos que circulam toda a turbulência. Ufa.

Hoje, durante o almoço, o noticiário esportivo de uma emissora era pouquíssimo observado. Pararam de falar da reta final do Brasileirão. Diante de tanta gente cabisbaixa, uma voz rouca disse: “Eu lá quero saber de futebol. Quero saber se a taxa de juros vai cair”. Mesmo estando na Paulista, me assustei. Me dei conta de que o país do futebol se transformou no país dos economistas de plantão.

Tudo bem, esta constatação é exagerada. Por incrível que pareça, a crise financeira ainda passa longe do cotidiano da maioria da população. Será? É impressionante como, hoje em dia, Wall Street[bb] parece estar a poucas quadras daqui. E está. Por onde lemos e a todos os programas que assistimos lá estão os jornalistas e a equipe de governo mencionando os mercados americanos. A proximidade que muito nos beneficiou nos últimos anos agora nos brinda com a “importação” de uma crise.

Afinal, que crise é essa?
Confiança é a palavra de ordem. Trata-se de uma crise financeira que, em segunda análise, nos leva ao ponto central do momento que vivemos atualmente: o que fazer para reconquistar a confiança dos investidores e do mercado? Quando o assunto é dinheiro, confiança tem peso enorme. Não é assim?

Perceber e vivenciar a quebra de instituições que antes ditavam as regras e alimentavam o sistema torna o ato de confiar um tanto nebuloso e muito difícil. Quem é confiável? Pensando nisso e nos reflexos reais da crise, os Bancos Centrais das principais economias do mundo parecem matar um leão por dia. Como tornar o sistema novamente confiável?

Injeção de bilhões de dólares e reais aqui e acolá, resgate de carteiras podres de bancos em apuros, flexibilização do compulsório. Hoje está em curso uma ação coordenada entre os Bancos Centrais dos Estados Unidos, União Européia, Canadá, Suíça, Suécia e China. Decidiram, entre outras coisas, reduzir conjuntamente os juros. A volatilidade e as expectativas, porém, continuam preocupando.

E agora, José?
A-há, boa pergunta. E agora? A verdade é que ninguém sabe ao certo como o mercado interpretará essa ação histórica. Isso mesmo, histórica. Nunca havia se pensado em uma ação econômica dessa magnitude e de forma tão coordenada. Talvez essa ação seja considerada atitude-desespero, pela simples constatação de que a crise é maior do que se supunha.

O que se sabe, e talvez esta seja a luz no fim do túnel, é que o problema é global, generalizado. Ações conjuntas talvez sejam as únicas possibilidades reais de sucesso para que o mundo consiga sair dessa crise de confiança e, principalmente, de oportunidades. Com isso, quero dizer que conquistar a confiança terá que ser um trabalho de muitos governos.

O que é uma crise de oportunidades?
O mundo não vive sem crédito, certo? As empresas interrompem os investimentos, param seus projetos de crescimento e os investidores[bb] entram em rota de colisão com os seus próprios planos. Sem crédito, o mundo pára. Congelam-se as oportunidades de desenvolvimento, de geração de empregos, de capital produtivo e etc. As oportunidades passam.

Pessimista sim, terrorista não!
O artigo de hoje está em um tom um pouco pessimista, admito. O Ibovespa fechou em baixa (-3,85%) mais uma vez, dando a entender que a ação coordenada dos BCs não foi suficiente. Na verdade, é cedo para dizer. Por enquanto, reinam o medo e a insegurança, fatores que alimentam a discutida crise de confiança. Está todo mundo “com a pulga atrás da orelha”, esperando pelo próximo movimento. Mas, que movimento será esse?

A comparação com o ciclo fortíssimo de correção da crise de 1929 é um alerta de que as coisas vão mal e podem piorar. No entanto, mantenho a expectativa positiva apoiando-me nas constatações de que crises são cíclicas e de que todos nós estamos tirando boas e importantes lições desse período. Mudanças positivas para o sistema financeiro surgirão. O mundo não vai acabar.

E o que acontece no Brasil?
O Banco Central brasileiro vem agindo no sentido de promover liquidez no mercado. Mais, começou a vender dólares da reserva cambial na tentativa de conter a alta da moeda americana, que hoje recuou um pouquinho (bem pouquinho), fechando em R$ 2,28. Concordo com alguns analistas mais ousados: por que não cortar, agora, hoje, 0,5% da taxa Selic?

Os corvos já rondam os céus cinzentos do mercado financeiro[bb]. Uau, fala-se em deflação em alguns países. Há pouco tempo estávamos preocupados com o dragão inflacionário, não é mesmo? A economia muda muito, mas muito rapidamente. A turma toda gosta de dizer: quem tem sangue frio se beneficiará lá na frente. Pois é, mas quem está disposto a esperar?

Alguns lembretes importantes: 1) A promoção “Investimentos Inteligentes no Dinheirama” está chegando em sua data limite. Você já garantiu sua participação? Ainda não? Acesse o post da promoção e participe; e 2) O clube de investimentos “Meninas com Dinheirama” já conta com bom número de participantes. Com investimentos de apenas R$ 100,00 você pode começar a investir em ações. Que tal? Conheça as regras e participe. Até sexta.

——
Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

8 comentários
  1. Imagem do comentarista

    Acho que essa crise, como você comentou no post, vai trazer benefícios. Em que sentido? No aprendizado. Não somente para as pessoas que têm poder de mudança, como os presidentes dos BCs, mas também de pessoas leigas, que por influência direta em suas vidas, passarão a ter mais curiosidade e buscar respostas.

  2. Imagem do comentarista
    Tacla

    Na crise de 29, até o mais simples engraxate deu pitaco em quais papéis investir na véspera da quebra. Isso serve como reflexão para nós.

    Uma pergunta: Será que é o momento de investir em um fundo Cambial? Por mais q o BC injete dólares no mercado, seu valor continua subindo.

  3. Imagem do comentarista

    Pedro Ferreira, muito obrigado pelo comentário.
    A oportunidade de aprendizado com a crise é única. Sempre difícil aprender pela dor, dor no bolso.
     
    Tacla,  boa noite tudo bem?
    Exatamente, na crise de 29 muita gente simplesmente viu suas economias se transformarem em pó.
    Warren Buffett tem uma frase emblemática, que retrata um pouco de como o mercado estava se comportando antes da crise:
    “Seja audacioso quando os outros estão com medo e tenha medo quando os outros estão audaciosos
    Vale a pena a reflexão.
     
    Abraços

  4. Imagem do comentarista

    Eu tenho um palpite sobre como essa crise pode ser benéfica pra o Brasil.Bom, como todos comentam, o Brasil esta mais preparado para enfrentar uma crise. Nota-se isso pois, apesar da desvalorização da bolsa e da alta do dolar, o efeito da crise ainda não foi sentido com toda sua força pela economia nacional (isso é minha opnião, um leigo o assunto). Não da pra negar que o Brasil ainda vai sofrer com essa crise, mas se o país continuar nessa tragetória, com a economia resistente como está, mesmo quando a crise piorar, então após o final da crise o Brasil pode ficar numa posição privilegiada em relação a investimentos, pois terá provado que temos uma economia forte e confiável para investimentos.

  5. Imagem do comentarista
    Odir Filho

    Ricado, diante de tantas profecias apocalipticas e mazelas e mazelas nos Estados Unidos e União Européia, eu te pergunto: e o brasileiro corre algum risco de um algum banco no Brasil simplesmente quebrar e deixar os correntistas no prejuízo, tendo em vista que alguns bancos americanos já quebraram e em outros casos fala-se em garantir os depósitos já realizados nestas instituições? Obrigado

  6. Imagem do comentarista
    Daniel Pondé

    Parabéns pelo texto Ricardo, interessante para despertar a curiosidade de mutos. Gostaria de deixar aqui uma idéia (ou talvez mais de uma) para quem sabe ser assunto dos próximos artigos. Então se você me permite, que tal a venda de dólares realizada pelo banco central e como isso afeta diretamente o mercado? A diferença entre a venda à vista e de futuros, medidas como o compulsório e suas novas regras. Algo que comentei com o Conrrado, a economia da China e o seu futuro, tema muito relevante considerando tamanha importãncia sobre a economia mundial e principalmente brasileira. grande abraço e parabéns mais uma vez.

  7. Imagem do comentarista

    [...] hoje! Vou rebater o artigo pessimista do Ricardo (risos). Ontem eu li uma entrevista no jornal “O Estado de São Paulo” e acho que ela é um bom [...]

  8. Imagem do comentarista

    Olá Tiago, tudo bem?
    Concordo com você o Brasil está preparado para a crise, pelo menos muito melhor do que em crises anteriores. Vamos torcer para que os desdobramentos futuros venham no sentido de comprovar nossa tese.
     
    Olá Odir, como vai? Muito obrigado pela participação.
    Risco sempre existe, mesmo em momentos de tranquilidade existem perdas no setor bancário que prejudica os correntistas, vide o caso do Banco Santos.
    De uma maneira geral, para esse momento não percebo um perigo imediato, principalmente porque o Banco Central esta de olho e tomando medidas que garantem certa liquidez ao mercado bancário.
     
    Daniel Pondé, boa noite!
    Sempre um prazer ver seus comentários, muito oportunos por sinal.
    Estão anotadas as suas ótimas sugestões de pauta. Tanto eu quanto o Navarro em breve abordaremos os temas.
     
    Abraços

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