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Crash de 1929, o New Deal e a crise de crédito de 2008

Publicado por Ricardo Pereira em 17.10.2008 na seção Economia Geral

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Crash de 1929, o New Deal e a crise de crédito de 2008Mais uma semana de altos e baixos no mercado financeiro. O sobe e desce deixa a impressão de que a bolsa de valores[bb] se transformou em uma terra sem lei, em um verdadeiro cassino. Isso me preocupa. Sempre fomos da opinião de que o mercado de ações é composto de muitos elementos, mas sorte ou azar nunca foram alguns deles. Será que é isso que estamos vendo nos dias de hoje? O tom exagerado tem objetivo atrair sua atenção. A preocupação com o tema deve ser de todos nós, investidores.

A falta de dados relevantes, significativos para determinar quedas tão expressivas nas bolsas pelo mundo, me leva a crer que, mais do que especulação, o que existe hoje é irracionalidade e falta de critérios. Bons exemplos podem ser tirados aqui do Brasil: grandes empresas exportadoras continuam vendo seus valores de mercado despencarem, ainda que a alta recente do dólar tenha feito parte de suas receitas aumentarem. O fato é que não existem motivos consistentes para uma queda tão grande.

1929 versus 2008?
Muitos discutem as coincidências da crise atual com aquela vivida em 1929. Mesmo notando, de forma nítida e organizada, que hoje existem mais possibilidades de reação por parte dos organismos financeiros mundiais, sou obrigado a concordar com certas singularidades. O artigo de hoje traz alguns comentários sobre o modelo econômico das nações ao longo do último século, o que é interessante para entender melhor a evolução(?) do sistema financeiro mundial.

Na década de 20 estava no ápice o liberalismo clássico, que pregava a teoria econômica da auto-regulação. Em outras palavras, acreditava-se que o mercado livre seria capaz de conduzir-se de maneira mais inteligente e próspera. Nesta teoria, fica nítida a falta da regulação do Estado nas questões econômicas práticas.

Após a crise de 1929, com o crash do mercado de ações[bb] causado pela alta especulação financeira e pela exploração de brechas e falta de critérios impostos pelo governo, os EUA entraram na conhecida grande depressão. A economia congelou, a população sofreu e o crescimento do país ficou estagnado.

Em 1932, mergulhados em uma profunda crise e diante da idéia de que o liberalismo e a especulação financeira haviam imposto um ritmo de crescimento surreal à verdadeira situação da economia, os EUA elegem o democrata Franklin Delano Roosevelt como presidente, com o desafio de reerguer a economia com um modelo diferente de crescimento.

A partir dos princípios econômicos de John Maynard Keynes, a equipe econômica do novo presidente elaborou um plano econômico chamado New Deal, ou Novo Acordo/Pacto. O pacote econômico implantado trouxe, entre outros pontos:

  • Controle governamental dos preços de diversos produtos industriais e agrícolas;
  • Concessão de empréstimos aos proprietários agrícolas;
  • Realização de um grande programa de obras públicas;
  • Criação do seguro-desemprego;
  • Recuperação industrial;
  • Controle de emissão de valores monetários.

Novos tempos, novas teorias
Com o tempo, ficou claro que a presença do governo é indispensável na regulação dos processos econômicos e, aos poucos, isso levou a economia de volta aos trilhos. No entanto, após a década de 70, países desenvolvidos passaram a ter problemas como inflação, recessão e desemprego, caracterizando a decadência da chamada teoria keynesiana.

Já durante a década de 80, e muito mais na década de 90, outro movimento econômico começou a tomar forma e ganhar adeptos no mundo, sobretudo nas maiores economias do mundo: o tão famoso neoliberalismo, caracterizado pela forte abertura dos mercados e pelo fenômeno da globalização[bb] da economia e dos pactos comerciais.

Grandes corporações e bancos de investimentos ditaram a regra para os negócios no mundo todo. A presença do governo foi diminuindo, partindo do pressuposto de que a atuação do Estado retardava o processo de realocação dos capitais dos setores industriais ultrapassados para aqueles surgidos com a terceira revolução industrial.

A idéia era defender, de forma veemente, a liberdade de mercado e o quase que total afastamento do Estado na produção e na intermediação das relações entre patrão e empregado. Caminhou-se, como se sabe, até o total descontrole do sistema financeiro, onde apenas a ganância exagerada e a especulação de grandes grupos sobreviveram.

De volta ao presente…
A lição evidente que fica é que, sim, os governos precisam acompanhar de perto as ações econômicas e financeiras da nação e dos mercados. Esse acompanhamento deve fazer parte da política econômica. Bilhões de dólares foram necessários para gerar liquidez ao mercado, saídos do bolso do contribuinte em várias partes do globo.Trata-se de um mal necessário, caso o contrário as perdas geradas pelo aumento da desconfiança seriam ainda maiores.

A lição que tiramos do breve retrospecto, de 1929 até os dias atuais, é clara: os interesses do governo e do povo precisam ser preservados. A ganância do mercado é insaciável, mas o dinheiro do povo é finito. Aqui do Brasil acompanhamos de perto os desdobramentos da crise e nos preparamos para suas conseqüências. Estamos mais fortes e sólidos, mas sem saber ao certo que papel a turbulência global ainda nos reserva. Essa é outra história, recheada de desafios e oportunidades[bb]. Ufa. Bom final de semana.

——
Ricardo Pereira é consultor financeiro, trabalhou no Banco de Investimentos Credit Suisse First Boston e edita a seção de Economia do Dinheirama.
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Crédito da foto para stock.xchng.

7 comentários
  1. Imagem do comentarista
    Hedger

    A crise se deu em um dos setores mais regulados do mercado.
    Não se esqueça que o governo é formado por pessoas também, e que acreditar que essas pessoas farão um bom trabalho “regulando” o mercado é fé pura e simples no Estado, sem razão nenhuma. Se uma coisa ficou claro durante os últimos cem anos é que o governo só faz besteira quando tenta regular o mercado.

    A única intervenção do governo deve ser a defesa da propriedade privada.

    Pedir mais regulamentação de mercados agora é como dar mais pinga para curar o bêbado. No início causa uma certa euforia, mas depois virá uma cirrose maior ainda.

    Deixe o mercado funcionar por si só.

  2. Imagem do comentarista
    Daniel Pondé

    Um detalhe importante que vale a pena ser mencionado é que ambas Fannie Mae e Fredie Mac foram originadas, fazendo parte do New Deal para conter a crise daquela época. Hoje, como muito bem sabemos, foram pontos de partida para gerar a crise atual. Que contraste! Grande abraço.

  3. Imagem do comentarista
    Matt

    Muito bom o artigo, concordo q é preciso q o Estado acompanhe de alguma forma o andamento dos mercados.
    (..)”os interesses do governo e do povo precisam ser preservados. A ganância do mercado é insaciável, mas o dinheiro do povo é finito” (..)
    Disse tudo!

  4. Imagem do comentarista

    Acho que os exageros fazem parte do mercado.
    O mercado é um fenomeno puramente psicologico, que gera os fatos economicos.
    Do mesmo jeito que fomos aos euforicos 70000 ptos viemos de 8000 ou ninguem se lembra? Poderemos ir pesarosamente aos 20000.
    Podem os governos intervirem, injetarem liquidez nada pode tirar o mercado de seu rumo inexoravel.
    Os mercados são apenas o termometro do estado de espirito das pessoas.
    Se eles sobem é sinal que as pessoas estão otimistas e felizes da vida e não como pensam muitos que as pessoas ficam felizes quando mercado sobe.
    Por consequencia os mercados estão assim agora porque o humor da massa mudou derepente começaram a ficar mais cautelosas e o dinheiro para de circular.
    Que banqueiro iria repassar dolares do BC para finaciar empresas exportadoras num mercado de cambio tão volatil?
    Então a cautela, o medo vão se sobrepondo a ganancia e a recessão vai se agravando.
    O mais interessante é que esta alternancia de humor tem um padrão de oscilação que se manifestam em forma, amplitude e tempo.São as chamadas e tão compreendidas ondas de Elliott.
    Os fundamentos??Apenas argumentos para justificar nossos impulsos psicologicos!!

  5. Imagem do comentarista
    Metal

    O livre mercado acelerou sobremaneira todo o crescimento econômico mundial e, provavelmente, não estaríamos nos patamares evolutivos de hoje caso o estado estivesse regulando arbitrariamente o mercado.
    Considero apenas uma desaceleração/correção dum crescimento acima dos patamares de sustentabilidade.

  6. Imagem do comentarista
    juliano figueiredo

    Bom estou de acordo com o que foi dito até o presente momento, mas a algumas discordâncias na minha opinião, pois trabalho numa empresa que é líder no Brasil no setor sucroalcooleiro e que seus clientes são grupos muito fortes, com a queda na bolsas as empresas do setor estão todas indevidas. Por que seu cliente não tem dinheiro para paga-las e sendo assim forma o famoso efeito domino, não temos condições de pagar os nossos fornecedores, estamos tentando cortar custos, o pouco de contratos que ficaram estão de um em um sendo cancelando os pedidos, antes o mundo estava de olho no álcool, estávamos exportando muito e de repente congela para a exportação.

    E agora o que fazer??
    Acreditar no que o presidente esta falando ou que economistas estão prevendo, pois o que estou prevendo é muito desemprego, estão todos perdidos, sem saber o que fazer.

    Lembro-me de muitas e muitas entrevistas de vários economistas que alertava ares-
    peto da crise, mas nosso ilustríssimo presidente os ignorava, pois ainda esta semana vi muitos deles dizendo desesperadamente que tinha avisado que já era previsto,e nosso governo não se preocupou em se preveni.

    E agora que será dos nossos pais?????

    Ou haverá a terceira guerra mundial?

  7. Imagem do comentarista
    Edmilson Lucena

    Alem disso, como o colega falou em comentarios anteriores, não há nenhuma técnica economica, ou mesmo sistema de governo que tenha levado o mercado a esta crise, mas tão somente o espirito pessimista de megainvestidores globais, que para ganhar bilhoes da noite para o dia, acreditem se quiser, estão financiando sim, esta crise. Ou vcs acham que todos perdem, claro que não!!! Haverá um seleto grupo de empresarios ricos que sairam muito mais ricos desse processo, o resto é ficar discutindo balela sobre quem é o politico mais “honesto”, como se eles estivessem interessados em honestidade.

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