Muito tem sido escrito na imprensa especializada nas comemorações dos 20 anos do Plano Real, aliás justamente. Foi o único plano que conseguiu domar o processo inflacionário brasileiro, depois de sucessivas e frustrantes tentativas em diferentes governos.

Quem tem hoje menos de 40 anos de idade, não tem a consciência do que era conviver com taxas de inflação elevada, correção monetária para tudo (um jeitinho brasileiro) e fortes distorções distribuídas pela economia.

No dia 01 de julho de 1994 entrou em vigência a moeda real, não sem preparações anteriores e implantação da URV (Unidade Real de Valor). Antes, a cada plano mal sucedido de governo (foram retirados nove zeros) as moedas eram carimbadas e seguiam valendo.

Em um único dia, as novas notas do Real foram distribuídas no país continental e marcaram um bom lance de marketing, destinado a sensibilizar a população e angariar sucesso.

A realidade com o Plano Real

Saímos então de uma taxa de inflação mensal de mais de 47%, em junho de 1994, para algo como 6,2% já no mês seguinte, julho de 1994.

Na sequência do Plano Real foi anunciada a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), a capitalização do Banco do Brasil e Caixa Econômica (estavam em dificuldades) e o programa de privatização envolvendo setores como telecomunicações, siderurgia e mineração. Além disso, foram implantadas medidas importantes extinguindo bancos estaduais e os pilares adicionais à LRF, com metas de inflação e câmbio flutuante.

Todas essas mudanças perseguidas com eficiência pela equipe econômica garantiram o sucesso do Plano Real e sua longevidade. O câmbio flutuante trouxe maior tranquilidade, e em alguns momentos a moeda americana foi negociada abaixo da paridade (chegou a ser cotada na faixa de R$ 0,80).

A meta de inflação em 4,5%, que não foi alterada desde 2005 (antes foi fixada mais acima), foi relevante para retirar a cultura inflacionária da população e empresários, e o país seguiu mostrando bons ajustes da economia.

O dado mais importante ficou mesmo com a capacidade de planejamento restaurada. Quem ou que empresa conseguiria planejar suas atividades com taxas de inflação de mais de 1.000% ao ano ou câmbio paralelo com ágio de mais de 150%?

Retirada a cultura inflacionária com taxas mensais bem mais amistosas, com câmbio flutuante e sem traumas externos de crises as mais diversas (asiática, russa, argentina e até brasileira no limiar da assunção de Lula à presidência), o fluxo de investimentos para o país foi ampliado e as privatizações transformaram empresas deficitárias ou pouco lucrativas em empresas competitivas.

Melhorou bastante, mas e agora?

Os ganhos obtidos com o Plano Real foram expressivos, mas agora questionamentos começam a surgir, principalmente em relação aos pilares da economia. A inflação, resistente, se mantém nas proximidades do teto da meta de 6,5%.

A própria meta de 4,5% segue sendo alta para padrões internacionais – só para se ter ideia, a inflação acumulada durante os 20 anos de plano real atinge 360% até maio de 2014) e o câmbio sofre interferências “sujas” em suas flutuações diárias, muito ao sabor de cada momento (agora para domar a inflação).

A Lei de Responsabilidade Fiscal sofre com flexibilizações instituídas pelo governo e ainda com toda a contabilidade criativa que vigorou, principalmente, nos últimos três anos.

Eleições e as necessidades de mudanças

Todas as expectativas se voltam para o novo governo, que toma posse em janeiro de 2015, seja quem for o novo presidente. Renovam-se as esperanças de que esses marcos que tanto bem fizeram ao país nos últimos anos sejam retomados, e que o país possa definitivamente consolidar seu futuro de crescimento consistente e com planejamento de longo prazo.

Esperanças também de que, assim como as empresas, os investidores possam planejar suas aplicações de longo prazo e de que o desenvolvimento econômico floresça. Precisamos nos divorciar daquela máxima de que “No Brasil, até o passado é incerto”. Agora é hora de pensar como Martin Luther King, que dizia que “sempre é hora de fazer o que é certo”.

Foto “Brazilian money”, Shutterstock.

Alvaro Bandeira
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