16 ago Finanças Pessoais

Crescimento não rima com endividamento

Depois da crise de 2009, os brasileiros redescobrem o prazer de comprar e se endividam demais. Quem paga a conta? Que lições podemos aprender com a crise e as dívidas?

por Conrado Navarro
há 4 anos

Crescimento não rima com endividamentoQuem se lembra da crise financeira vivida no mundo e no Brasil há cerca de um ano e meio? Depois de um período de ajustes na economia, com demissões, diminuição no crescimento e alguma instabilidade, o mercado brasileiro volta a dar sinais de crescimento, com a taxa de desemprego em claro sinal de melhora e previsão de crescimento acima de 6% para 2010. Indicadores de confiança acompanham o mercado e mostram que o consumidor acredita que o pior já passou e que a hora é de consumir mais. Empresas anunciam fusões e o mercado de ações volta a efervescer. Crise? Que crise?

“Dívida de consumidor de SP cresce 24%. Quatro em cada dez consumidores de 15 regiões da capital paulista estão na lista do SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito), que inclui dívidas com atraso a partir de dez dias, segundo dados de janeiro a junho deste ano”Claudia Rolli, edição de 15 de agosto do jornal Folha de S. Paulo, caderno Mercado.

O número total de inadimplentes chegou a 4,16 milhões, cerca de 40% do total de habitantes das regiões pesquisadas (10,94 milhões). O número representa queda de 14,5% em relação ao primeiro semestre de 2009, mas ainda assim é bem alto. Apesar de a pesquisa ter como foco 61 bairros e 15 áreas distritais, proporção semelhante deve ser encontrada em outras cidades Brasil afora.

Toma lá, dá cá!
O que tudo isso tem a ver com a crise, mencionada no primeiro parágrafo? Vamos tentar chegar a uma conclusão juntos: você sabe quais são as maiores causas de inadimplência? Os consumidores com problemas de pagamento apontam a perda do emprego, o descontrole de gastos e emprestar o nome/cartão para familiares e amigos como os principais motivos.

Traduzindo, as chances de perder o emprego durante uma crise aumentam consideravelmente, o que explica o maior número de inadimplentes em 2009. A falta de planejamento impede que muitos brasileiros se preparem melhor para emergências e comprometam grande parte de sua renda com dívidas desnecessárias.

Quando há trabalho e emprego, falta bom senso e controle. Quando sobra algum capital, alguém logo pede emprestado e contribui para que tudo fique do mesmo jeito ou pior. É triste constatar que são muitos os brasileiros pagando dívidas empurradas do ano passado. Mais triste é saber que, para não ficarem de fora da “onda do consumo”, muitos deles já fizeram novas e maiores dívidas em 2010.

Está tudo bem? Prepare-se para o pior!
O texto de hoje tem tons de indignação. A situação me preocupa, principalmente porque quando damos a volta por cima insistimos em cometer os mesmos erros. Esta não será a última crise, assim como 2010 não será o único ano de crescimento acima da média. Sabendo disso, o que você faz? Dar de ombros é comum, infelizmente. Proponho atitudes mais inteligentes:

  • Crie uma reserva de emergência. O momento em que você tem dinheiro disponível, fluxo de caixa previsível e possibilidade de se organizar tem que ser aproveitado para investir no futuro e criar oportunidades concretas de consumo e padrão de vida diante de futuras crises. Falei sobre isso no artigo “Você mantém uma reserva financeira para emergências?”;
  • Evite comprometer mais do que 30% de sua renda mensal com dívidas de mais de 30 dias. Prefira negociar insistentemente e pagar quando tiver o dinheiro disponível à vista. Certifique-se que há dinheiro para a qualidade de vida, para os investimentos (pelo menos 10% da receita líquida) e para o básico;
  • Imponha e respeite limites para categorias de gasto do orçamento. Com o que você gasta seu dinheiro? Os inadimplentes têm sempre desculpas e justificativas para chegar ao final do mês com a corda no pescoço. Comece a anotar tudo o que recebe e gasta como uma simples experiência e depois de algum tempo observe suas anotações. “C@#%#$@, para onde foi meu dinheiro?” é uma reação bem comum. Mais sobre orçamento no artigo “Sua saúde financeira e os ‘Outros'”.

Como sempre, interpretar um artigo deste tipo é uma tarefa pessoal. Possíveis reflexões sobre seu dia-a-dia financeiro só serão bem-vindas se você admitir que lidar bem com dinheiro deve ser uma de suas principais prioridades. Ou corremos o risco de continuar comentando números e conclusões cada vez piores sobre inadimplência, endividamento, crise etc. Terá fim essa história?

Crédito da foto para freedigitalphotos.net.

Conrado Navarro

Educador financeiro, tem MBA em Finanças pela UNIFEI. Sócio-fundador do Dinheirama, autor dos livros "Dinheiro é um Santo Remédio" (Ed. Gente), “Vamos falar de dinheiro?” (Novatec) e "Dinheirama" (Blogbooks), autor do blog "Você Mais Rico" do Portal EXAME e colunista da Revista InfoMoney. No Twitter: @Navarro.

Leia todos os artigos de Conrado Navarro
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  • http://www.zxy.com.br Jordano Santos Cerqueira

    Boa frase de título – Postei e compartilhei isto no meu Google Buzz http://www.zxy.com.br

  • Marcos Ortega

    Conrado, eis um que voz fala, que viveu o terrorismo do endividamento. Graças ao blog e muitos livros e interesse em sair desta situação, hoje eu estou bem melhor, sai da UTI(Endividamento), passei pelo quarto de repouso, ainda recebi algumas visitas indesejáveis (cobradores te ligando), mas fui determinado, e hoje estou atravessando a rua do hospital (Dividas) com alguns medicamentos em mãos (reserva financeira emergencia) em sentido a uma praça / parque repleta de arvores lagos animais (Independencia Financeira) já consigo visualizar algumas pessoas felizes, (planejamento e orçamento em dia). Vou fazer de tudo para permanecer neste parque, e ainda sei que um dia vou olhar em direção ao Hospital, e NÂO vou sentir saudades. Obrigado pela acolhida.

    Esta ILUSTRAÇÃO / ANALOGIA é mais ou menos a situação de muitos brasileiros. Porém existem outros, que já se FAMILIARIZARAM COM O HOSPITAL, JÁ NÃO FAZ MAIS DIFERENÇA ENTRE A UTI E O QUARTO DE REPOUSO. Como eles dizem o importante que o SUS (Governo e Emissoras de TV manipuladoras) continuem nos alimentando de ilusões!!!!!!!!

    AINDA BEM QUE TEMOS PESSOAS ILUMINADAS, (BLOG/SITE DINHEIRAMA) QUE REALIZAM TRABALHO DE INTENSIVISTAS, (Medicos de UTI). Poderiam até chamar de Anjos da Guarda!

    Continuem com este trabalho!!!!!! Como Conrado disse, outras situações adversas ainda virão, e “HOSPITAIS/UTI”, estarão lotados novamente.

    Vamos tomar o nosso “REMEDIO DE TODOS OS DIAS”: Planejamento Financeiro.

    Forte Abraço a todos,

    Marcos Ortega

    PS. Desculpe pelo texto longo, mas eu precisava DESABAFAR!!!!!!!!!!!!!!

  • Fernando

    Ótimo artigo!

    A melhor coisa que fiz foi relacionar tudo que gasto em uma planilha Excel. Isso me fez ver meu cenário financeiro e permitiu-me poupar, planejar o futuro e fazer investimentos (Ex: comprar o próprio apartamento, investir em terrenos etc).

    O controle dos nossos gastos é fundamental para nosso crescimento.

    Hoje eu investi num Sistema de Controle Financeiro via web e recomendo: http://www.ieconomia.com.br

    Abraços pessoal!

  • Pingback: Iniciativas de investimento lado a lado com a Educação Financeira | Educação Financeira | Dinheirama - Economia, Investimentos e Educação Financeira ao alcance de todos

  • http://www.neuronio20.com Júnior Gonçalves

    Não consigo imaginar como esse povo endividado consegue dormir a noite. Há 4 anos fiz a besteira de entrar em um financiamento de uma moto e em seguida emprestar uma folha de cheque para um amigo que não fez o depósito na data certa. O Resultado de tudo isso foram noites mal dormidas e dias de muito stress.

    Hoje, felizmente, não faço mais parte desse grupo de 24% de consumidor de SP que estão na lista do SCPC =D