Reflexões sobre a falta de tempo, o trabalho e você

21 jun Pedagogia Econômica

Reflexões sobre a falta de tempo, o trabalho e você

Você costuma reclamar muito da falta de tempo? Como costuma lidar com as pressões do dia-a-dia e do trabalho? Gerencia bem seu tempo livre? Confira algumas reflexões sobre isso.

por Bernadette Vilhena
há 4 anos

Reflexões sobre a falta de tempo, o trabalho e vocêO tempo tem sido objeto de discussão há muitos séculos. O filósofo Kant o concebia como a constituição de sensações resultantes do nosso estado de consciência; Einstein falava que passado, presente e futuro são ilusões. O tempo, na minha concepção, é um recurso norteador de ações e uma das referências em nossa existência.

Dentro das inúmeras possibilidades de atuação cotidiana, em muitos momentos o tempo passa a ser um opressor de todos nós. Como no filme “Alice, no país das maravilhas”, agimos tal qual aquele coelho: sempre correndo, atrasados e com a certeza de que “é tarde, é tarde, é tarde!“. Quando essa agitação e correria chegam às atividades de trabalho, a questão fica mais complexa, pois compromete toda a estrutura do sistema.

A questão da administração do tempo é um dos desafios para as empresas. É muito comum a pressa na execução das atividades por conta dos pedidos “para ontem”. Clientes esperam serviços rápidos e com qualidade, gestores querem alto desempenho e os funcionários acabam estressados em meio a tantas cobranças!

Como acredito que um dos fatores para melhorar a administração do tempo dentro das empresas passa inevitavelmente por como cada funcionário lida com o seu próprio tempo, trago nesse artigo informações um pouco filosóficas para essa questão.

A “doença do tempo”, no olhar do escritor John Wagner Lii - autor do excelente livro “Comportamento Organizacional: Criando Vantagem Competitiva” (Ed. Saraiva) -, é um dos desafios contemporâneos, em especial na dimensão pessoal. Os sintomas dessa “doença”, decorrentes da dinâmica da vida moderna, são:

  • A falta de tempo para si e para desempenhar seus papéis;
  • O medo de perder tempo e a culpa de não dar conta de tudo que lhe é designado;
  • O excesso de tempo e a dificuldade em aproveitar os momentos livres.

Alguém se identifica com um desses sintomas? Eu me encontrei em todos! Wagner Lii nos dá uma pista para vivermos melhor essa realidade fast:

“A reflexão é a base do autoconhecimento e da construção de uma visão de realidade mais livre. O planejamento é a chave para organização pessoal e para o cumprimento de compromissos consigo e com os outros. A atenção ao presente é a única maneira de viver com qualidade, pois é só presente que se vive”.

Continuando a discussão do fator tempo, o mesmo autor o categoriza com o objetivo de provocar nas pessoas uma mudança de padrão:

  • O tempo apressado e a vida saturada: a velocidade de informações e o acesso fácil a elas acabam levando o indivíduo a buscar múltiplas tarefas. Isso provoca a saturação do tempo com muitas atividades e a dificuldade em estabelecer prioridades. Dica: não se torne vítima do tempo e repense seus objetivos de vida;
  • O tempo fragmentado e a vida superficial: a pressa torna-se vício e a vida passa a ser vista muito superficialmente. Puras e rasas imagens. Um modo de funcionar onde a vida sem urgência perde a graça. Agir rápido acaba sendo melhor do que agir adequadamente. O foco é o culto ao instantâneo. Dica: recupere a capacidade de perceber, de olhar com tranqüilidade e a não funcionar somente no automático;
  • O tempo sincronizado e a vida amarrada: trabalhar em equipe é essencial para as empresas, mas essa habilidade interpessoal[bb] acaba colocando em risco a liberdade. Dica: observe a linha tênue entre a sua colaboração e a sua subjetividade;
  • O tempo repartido e a vida quebrada: a vida está dividida em horários, muitos horários. Isso leva os indivíduos a tornarem-se escravos de tantos compromissos, um agir no futuro que compromete o presente. Dica: atenção às prioridades;
  • O tempo, o consumo e a vida vazia: alguns valores da sociedade de consumo levam os indivíduos em seu tempo livre a serem “obrigados” a comprar. Dica: o lazer precisa ser algo a se aproveitar e não algo para ser consumido. Atenção às finanças pessoais.

O importante é saber que com respeito à subjetividade e um planejamento pessoal do tempo, podemos nos tornar cidadãos mais críticos e centrados. A busca pelo equilíbrio através do autoconhecimento é base para uma administração do tempo mais eficaz. Ter consciência que em certos momentos precisamos “ir mais rápido” e em outros podemos “ir com mais calma” pode ser um caminho para uma vida mais leve e feliz.

Convido você, caro leitor, para participar dessa troca de idéias. Conte-nos como encara o tempo e como lida com as pressões do dia-a-dia. Sucesso e até a próxima.

Crédito da foto para freedigitalphotos.net.

Bernadette Vilhena

Pedagoga empresarial, consultora em diversas instâncias da prática educativa nas empresas e autora do livro "Dinheirama" (Blogbooks). Especialista em Gestão de Pessoas e estudos nas áreas de Ergologia, Gestão do Conhecimento e Educação no trabalho.

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  • Rosana

    Bernadette,
    Parabéns pelo artigo!
    Nos dias atuais, principalmente nas cidades grandes, o tempo tem se tornado um artigo de luxo. Temos mais coisas a fazer e a gerenciar e mais responsabilidades. A modernidade nos trouxe muitas comodidades e conforto mas isso tudo nos custa muito caro em relação ao tempo, à qualidade de vida e à saúde.
    Acho que todos nós, ou pelo menos, a grande maioria, se tornou escrava do relógio…
    Como eu sempre costumo dizer em artigos onde é conveniente, muitas vezes menos é mais. Muitas vezes com menos vivemos muito, muito melhor.
    Abraços e sucesso,

  • José Eduardo Oliveira De Vincenzo

    Tempo é a entidade mais poderosa que há no Universo. Foi ele, está sendo, que viabilizou o Universo ser como é, que viabilizou a vida na Terra, portanto a nossa vida.

    Também será ele que acabará com tudo que viabilizou.

    Tempo está indissociavelmente ligado ao movimento, por mínimo que seja. Não há nada absolutamente parado no Universo. Se houvesse, o tempo não existiria para esse algo.

    O movimento na vida moderna se acelerou e ainda está em aceleração, principalmente pela competição, quer comercial-industrial, quer científica e outras.

    E como peças desse jogo, nós entramos nessa dança do tempo-movimento.

    Sem tempo para pensar, realmente nos tornamos clique-clique, aumentamos a produção geral, mas diminuímos a qualidade geral.

    O mais preocupante efeito disso no presente é a saúde, que se deteriora com esse ritmo.

    Uma preocupação mais distante é a herança genética que será deixada para gerações futuras, certamente diminuindo a capacidade intelectual dessas gerações.

    Acho possível se policiar um pouco, melhorar a relação com o tempo, mas não o suficiente, ou será atropelado pelos acontecimentos, exceto se preferir se excluir deles. Só uma trégua geral na competição poderia permitir que todos se realinhassem com o tempo.

  • Rosana

    José Eduardo

    Gostei muito do seu comentário, uma boa reflexão para todos nós e nossos costumes tão prejudiciais à nós mesmos, embora muitas vezes não nos damos conta disso pois sempre estamos muito ocupados com nossos afazeres seculares…
    Abraços,

  • José Eduardo Oliveira De Vincenzo

    Obrigado, Rosana.

    Um amigo me indicou o tema ontem, aproveitei que estive aqui e comentei, achei o artigo bem pedagógico, embora não para mim …risos… que não sou muito ligado em dinheiro, então não tenho os problemas citados com o tempo, mas o tema tempo, em si, me atrai, acho fascinante saber que o tempo viabilizou criar tudo no Universo.

    O efeito do tempo na escala universal foge à nossa capacidade de compreendê-lo bem.

    Entendemos bem de tempo até milênios, mas quando chegamos em milhões e bilhões de anos, nos perdemos.

  • Rosana

    José Eduardo,
    Achei muito legal o seu interesse pelo tempo. É bem diferente, a maioria das pessoas está mais preocupada com dinheiro, com bens de consumo. Como o tempo é gratuito não tem tanto valor. Ou melhor não tinha pois de um tempo para cá já li alguns artigos sobre o descompasso que você citou.
    Fico feliz que não tenha problemas com o tempo. Eu também não tinha quando morava em uma cidade pequena. Mas em cidade grande, onde tudo é longe e com o trânsito cada vez mais complicado, o tempo se torna cada vez mais escasso…

    “Entendemos bem de tempo até milênios, mas quando chegamos em milhões e bilhões de anos, nos perdemos.”
    É verdade.

    Abraços,

  • José Eduardo Oliveira De Vincenzo

    Rosana,

    A gente troca de problemas na vida …risos… acho que isto é a própria vida.

    Eu, realmente, tenho um grande domínio sobre o meu tempo, buscado conscientemente, mas não é de graça …risos… tudo tem o seu preço.

    Resumindo: que se busque a liberdade com toda a prioridade, se o conseguir, se tornará escravo da própria liberdade.

    Frase cunhada por experiência própria …risos…

  • Rosana

    “que se busque a liberdade com toda a prioridade, se o conseguir, se tornará escravo da própria liberdade.”
    O pior é que é verdade… Eu nunca tinha pensado nisso.

    Abraços,

  • Gaudencio Pereira

    Gostei tanto deste artigo, que nem tinha palavras para comenta-lo.

    E como este tema pra mim é um dos mais interessantes e e inusitados do dinheirama, achei estranho não aparecer um bocado de comentários.
    Talvez por que causou em todos o mesmo que em mim ou ainda não houve polêmica no assunto.

    Fiquei pensando, será que não ligam para o TEMPO ?

    Já lí alguma coisa afirmando que o que temos de mais precioso na vida é o TEMPO.
    E concordo.
    Somente com TEMPO é que podemos realizar nossos planos.

    Sempre gosto de comentar algo quando a discurssão já está em andamento, e mesmo tardiamente aínda é TEMPO, rs..rs

    Como a Bernadette foi bem ampla no significado de TEMPO, da parte filosófica a pedagógica, e por isso cada um entendendo de um ângulo diferente.
    Lí o texto, relí, e só compreendí do lado que estou.

    E este lado é da psicologia temporal.
    O tempo pode ser imenso, como ter trilhões de anos, isso não importa, ele sempre será RELATIVO, o que interessa dele (psique) é a parte sensorial, ou seja, o que ele nos causa, beneficios ou malefícios, ou ainda como o controlamos.

    O que chamou a atenção, foi que a autora abordou não foi o TEMPO em si, e sim a FALTA DE TEMPO.

    Neste contexto, o que deveríamos discutir seria a FALTA DE TEMPO, que é o que nos causa ansiedade, impaciencia, intolerância, pressa, precipitação , decisões equivocadas e até falta de dinheiro, por que não dizer também infelicidade.

    Veja que apesar que eu não disse tudo, podemos notar que as emoções são todas de caracter psicológico.
    Assim está um pouquinho distante da Física.

    Pra terminar,
    você tem tempo ???

    Abraços !!!

  • Rosana

    Gaudencio,
    Eu acho que somente agora algumas pessoas estão começando a perceber a grande importância do tempo.
    Vivemos em uma sociedade de exageros materiais e escassez de valores e coisas básicas à vida e ao bem-estar. Conforto é bom mas até que ponto não estamos acabando com nossas vidas para obtê-lo?
    As comodidades da vida moderna, que eram para ser nossos aliados e facilitadores em nossas vidas, são quase que nossos senhores, pois nos deixamos escravizar por muitas delas. Por exemplo: quantas vezes você já ouviu alguém falar que sente como se faltasse uma parte do próprio corpo quando esquece o celular em casa? Ou como nos tornamos dependentes de automóveis e computadores? Todas as tecnologias e inovações são válidas e benéficas, desde que usadas com sabedoria e critérios.
    Em uma época da minha vida eu achava que tinha que ver meus e-mails todos os dias, vi que eu estava me deixando escravizar por aquilo. Parei.
    Temos que diferenciar o essencial do necessário (ou melhor, do que achamos necessário). E quem sabe assim tenhamos mais tempo para poder admirar o belo por do sol no final da tarde e dizer: “Hoje o meu dia foi bom, eu tive tempo para viver, não fui apenas mais um número, uma máquina na sociedade capitalista em que vivo”.
    Abraços,

  • Rosana

    Me lembrei de 2 reflexões que quero colocar aqui:

    Um dia a gente aprende que “menos é mais”.

    e

    Perguntaram ao Dalai Lama:
    - O que mais te surpreende na Humanidade?
    E ele respondeu:
    - Os homens… Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.
    E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer… e morrem como se nunca tivessem vivido.

    Abraços,

  • liz

    …. discussão divertida! (tenho sérios problemas para a administração do Tempo)) — bjs para o meu amigo Vincenzo.