Em 18 de março, o índice Bovespa conseguiu romper a barreira emblemática de 100.000 pontos. Cravou uma alta em 2019 da ordem de 14%.

A marca em si não significa quase nada do ponto de vista técnico, mas certamente é uma barreira “psicológica” importante que não deve ser desprezada. Se corrigíssemos a marca obtida lá em 2008, antes do evento conhecido como subprime que jogou a economia global em recessão, pela inflação do período, estaríamos falando de um índice na faixa de 138.000 pontos. Também não tem grande valor de análise.

Na minha opinião, o rompimento foi mais importante se considerarmos o noticiário negativo do dia. Logo cedo, tivemos a divulgação da nova pesquisa semanal Focus do Bacen, dando conta de inflação em alta para 2019 em 3,89%, queda forte da previsão do PIB para 2,01% (anterior em 2,28%), produção industrial encolhendo para 2,57% (de anterior em 2,80%), e até o superávit da balança comercial retrocedendo para US$ 50 bilhões. Além disso, o mesmo Bacen anunciou que o IBC-Br, uma espécie de prévia do PIB de janeiro, encolheu 0,41% com ajuste e cresceu em 12 meses 1,00% sem ajuste.

Tudo junto e somado com o pibinho de 2018, comportamento das vendas no varejo, produção industrial e taxa de desemprego indicam que a economia vem perdendo tração nos últimos meses e a recuperação, depois de dois anos de recessão e dois anos de expansão pequena se dá de forma muito lenta e sem capacidade de acelerar. Principalmente quando avaliada pela formação bruta de capital fixo sofrível e taxa de investimento em relação ao PIB que não chega nem a 16%.

Foi importante ainda o fato que diante de tudo, no mesmo pregão tivemos o vencimento do mercado de opções para o prazo março, com volume de exercício de opções de R$ 13,3 bilhões, sendo que R$ 10,5 bilhões representado por opções de compra. Mais ainda nas últimas sessões da Bovespa, ao fluxo de recursos de investidores estrangeiros esteve sempre positivo. Fazendo com que o fluxo de março virasse para positivo (até 14 de março) em R$ 497 milhões e encolhesse bastante a saída de recursos do ano, para somente R$ 597 milhões.

Destacamos que no meio desse caminho ainda tivemos o estresse interno com as ações de Vale pós tragédia de Brumadinho e um quadro de incerteza forte no segmento externo, principalmente em decorrência de um Brexit complicado, e até o momento sem qualquer definição.

Passamos dos 100.000 pontos do Ibovespa, e agora como ficamos?

Nossa interpretação é que estamos na dependência da reforma da Previdência, e nesse momento as informações disponíveis são positivas.

Há certa crença de que o projeto encaminhado ao Congresso não será muito desidratado e que existem boas chances de ser aprovado até a virada do primeiro semestre. Se isso for verdade, a tendência primária de alta da Bovespa pode ser mantida e as projeções do Ibovespa podem chegar até 120.000 pontos, o que seria uma valorização de cerca de 36%, em algum momento desse ano.

Quanto mais desidratada a reforma for e mais tempo demorar, mais difícil será atingir essa pontuação, e na hipótese perversa poderíamos até ter a perda do patamar. Não que a Previdência seja importante em termos dos agregados macros, mas sim o que ela pode representar em termos de credibilidade do governo que está começando para instruir outras reformas, e aumento do capital político.

Resumindo: teremos ainda muita volatilidade dos mercados no dia-a-dia, mas a tendência primária deve seguir de alta. Basta ver o fluxo canalizado para operações de maior risco e renda variável, e a queda do CDS (Credit Default Swap) do Brasil que atingiu o menor nível dos últimos 12 meses em 149 pontos.

Claro que tem um pouco de torcida para que as reformas sejam feitas de forma intensa, na direção correta e com velocidade; mas isso é uma parada dura, principalmente quando se necessita do apoio constitucional do Congresso Nacional.

Alvaro Bandeira
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