Aprenda a dizer não e seja mais feliz
Publicado por Conrado Navarro em 08.01.2008 na seção Educação Financeira
Adelaide comenta: “Navarro, após reorganizar minha vida financeira (diagnosticando, cortando supérfluos e saldando dívidas antigas) alguns familiares (da turma do deixa-disso) têm tentado “aproveitar-se” de minhas economias: sugerem festas (em minha casa claro), passeios e me convidam para contribuir financeiramente com a maior parte dos gastos dos eventos, já que ’saí do vermelho’. Enfim, como lidar com parentes e amigos e exercitar, com carinho e conscientização, a capacidade de dizer ‘não’? Estou com muita dificuldade já que ouço piadas do tipo ‘você é pão-dura’. Eu é que sei quanto dinheiro perdi com cartões de crédito (rotativo), cheques especiais e prestações infinitas. Como passar essa sensação adiante?”
Adelaide, obrigado pela visita. Suas palavras são um importante alerta para muitos leitores e, infelizmente, sua situação é muito mais comum do que pode imaginar. Carinho e consciência, uau! Você usou duas palavras muito especiais e pelas quais demonstro sempre muito apego. O carinho é a chave para qualquer projeto de vida bem sucedido e a consciência representa o respeito por si mesmo diante dos relevantes momentos de tomada de decisões. Para firmar-se diante da família e dos amigos, e não tornar-se vítima destes, é preciso antes respeitar-se. Esse processo envolve, entre tantas outras coisas, o aprendizado do “não”.
Simplifique!
Não queira que todos gostem de você. É sério, prefira que todos respeitem seu modo de ser, suas qualidades e defeitos. Assim como sua vida pessoal merece certa blindagem, suas finanças merecem sigilo e privacidade. Familiares e amigos muito próximos normalmente tendem a enxergar apenas as superficialidades, o que torna o relacionamento financeiro bastante desgastante. Quase sempre, falar “não” passa a ser somente uma importante atitude de sobrevivência quando deveria ser a porta para um diálogo verdadeiramente sincero em seus propósitos.
Não é não! Pare por ai!
O grande problema é que, quase que por instinto, acabamos falando mais do que um simples “não” e o momento de reflexão passa a ser apenas mais um grave e longo desabafo. Como lidamos com pessoas próximas, nos sentimos compelidos a falar mais do que apenas a grande razão para a inflexão demonstrada. Acabamos, involuntariamente, “cuspindo” verdades entaladas por tempos em nossos corações. O “não” vira uma lição e o relacionamento passa a ser criticado pelo negativismo e não pelas verdadeiras razões para a negação financeira.
Quando conversar sobre dinheiro é algo sacrificante, é hora de recomeçar. Perceber essa linha tênue é difícil, mas é parte crucial do bem falado “não”. Costumo dizer que:
Você não precisa fazer tudo. Quem faz tudo para todos não tem tempo de fazer quase nada para si mesmo. É muito bonito ouvir “Se não puder fazer tudo, faça tudo que puder” na televisão, mas como fica a necessidade de relacionar-se com a frustração? Nossa educação é feita de muitos “sim” e raríssimos “não”, como se a disponibilidade fosse essencial para a vida plena e feliz. Lembre-se de que nem tudo na vida existe em abundância ou está em um local de fácil acesso. Aprender a lidar com a privação é uma forma crucial de crescimento pessoal e o melhor é não tentar evitar que isso aconteça.
Nem sempre o “NÃO” é o melhor “não” possível. O debate financeiro é uma grande oportunidade de transformar a negação em oportunidade de aprendizado. Ao negar dinheiro a um parente você está investindo em seu futuro financeiro. Acreditar nisso é o primeiro passo para que apareça a oportunidade de demonstrar-lhe o raciocínio por trás dessa afirmação. Quando alguém quiser aproveitar-se de você, perca alguns minutos demonstrando o esforço que fez para chegar onde está e compartilhe de suas dificuldades. Peça atenção de seu ouvinte e lembre-se de não misturar as “verdades escondidas”, o desabafo, com a chance singular de crescer e fazer seu interlocutor crescer.
Assumir sua posição e não deixar-se levar pela dúvida é fundamental. Estabeleça suas prioridades e respeite-as, deixando-as bem claras para todos os que por ventura possam abordar-lhe pedindo dinheiro. Se começar a levar adiante a estratégia “dois pesos e duas medidas” vai acabar voltando para os dias de amargura financeira. No entanto, cuidado para não tornar-se uma pessoa inflexível. Pode ser que, num primeiro momento, seus parentes e amigos sumam porque você resolveu agir de forma mais drástica. Isso passa.
Cobrar de parentes é embaraçoso e incômodo. Mesmo que o ente em questão seja reconhecido como bom pagador, a estatística demonstra que em raríssimas vezes o dinheiro é devolvido. Além disso, imagine-se tendo que lembrar seu primo do dinheiro emprestado ou ainda tendo que dar um puxão de orelha em seus amigos por aquele churrasco feito com seu dinheiro. É chato! Sabendo disso, fica mais fácil falar “não” sem apenas esbravejar ou dar lição de moral, não acha?
O melhor investimento na família e nos amigos é o tempo que você passa com eles. Quando alguém lhe pedir dinheiro, ofereça 20 minutos de seu dia para uma conversa sobre educação financeira, alternativas de crédito e investimentos. Sua disposição certamente demonstrará o carinho e apreço que tem por aquele ouvinte e o fará mudar sua atitude nas próximas abordagens. Crie um ambiente sadio para discutir o dinheiro e esteja sempre disponível para recomendar ou indicar bons materiais de referência. Melhor que ser uma referência financeira é ser uma referência de sabedoria cotidiana. Credibilidade e respeito são melhores companheiros para a vida que os rótulos simplistas “amigão” e “bonzinho”.
OK! Não é tão fácil assim!
Autoridade familiar é assunto para muitas linhas e palavras, é verdade. Não há como escrever de outra forma, portanto lá vai: seja coerente e consistente com os seus objetivos de vida, mesmo que isso incomode parte de sua família ou círculo de amigos. Agradar a todos é muito legal e pode torná-lo uma pessoa popular, mas será que isso é suficiente para seus desafios do dia-a-dia? Seja sincero nos debates com a família e procure demonstrar o quanto você batalha por sua indepedência financeira. Passe mais tempo com eles.
Cuidado para não confundir-se com minhas palavras. Não trata-se de dar mais valor ao dinheiro, mas de dar real valor à família. Que família é essa que só lhe procura quando precisa de dinheiro? Não soa estranho vermos pais e mães que nunca dedicaram parte de seu tempo para ensinar os filhos a valorizarem suas finanças pedindo a eles dinheiro emprestado? É triste notar que muitas famílias pegam-se brigando mais pelo dinheiro que pela fraternidade entre seus elos. O assunto é polêmico, mas precisa ser discutido.
No meu ponto de vista, é o raro exercício da frustração que alimenta essa triste realidade. De forma geral, somos poucos inflexíveis porque ouvir um “não” incomoda mais do que deveria. Felizmente, aprendi que o “não” é mais importante que o “sim” na valorização daquilo que conquistamos. Deixo uma frase constante de meu aprendizado, proferida por Winston Churchill: “Sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder o entusiasmo”. E você, tem apenas falado “não” ou tenta também construir algo melhor?
Crédito da foto para Marcio Eugenio.
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7 comentários
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Excelente discussão pode ser propiciada apartir desse e-mail, e consequentemente do artigo.
A medida que a experiência vai chegando, vamos realmente percebendo que é muito mais díficil dizer não.
Acredito que todos nós, independente da situação economica pessoal de cada um, reluta em dizer não para nossos amigos queridos e parentes. Mas acredite o não é necessário, e muito!
Nem sempre o melhor para aquela pessoa é o sim. O sim pode acomodar, deixa em determinadas situações o indivíduo refém de suas próprias vontades, sendo que ele mesmo não luta para supri-las, cria uma dependência do pai, da mãe ou do amigo.
Espero que o debate continue, com outros comentários e pontos de vista.
abraços
Fantástico esse texto!
Gostaria de contar uma experiência que tivemos em casa. Um parente do meu pai uma vez pediu um dinheiro emprestado para saldar algumas dívidas. Meu pai pediu que ele trouxesse tudo, todas as contas, salário, extratos do banco… O combinado era que, se faltasse dinheiro para gastos necessários, meu pai pagaria e não cobraria esse dinheiro de volta, mas se o salário fosse suficiente ele não pagaria nada. Conclusão, o salário dele dava e sobrava. O que faltava era por causa das contas de celular, tv a cabo, e coisas que não eram de primeira necessidade. Agora ele aprendeu economizar e pagar primeiro as contas realmente necessárias. E a amizade continua a mesma.
monsieur Navarro, seu texto ficou show!!!! nada d tio patinhas, ficou super humano! ;0)
há um livro, Adelaide, muito bom q trata sobre as várias formas d abuso emocional.
d início, o autor aponta as muitas formas d abuso - q sempre se dão entre o q ele chama d seqüestrado e seqüestrador - passíveis e possíveis d acontecer nas várias esferas da vida: entre pais e filhos, maridos e esposas, irmãos, sócios, chefes e empregados e etc. e, ao longo do texto, as reflexões vão ganhando corpo - reflexões como essas q o Navarro fez.
não é um livro q seja uma desculpa pra se dizer !não! - singular ou plural. é um livro q, além d dialogar com lucidez, lança luz sobre as relações d poder entre as pessoas, e seus abusos.
os bastidores do amor - os sentimentos e as buscas q invadem nossos relacionamentos e como lidar com eles.
autor: Luiz Cuschnir, editora Alegro/Elsevier.
(tenho um resuminho aqui muito bom, da época d qdo li. disponibilizo a quem interessar - mas ainda recomendo a leitura da obra)
Enquanto muito nos ocupamos de estudar o mercado, a administração financeira e etc, é imprescindível que nunca percamos o foco: dinheiro é um meio, e não um fim em si próprio. Os familiares são aquelas pessoas que sempre farão parte das nossas vidas, e relacionar ambos assuntos é algo delicado. Esbanjando sensibilidade e sabedoria, Navarro discorre sobre um assunto delicado, pouco abordado em sites voltados a economia. O investidor jamais pode esquecer que muito pouco vale agir sabiamente em seus investimentos se tal sabedoria não é aplicada também em sua vida pessoal.
Saudações
Excelente texto navarro. Suas dicas são imprescindíveis para lidar com esse assunto. Eu tenho um jeito próprio e não ligo tanto para o que os outros vão pensar se eu disser. Meu código é: ajude quem realmente precisar, mas não carregue a cruz de ninguém.
Se a pessoa passa por dificuldades financeiras e escolhe não aprender nada com isso e continuar na mesma, é problema dela e não meu.
Se um desastre acontece e é preciso dinheiro para salvar uma vida ou coisa do gênero, utilizo o fundo de segurança.
Mas não sejamos ingênuos. Só porque a pessoa pede, não siginifica que ela precise. Muitos são assim, com dinheiro então … muito cuidado, pois se não conseguirmos falar o não em alguns casos (principalmente diversão) somós nos que pagaremos mais tarde.
[...] façam empréstimos em seus nomes, o que causa enormes transtornos e desentendimentos. A saída? Falar “não”, como já escrevi em outra [...]
Olá Navarro !!!
Parabéns pelo artigo.
Se ao menos 10% dos meus parentes lessem ele e os outros publicados aqui, eu lhe garanto que eles teriam uma vida financeira bem melhor.
Desde pequeno eu tinha e mantenho hábito de poupar. Quando um tio me dava (raramente) algum dinheiro, ele automaticamente já ficava numa latinha que eu tinha. Passados alguns meses, eu tinha suficiente para comprar coisas que eu precisava.
Outro fator que no meu caso foi crucial, foi ter de trabalhar logo cedo. Aos 11 anos eu já trabalhava em um comércio próximo de casa e tinha meu salário. Era pequeno, mas era meu. E isso fez com que eu me preocupasse com meu futuro desde cedo e valorizasse cada “tostão”. Enquanto isso meus amigos ficavam brincando ou fazendo coisas que não deviam. O fato de trabalhar cedo não fez com que minha infância passasse em branco. Muito pelo contrário, aproveitei-a muito, mas muito mesmo. O fato de ser mais centrado as vezes aparentava como se eu fosse mão-de-vaca.
Consegui com isso obter ganhos e uma segurança financeira muito bons. Não sou rico, longe disso, sou pobre. Mas em uma eventual emergência eu sofro menos por ter me precavido.
Essa estabilidade desde pequeno fez com que muitas pessoas como tios, primos e amigos olhassem pra mim como um “banco 24 horas ambulante”.
Não foram poucas as vezes que alguém que estranhamente aparecia em casa sem que tivesse qualquer atitude idêntica anterior para pedir algum dinheiro.
Por duas vezes fiz esse favor. Como resultado, e citado por você, foi uma dor de cabeça para receber. Foram meses para conseguir receber algo que foi “acordado” que seria pago em 2 meses e durou quase 24. Nesse meio tempo como o Thiago citou acima, eu percebia que a pessoa tinha hábitos desnecessários como TV a cabo, internet banda larga ( quando era muito caro ), festas duas vezes por mês, compras de roupas de marca e até uma troca de carro por um mais novo.
Ora bolas, eu não faço festas, não tenho carro, tão pouco TV paga ou roupas de marca e a pessoa consegue viver com esse “luxo” e ainda vem pedir meu dinheiro emprestado ?
Se eu muitas vezes era privado de ter esses bens por almejar outra coisa por que os outros não podem ?
A vida ensina e ela é o melhor aprendizado.
Saber dizer NÃO é uma coisa que aprendi a fazer sem ficar com dor na consciência. Claro que tudo é moderado e deve ser avaliado.
Acabei por afastar alguns e como o você disse “Será que esses “amigos” gostam mesmo de você, ou só lhe procuram quando precisam de algo?”.
Aprendi que muitos eram apenas por interesse e aqueles que hoje são meus amigos estão comigo por me aceitarem como sou não pelo que tenho.
Adelaide,
Quer uma dica ?
Quando alguém lhe pedir dinheiro ou fazer qualquer reclação financeira indique uma lida no dinheirama. Pois essa pensará duas ou zilhões de vezes antes de fazer novamente. E o melhor, lendo os artigos talvez ela possa se educar financeiramente.
Eu já fiz isso uma vez e funcionou.
Uma conversa franca vale muito.
Abraços,
Flávio