Nos dias que correm todos estão preocupados com a escalada do dólar. Sem qualquer sombra de dúvida, o mais preocupado é o presidente da Argentina, Macri, dada a alta em relação ao peso (mais de 27 pesos por dólar), isso mesmo depois de queimar algo como US$ 7,0 bilhões de suas reservas internacionais. Além de ter que recorrer à ajuda do FMI para dólar a escalada.

Destaco que as reservas argentinas estavam em cerca de US$33 bilhões. Mas não é só a Argentina preocupada. Outros países emergentes, principalmente aqueles desequilibrados em suas finanças públicas, aos quais podemos acrescentar, principalmente Turquia e África do Sul.

Temos motivo para nos preocuparmos no Brasil?

O Brasil parece menos vulnerável do alto de suas reservas ao redor de US$ 382 bilhões, e tem muita expertise (a Argentina não) em lidar com pressão cambial.

O Bacen sabe bem como lidar com operações de swap cambial e leilões de linha e o presidente Ilan Goldfajn tem muita quilometragem nisso. O Bacen aproveitou outros momentos para reduzir a exposição em swap cambial, e hoje, mais pressionado, pode fazer uso com complacência desses instrumentos. Porém uma parte dessa escalada do dólar vem do exterior, contra o qual não há muito o que fazer.

Elevação dos juros nos EUA

A expectativa é de elevação dos juros nos EUA e de encolhimento do tamanho do balanço do FED que saiu antes da crise de 2008 de cerca de US$ 1,0 trilhão, para quase US$ 5,0 trilhões e deve voltar de forma gradual para algo pouco abaixo dos US$ 3,0 trilhões. Cito ainda declarações do dirigente regional do FED, Kaplan de Dallas, dizendo que o “FED não deve ter como garantia a dominância global do dólar”.

Temos que considerar que o comércio transnacional é praticamente todo referenciado na moeda americana e essa escalada desequilibra quase tudo pelo mundo. As commodities ressentem, os preços dos ativos ficam baratos ou caros, e sobrevêm o que há de pior: larga volatilidade.

Reduzir os juros pode aumentar o dólar no Brasil?

No caso especifico do Brasil, passamos por um dilema crucial. Se o Bacen reduzir juros Selic nessa reunião de 16 de maio, poderá estar patrocinando mais alta do dólar, e isso parece ser o que ele quer evitar.

Pelo lado da inflação seria claro o movimento de baixa da Selic. Pelo lado de estimular a economia também. Porém, seria uma postura mais arriscada. Basta lembrar que na crise da Rússia de 1998, depois de perder suas reservas, o país acabou tendo que declarar moratória. Bem verdade que estávamos em plena mudança de regime e a familiaridade dos ex-comunistas com práticas capitalistas era diminuta.

O perigo do endividamento das empresas

No Brasil, o segundo problema se refere às empresas. Dinheiro barato no exterior por muitos anos seguidos e taxas de juros anomalamente baixas; trouxeram forte nível de endividamento, e agora as empresas estão pagando por isso. Alavancagem alta, despesas financeiras elevadas, operações de hedge caras; compõem um quadro de dificuldades. O pior é que essas dificuldades vão ao encontro a necessidade de o país crescer, que fica completamente prejudicada. Ainda mais por conta de convivermos com grande capacidade ociosa.

Em síntese, que o fato sirva de alerta ao Brasil que não está completamente imune em assimilar parte dessa ressaca internacional. Precisamos ser prudentes, e se essa prudência significar não reduzir juros, pois que venha.

No mais, é buscar empresas pouco endividadas ou reduzindo alavancagem, como muitas estão fazendo e vendendo ativos. Nesse aspecto a garimpagem de alternativas se faz necessária.

Alvaro Bandeira
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