Nos últimos 5 anos, o volume de investimento semente em startups – aquela fase entre a grana dos familiares/amigos e o cheque gordo dos fundos de venture capital – aumentou aproximadamente 10x nos EUA, com pelo menos U$4bi destinados a 6.000 novos negócios.

Ainda que boa parte desse crescimento se deva às mudanças na legislação que proporcionaram o surgimento do equity crowdfunding, também o número de fundos semente explodiu no período.

Desde 2005 focado exclusivamente nesse tipo de rodada – cujo aporte médio oscila entre U$100mil e U$2mi – o First Round foi um dos primeiros investidores institucionais a se arriscar nessa difícil tarefa de acertar quais startups terão sucesso logo nos seus primeiros meses de vida.

Embora tal prática seja muito mais arte do que ciência, o fundo teve a disciplina para coletar e analisar os dados dos 300 investimentos realizados ao longo do período. O resultado desse exercício está resumido nos 9 tópicos abaixo e revela algumas lições surpreendentes!

1. Fundadoras mulheres performam melhor do que seus pares homens

Bem, aqui talvez não haja grande novidade (risos), afinal todos sabem que diversidade e multidisciplinaridade contribuem para um melhor desempenho.

Além do mais, o caminho para as mulheres se tornarem empreendedoras e ainda conseguirem capital dos melhores profissionais do setor é tão mais difícil do que o dos homens, que estas poucas mulheres devem mesmo ser mais inteligentes e competentes.

O fato é que na amostra do First Round as empresas com pelo menos uma mulher entre os fundadores obtiveram um desempenho 63% superior do que aquelas com apenas homens na equipe.

2. Em startups, a sorte favorece os mais jovens

As equipes com fundadores em idade média inferior a 25 anos (no momento do investimento) tiveram resultado 30% acima da média. Da mesma forma, enquanto a idade média dos fundadores como um todo hoje é de 34,5 anos, a média das top 10 startups é de 31,9 anos. Ao que tudo indica, assim como nos esporte e entretenimento, a gurizada leva vantagem.

3. A faculdade faz diferença

As equipes em que pelo menos um dos fundadores tenha estudado nas escolas de elite americana (Ivy League + Stanford, MIT e Caltech) representaram 38% dos investimentos do fundo e tiveram resultados 220% melhores que as demais.

4. A experiência profissional também

As startups em que pelo menos um dos fundadores tenha vindo de empresas como Amazon, Apple, Facebook, Twitter, Google e Microsoft performaram 160% acima das demais.

Além disso, enquanto a faculdade não teve grande impacto sobre a valorização das empresas antes do investimento, as startups com equipes oriundas dessas empresas conseguiram preços 50% superiores aos seus pares. Claramente as competências e redes de relacionamento absorvidas nessas experiências fazem a diferença.

5. Investidores pagam menos por empreendedores de primeira viagem

Embora a experiência seja importante, não foi possível comprovar superioridade no desempenho dos times que já haviam criado uma empresa antes versus aqueles que o faziam pela primeira vez – principalmente porque o preço das startups com fundadores experientes foi em média 50% mais caro do que as demais.

6. Startups com um único fundador tem pior desempenho

Embora isso não seja propriamente uma novidade, o que os dados do First Round apontam é uma superioridade de 163% das empresas com mais de um fundador – mesmo considerando uma valorização 25% superior destas startups. O número ideal, segundo a amostragem, foi de 2 fundadores.

7. Co-fundadores técnicos não são tão críticos para B2C

Apesar da grande ênfase usualmente dada à presença de um co-fundador técnico na equipe, o que os dados do First Round mostraram é que este perfil faz muita diferença para negócios B2B (com performance 230% superior aos demais), mas não favorece os negócios voltados ao consumidor final.

Na prática, as startups B2C com pelo menos um fundador técnico tiveram desempenho 31% pior do que àquelas sem um membro técnico entre os fundadores.

8. É possível vencer fora dos grandes tech hubs

Ao contrário do que esperavam, as empresas investidas fora de São Francisco e Nova Iorque não apresentaram resultados significativamente inferiores às demais – pelo contrário, tiveram performance ligeiramente superior (1,3%).

Novamente, é possível que isso seja reflexo do preço mais alto pago pelas empresas sediadas nesses dois grandes centros tecnológicos.

9. A próxima grande startup pode vir de qualquer lugar

Esse foi certamente o dado mais impressionante. Ao contrário da crença generalizada entre os profissionais da indústria de que as melhores oportunidades de investimento chegam através de recomendações, o que a análise dos dados demonstrou é que os negócios descobertos por outros canais – Twitter, Demo Days, etc. – tiveram performance 58,4% superiores!

E mesmo nos casos em que os fundadores contataram o fundo diretamente, estas startups tiveram resultados 23% melhores.

Conclusão

No Brasil ainda vai demorar para tirarmos lições como estas, seja pela pouca maturidade da nossa indústria e/ou pela falta de planejamento e escala de experiências anteriores.

Recentemente, entretanto, soube que o programa federal Startup Brasil tem feito um bom trabalho nesse campo, coletando uma série de métricas das quase 200 startups apoiadas até hoje.

Parte desse estudo foi divulgado pela ABRAII (Associação Brasileira de Empresas Aceleradoras de Inovação e Investimento), que certamente tenderá a aprofundar suas análises com tempo.

O que me entusiasma com o exemplo do First Round é imaginar um futuro em que também empreendedores brasileiros tenham múltiplos canais para apresentarem seus negócios e contem com investidores estruturados e especializados nesta fase inicial de uma empresa.

Se você já investiu em startups, compartilhe comigo seus principais aprendizados! Abraços e até a próxima!

Foto “Startups”, Shutterstock.

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