12 mai Educação Financeira

O aumento da inadimplência no Brasil: sobram desejos e falta educação financeira

A inadimplência aumenta no Brasil e com ela a preocupação de que os brasileiros não consigam pagar suas dívidas. O problema é sério e requer educação financeira.

por Ricardo Pereira
há 3 anos

O aumento da inadimplência no Brasil: sobram desejos e falta educação financeiraA cada novo dia surgem diversas notícias de que as classes C e D são as meninas dos olhos do comércio e da indústria. São os principais alvos de campanhas de marketing, graças ao recente crescimento econômico do Brasil e a melhora no padrão de vida (aumento da renda média, acesso ao crédito e mais qualidade de vida) dessa parte da população.

Confesso que sempre vi esse cenário com reservas. É claro que o consumo e a realização dos sonhos não podem ser simplesmente esquecidos, mas pouco se falou da necessidade de guardar dinheiro e construir patrimônio, algo tão necessário para o futuro – inclusive para conquistar melhores oportunidades de consumo lá (ali) na frente, com consciência e inteligência.

Explosão de consumo e de devedores
O resultado da explosão do consumo começou a aparecer: de acordo com a Serasa Experian, a inadimplência do consumidor registrou acréscimo de 17,3% se comparada a abril de 2010. Os números apresentados hoje representam a 12ª elevação consecutiva. Alguns dirão que os níveis ainda são baixos e administráveis. Eu prefiro ser mais realista. A situação não é boa.

Se você, amigo leitor do Dinheirama, perceber que está dentro dessa estatística divulgada, entenda que o grande desafio é aceitar que o (principal) culpado pela situação difícil do momento não é ninguém além de você mesmo, que optou por realizar aquisições que suas condições financeiras não permitiam.

Lembre-se ainda que a inadimplência pode levá-lo ao pior dos perigos: a necessidade de arcar com os altos juros praticados no Brasil. Vale, mais uma vez, repetir o mantra já tantas vezes mencionado por aqui: crédito fácil não é sinônimo de crédito barato. Simples assim.

Medidas de controle são necessárias
Temos percebido que o governo vem adotando medidas de restrição ao crédito. Interessante, mas ele poderia também optar por alternativas mais eficientes e práticas como a limitação de parcelas em financiamentos. Com o aumento dos juros, as pessoas não reduziram o consumo, mas optaram por aumentar os prazos.

O perigo ficará cada dia mais evidente à medida que o consumidor mais afoito for incorporando novas despesas e novos parcelamentos em seu orçamento. Uma bomba relógio está sendo armada diante de nossos olhos!

Outro ponto que não pode ser desconsiderado ao estudar os números é o quesito inflação. Ao contrário de alguns especialistas, não acredito que a alta dos preços foi o fator determinante para os resultados de agora. É inegável, estou de acordo, que alguns produtos como combustíveis e alimentos, por exemplo, tiveram um acréscimo significativo nos últimos meses.

Cartão de crédito, ferramenta de consumo e responsabilidade
Vale a lembrança de que o cartão de crédito é um grande instrumento de educação financeira, mas também é um perigo para os desavisados. Quem utiliza a ferramenta da maneira apropriada, respeitando os limites do padrão de vida, consegue usufruir dos benefícios prazo estendido, segurança e controle nas compras. Já quem utiliza o cartão de crédito sem o devido cuidado e gasta mais do que pode se virá enroscado com os mais altos juros (mais de 500% ao ano em alguns casos) e, consequentemente, com a inadimplência.

A preocupação com o cartão de crédito também se justifica pela facilidade de uso. Se você não consegue resistir aos apelos de consumo, uma alternativa é deixar o cartão em casa e não carregá-lo na carteira, optando pela sua utilização apenas nos momentos de extrema necessidade. Nessa hora, a responsabilidade com seu bolso tem que ser valorizada.

Educação financeira, oportunidade e consciência
Colocar a educação financeira em destaque no dia a dia familiar é um grande desafio. Mas, pense bem, ter que conviver amarrado, sem liberdade e envolto em dívidas, sofrimento e falta de esperança não é um desafio muito maior? Quantos já chegaram até o Dinheirama pensando que a vida tinha acabado e que não sabiam mais o que fazer para colocar as finanças em dia. Sei que não é fácil.

Por fim, reitero minha opinião de que os sinais da inadimplência podem ser interpretados como um grave perigo. Ora, na medida em que ela for aumentando, maiores serão os perigos para a economia real. Empregos, crescimento do país, oportunidades, tudo ficará comprometido. Como você pode ver, o fato de se programar para quitar suas contas possui maiores desdobramentos e consequências do que você pode imaginar.

Estar em dia com o seu bolso faz bem pra você, pra sociedade e para o país. Não comprometa seu futuro gastando sem planejar. Combinado? Até a próxima.

Foto de sxc.hu.

Ricardo Pereira

Educador financeiro, palestrante, Sócio do Dinheirama é autor do livro "Dinheirama" (Blogbooks), trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama. No Twitter: @RicardoPereira

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  • http://www.andregugliotti.com.br/ André Gugliotti

    Isso era uma tragédia anunciada. E realmente só aumentar os juros não vai resolver, tem q restringir o número de parcelas. 10 x 0 pra inflação!

  • http://ilustracoesdennyfischer.blogspot.com Denny

    “Colocar a educação financeira em destaque no dia a dia familiar é um grande desafio. Mas, pense bem, ter que conviver amarrado, sem liberdade e envolto em dívidas, sofrimento e falta de esperança não é um desafio muito maior?” Gostei dessa frase do Ricardo porque normalmente as pessoas falam que estão presas ao dinheiro, e que é ele que causa o sofrimento e angústias quando na verdade é só mudar a perspectiva e começar a aplicar a Educação Financeira, dinheiro pode ser sinônimo de liberdade.

    Grande texto Ricardo!

  • http://umanosemcompras.blogspot.com/ Marina

    Olá Ricardo, gostei muito da coluna. Acho que muitas pessoas sentem que têm mais dinheiro do que realmente têm e isso é complicado. Comigo aconteceu o seguinte: abri uma conta no Banco Y sendo que antes utilizava o banco X. No meu antigo banco X sempre que eu tirava um extrato vinha escrito o valor que eu tinha em conta disponível. No banco Y acontece que toda vez que tiro um extrto vem o valor que eu tenho na conta mais o valor dos cheque especial somado. isso quer dizer que o valor que aparece não representa o dinheiro que eu realmente tenho, mas sim é composto pelo que realmente tenho e pelo que posso pegar emprestado através do uso do cheque especial. Eu não sabia disso logo de início (sinceramente, como meu banco anterior era mais honesto e transparente e mostrava o valor do cheque especial separado do valor em conta, nem pensei que algum outro banco poderia fazer isso diferente!). Hoje sei disso após ter passado pela situação de entrar no cheque especial e só descobrir depois, no outro mês. Sou uma pessoa muito certinha com dinehiro, já atrasei um boleto, mas nunca a ponto de ficar devendo. compro quase tudo a vista, só parcelo coisas maiores e, mesmo assim, poucas coisas. estou tentando passar um ano inteiro sem fazer compras desnecessárias porque, mesmo com tudo isso, compro muitas coisas de que não necessito. Atualmente se você é uma mulher jovem como eu e abre uma revista de moda, metade dos anúncios faz com que você se sinta péssima ou desatualizada se não tem um determinado produto… é difícil a gente lutar contra isso. Começco meu ano sem compras dia 1 de julho e acho que vai ser um apendizado e uma reflexão, além de ser bom para o bolso. Acho que se houvesse educação financeira nas escolas muita confusão seria evitada.

  • Joacy Coelho

    Parabéns pelo texto.
    Venho observando esse movimento na economia já faz um tempo – em 2009 Fernando Blanco já dizia que “o endividamento das pessoas no brasil estava irracional”, imagine agora, depois de tanto estímulo ao consumo.
    A relação das pessoas com o dinheiro é algo extremamente difícil e doloroso num país como o Brasil, com tantos problemas de inflação, corrupção e planos econômicos fracassados. Tudo isso reflete nos sonhos das pessoas, de terem o básico para sobreviver. Observem que toda essa festa de consumo do brasileiro são motivadas pelo consumo de coisas ligadas à moradia, transporte e lazer, coisas básicas – a saúde faltou nessa equação, pelo contrário, o que vemos é um total descaso com essa questão, a exemplo da briga entre médicos e planos de saúde, e ninguém faz nada, aqui em São Luis-MA não tem mais diferença entre emergência de hospital público e privado, é tudo lotado.
    O lulismo não tem um projeto de governo, tem sim um projeto de poder e se for preciso que o povo gaste e se endivide vão dizer “compre, compre, compre” e depois, como agora, pedem que o povo “poupe, poupe, poupe”. E aí, eu pergunto, qual é o mais fácil, comprar ou poupar?
    É claro que ninguém vai entender essa de poupar, todos estão cegos, achando que o Brasil já é uma potência econômica, como nos anos 70, que suas vidas estão resolvidas com um carro com prestação de 80 meses e uma casa com 30 anos para pagar.
    Desse jeito o Brasil continuará sendo eternamente o país do futuro.

  • http://www.covivo.eu dri

    falou e disse: crédito fácil não é sinônimo de crédito barato. Simples assim.

  • http://blog.sucessoagora.com Tiago Simões

    Olá Ricardo,
    O maior problema, creio eu, é a falta de educação financeira dentro das escolas. Aprende-se um monte de bobagens e não se prepara o indivíduo para a vida real.
    Sem uma base, pode-se ganhar rios de dinheiro que serão completamente dissolvidos em “bens necessários”.
    Parabéns por colocar o dedo na ferida, pois somente assim é possível de se realizar a cura.

  • Joaquim M Guedes

    Meu caro Ricardo.Falar em inadiplencia e aconselhar as pessoas não usarem cartão de créditos.Porém, o juro aqui no Brasil é um absurdo e contribui muito para deixar os brasileiros na inadiplencia, sem possibilidade de honrarem seus compromisos. Os emprestimos consiguinados tambem faz parte da inadiplencia, porque as pessoas tomam empréstimos e suas aposentoadorias e salário deminuem seu poder de barganha. E preciso que as autoridades dem um freio nisso.

    Um forte abraço,

    Paulista(PE), Joaquim M Guedes – 21.07.2011.

  • Angela

    Gostaria de saber se voce pode me enviar por e-mail um livro e ou site que me ensine com melhorar cadastro de cliente que compra roupas em atacado.

  • Francisco

    Achei este link com um guia bacana sobre o que fazer quando nosso cheque é devolvido, até quando já foi protestado. Bem legal, recomendo:

    http://oquefazer.net/o-que-fazer-quando-um-cheque-e-devolvido

  • Pingback: Igreja não paga imposto e oferece cartão de crédito. Não tem algo de errado nisso? | Pois bem

  • michelle

    gostaria de saber como faço para pagar o banco, do emprestimo que pedi, é um absurdo pedi 5,0000 e 6,000 é juros, não estou conseguindo para as parcelas. devo pedir outro empréstimo o que faço ,me ajude por favor.