Carros: o Marketing faz sua cabeça?Se você respondeu afirmativamente à pergunta do título, muito cuidado! É bem provável que, além de influenciar a sua mente, o marketing também esteja ajudando a esvaziar o seu bolso. Para evitar que isso ocorra, é necessário refletir bastante para que as nossas decisões de consumo ocorram de forma consciente e inteligente.

Aliás, esse tem sido o foco da nossa série de artigos sobre o custo-benefício dos carros, considerando a importância de avaliar cuidadosamente aspectos relacionados à qualidade, segurança e impactos financeiros dos veículos.

Antes de prosseguir, é importante deixar claro que o objetivo do artigo não é condenar o marketing em si e muito menos o trabalho de seus profissionais. Esclareço também que não sou especialista nesta área e apenas tenho a intenção de despertar algumas reflexões para que as pessoas não comprem movidas exclusivamente pelos desejos gerados por meio da publicidade.

1. A propaganda é a alma do negócio?

Sim, há fortes indícios de que o marketing tem sido muito importante para o sucesso dos carros no Brasil. Para ilustrar essa constatação, vale lembrar que uma marca coreana, que tem feito um sucesso estrondoso, gastou em propaganda o montante de R$ 996,9 milhões somente em 2012.

Essa quantia praticamente bilionária representa um investimento de R$ 11.550 por carro vendido, conforme dados do Ibope Monitor.

Esses valores são realmente impressionantes. Mas, considerando que não é a primeira vez que esses gastos são realizados, é muito provável que estejam dando retorno.

Por outro lado, conhecemos diversos casos de carros de boa qualidade que acabam tendo vendas pífias por conta dos baixos esforços de algumas marcas na divulgação. Com menos participação no mercado, tendem a apresentar custos mais elevados de manutenção e dificuldades de revenda, o que também se reflete na maior desvalorização.

2. A influência do Marketing na escolha de qual carro comprar

Mais do que nunca, nós expressamos quem somos por meio daquilo que compramos e como usamos aquilo que compramos. Extensões de nossas personalidades, totens de quem somos, lembretes de quem somos ou de quem gostaríamos de ser. – Seth Godin

Conforme comentado em artigos anteriores, o desenvolvimento da publicidade no século passado contribuiu para mudar o foco do consumo, que deixou de ser norteado pelas necessidades e passou a ser baseado nos desejos.

Com técnicas persuasivas que focalizam em diversos aspectos psicológicos, a propaganda tem um forte apelo no convencimento das pessoas, principalmente ao vincular o bem ao ego.

Dessa forma, muitos escolhem os carros pensando numa lamentável estratégia de “construção de imagem”. Em busca de status, utilizam os veículos para expressar suas personalidades. Como já dissemos inúmeras vezes, esse comportamento não tem fundamento considerando que “ninguém é o seu carro”.

Por exemplo, perceba como não deveria fazer sentido a afirmação de que determinado carro “é de tiozão”. Por acaso, você já ouviu alguém dizer que algum aparelho de ar-condicionado é de “tiozão”?

Também se deve evitar que o carro seja utilizado como meio de inserção social. Se para participar de um grupo de relacionamento ou frequentar certos ambientes você precisa de determinados carros, pense bem se vale a pena esse tipo de aproximação.

Adicionalmente, um dos efeitos mais complicados do uso do marketing diz respeito ao posicionamento de um carro numa categoria acima do que ele efetivamente é. Essa estratégia baseia-se no fato de que os consumidores decidem pagar considerando o “valor percebido”, e não o “valor real”.

Há casos em que as propagandas conseguem construir um apelo incompatível com o que o carro oferece na prática. Quem compra nessas condições está levando “gato por lebre” e tende a se frustrar no futuro. Algo ainda mais problemático são as propagandas enganosas, que, às vezes, informam dados essenciais equivocados.

Atualmente, diante das milhares de opções no mercado de consumo, a disputa pela atenção e pelo bolso dos consumidores está cada vez mais acirrada. Nesse contexto, parece valer de tudo, inclusive a veiculação de propagandas e ações com gosto duvidoso, como recentemente ocorreu com uma prestigiada marca alemã.

Obviamente, também há muitas campanhas clássicas e temos visto algumas bem elaboradas e criativas, como a que utilizou o célebre Trapalhão Mussum, recentemente.

3. Algumas estratégias de marketing que merecem reflexões

A ideia aqui é pensar sobre alguns exemplos de táticas normalmente empregadas no segmento automotivo. Vejamos algumas delas:

  • O senso de exclusividade, valorizado por muitos, é bastante explorado em determinados nichos;
  • Na tentativa de representação do carro como uma conquista, temos o uso de frases como: “você fez por merecer” e “para quem está indo bem”;
  • Outra estratégia é a mudança das siglas dos modelos, criação de séries “especiais”, adoção de apetrechos e adesivos inúteis, como os existentes nos famigerados “aventureiros urbanos”;
  • Ainda considerando a questão de imagem, vemos que às vezes são adotados componentes nos próprios carros que não seriam os mais aconselháveis do ponto de vista da engenharia. Como exemplo, temos os pneus com perfil excessivamente baixo para enfrentar as péssimas superfícies das vias brasileiras;
  • Algo que merece toda a cautela por parte dos consumidores diz respeito ao apelo pela compra do “último modelo”. Essa tática baseia-se na tendência mundial de neofilia, obsessão pelo novo. Dessa forma, as marcas tentam “turbinar” o número de lançamentos, usando estratégias de vários tipos que em muitos casos não têm fundamentos sólidos;
  • A conclusão do item acima leva em conta que vale praticamente de tudo para poder usar as palavras “novo” ou “new”. Na maioria das vezes, são aplicadas equivocadamente porque não ocorreu a mudança efetiva de geração (com um novo projeto completo) e sim apenas um mero “face-lift”, traduzido em pequenas mudanças estéticas principalmente na frente e traseira.

4. Quem decide, afinal, você ou os outros?

Como foi expresso em recente artigo no Blog Valores Reais. “…você não deseja determinado bem de consumo porque realmente você quer e você precisa, você deseja determinado bem de consumo porque o resto do mundo está fazendo sua cabeça e te “obrigando” a comprar tais coisas. Em outras palavras: os seus desejos não são realmente seus!”.

Por conta disso, é preciso seguir uma série de parâmetros no processo de escolha de um carro, assunto tratado no artigo “Você compra seu carro por necessidade, status ou pelo preço? Ou tudo isso?”.

Basicamente, devem ser considerados os fatores relativos às necessidades, aos impactos financeiros, à qualidade e segurança do carro e aos seus desejos.

Perceba que não defendo a compra de carros utilizando apenas critérios racionais. É inegável que o design e a beleza são importantes também. Apenas devem ser conciliados após a análise criteriosa dos outros aspectos que merecem prioridade.

Conclusão

O sistema, da forma como é desenhado, acaba por transferir o dinheiro das mãos fracas para as mãos fortesJonas Fagá Jr.

É importante deixar claro que as marcas e os responsáveis pelo marketing estão simplesmente fazendo o seu papel. Fabricam e divulgam seus produtos, cobrando o preço que acham conveniente. A responsabilidade pelas compras sempre é do consumidor, que detém o poder de escolher entre os bens ofertados.

No trabalho realizado na consultoria automotiva pessoal Carro e Dinheiro, observo que, por falta de tempo ou conhecimento, as pessoas deixam de pesquisar adequadamente todos os fatores importantes sobre os carros.

Como relatou recentemente um cliente, que me procurou após ler os artigos aqui no Dinheirama, “entre os diversos lançamentos de veículos no Brasil, fica muito difícil escolher o melhor modelo, sem acompanhar o dia a dia da indústria automobilística”.

Considerando todo esse cenário, é muito importante priorizar escolhas conscientes no momento da compra, pensando com inteligência automotiva e financeira.

Tome muito cuidado com o que parece, mas não é. Mais cautela ainda para que você não queira parecer o que não é, usando um carro para tanto. Tenha o foco necessário para decidir o que realmente importa para você, e não para os outros. As suas finanças também agradecerão.

Obrigado pela atenção e até a próxima.

PS: Pensando nas pessoas que dão valor ao seu dinheiro e querem escolher bem os seus carros, foi publicado o livro digital Como Escolher o seu Carro Ideal (clique para detalhes), de minha autoria, que apresenta um roteiro completo para a definição de qual carro comprar, de acordo com o perfil de cada consumidor. Convido você a conhecer mais detalhes do livro clicando aqui.

PPS: Para ajudar você a controlar melhor os gastos crescentes com seu carro no dia a dia, eu também elaborei uma planilha completa e de fácil preenchimento, que pode ser baixada (gratuitamente) no seguinte link: http://bit.ly/PlanilhaCarro

Foto de freedigitalphotos.net.

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Comentários

  • Gustavo

    Boa pespectiva. Mas devemos lembrar que o carro é tudo menos um meio de transporte eficiente. Uma máquina de uma tonelada para transportar 80 kg na maioria das vezes não pode ser eficiente.