Apesar de amplamente discutido e noticiado no Brasil, o investimento-anjo continua sendo objeto de muitas discussões e controvérsias. Meu papel é tentar desmistificar esse tema e levar para uma camada maior de empreendedores as possibilidades e parcerias com investidores-anjo.

Mas por que todas essas dúvidas, se temos vários veículos tratando do tema? Primeiro, porque existe a palavra “investimento” (ou “investidor”) antes de “anjo”, e isso, pela própria tradução literal da palavra, já leva a um (des)entendimento e a uma interpretação que remete unicamente a dinheiro (no dicionário, investimento significa “Ato ou efeito de investir / Aplicação de capitais com finalidade lucrativa”).

Segundo, porque ainda não conseguimos nivelar o adequado entendimento sobre o verdadeiro papel do investidor-anjo nas startups e na vida dos empreendedores.

Pois bem, o investimento-anjo, especialmente no Brasil, não quer dizer somente dinheiro, muito pelo contrário, o investimento a que se propõe um anjo passa, principalmente, por tempo, know-how, dedicação, mentoria, suporte, aconselhamento, mercado, networking e infraestrutura. Óbvio? Nem tanto!

Explico: esse capital intangível tem preço e muito valor, porém alguns empreendedores não entendem e não valorizam isso. Cabe frisar que cada anjo tem o seu perfil e o seu valor; não há um padrão e nem muito menos alguma unidade de referência como base para valorar isso.

O que isso quer dizer? Se você está precisando de um investidor com foco somente em dinheiro, talvez um investidor-anjo brasileiro não seja exatamente a sua melhor opção. Por outro lado, se você precisa, além do dinheiro, de um “ombro amigo”, de um vendedor, de um aval, de um apoiador incondicional que acredite no seu sonho, um anjo brazuca pode ser, sim, o caminho ideal.

Sempre sou bombardeado com uma excelente pergunta: “Mas João, se não tem dinheiro no negócio, um bom mentor não resolve?”. Depende da sua necessidade particular, mas quem disse que não tem dinheiro no negócio do investidor-anjo?

Todo o capital investido precisa ser valorado, como horas, conhecimento, dedicação, networking, aconselhamentos, inclusive as despesas a título de cash-in, como viagens, eventos, aportes em salários, pró-labores, serviços e infraestrutura. Isso somado representa dinheiro vivo (e muito raro de conseguir hoje em dia). Gerar caixa e resultados concretos a partir disso é que é o segredo da continuidade desta relação.

Quando um investidor-anjo entra no contrato social de uma startup ou faz aportes baseados em outros modelos de parceiras, temos um casamento – e dali por diante existem obrigações, direito e deveres para ambas as partes (empreendedor e investidor-anjo).

Na visão do investidor-anjo, se ele resolveu entrar é porque tem condições de ajudar, apoiar e se dispor a crescer com o negócio, além claro de acreditar. Na visão do empreendedor, o anjo topar entrar na empresa dá certeza de ter uma referência no mercado, um importante capital intelectual adicional agregado ao negócio. Enfim, um “casamento sem sexo” que deve ter regras claras para evitar descontentamentos.

O que o investidor-anjo não gosta

De empreendedor acomodado, aquele que pensa que já sabe tudo, do cara não flexível, daquele que não tem opinião própria, que diz “Sim” ou “Não” para tudo, e do sujeito que não trabalha 24/7 na sua própria startup.

O que o empreendedor não gosta

Do investidor-anjo sumido, do chato, do mal-humorado, do cobrador, do tipo “quer mandar”, do que faz intrigas, enfim, do investidor-anjo não colaborativo e não comprometido.

“Ah João, complexo esse caminho e não quero abrir equity do meu negócio, prefiro fazer bootstraping mesmo”. OK, em parte você pode ter razão, inclusive projetos que chegam a mim com esta pegada, eu valorizo muito, porque o empreendedor que acredita no seu próprio negócio, vende seu carro para pagar as contas, me força naturalmente a acreditar no negócio dele também.

Porém, por experiência própria de ter passado por isso e ter desenvolvido vários negócios sozinho, posso afirmar que tudo na vida é uma questão de timing. Ninguém nunca pode achar que o melhor cenário será sempre o melhor cenário; acredite, as coisas podem variar para pior.

Qual a melhor hora de abrir o capital?

A melhor hora de abrir o capital é quando você é a “bola da vez” ou a “a celebridade cobiçada”. Explico: se sua startup não precisa de nada, se posiciona bem no mercado, tem ótimas perspectivas de tração e gera caixa suficiente para manter o negócio fluindo, eu acredito que seja o melhor momento ideal de pensar em ter um investidor-anjo como parceiro em uma rodada menor.

Em outras fases também pode ter um investidor-anjo parceiro envolvido, vai depender basicamente da fase que o investidor procurado quer entrar. Conheço alguns que gostam do momento da ideação, outras preferem ver o protótipo, enquanto outros muitos esperam pelo produto no mercado. Enfim, não existe uma definição clara sobre isso.

Em todos os casos, a entrada do investidor-anjo vai subir o valuation e, principalmente, preparar a empresa, oferecendo um nome agregado de referência no cenário para avalizar novas rodadas maiores que, claro, poderão elevar o patamar de valuation, inclusive de imagem do negócio.

A dica é simples: se o famoso investidor-anjo Joseph Smith Kenny Troussord aceitou entrar na sua Startup, deve ser porque o negócio é bom mesmo.

Como calcular o Valuation?

Outra questão é sobre percentuais de participação, com muitos empreendedores reclamando serem altos demais, inclusive defendendo que não vale a pena abrir o capital para um investidor-anjo.

Pois bem, isso requer estudo de cada caso e também é variável; não há receita de bolo, mas sim uma conta. Existem formas e fórmulas para encontrar valuation, como Fluxo de Caixa Descontado, Ebtida e outros, mas eu tenho um método muito simples para facilitar as coisas.

Se a valoração de tudo que o investidor-anjo vai investir (o tal capital já explicado acima) somar R$ 100 mil em 12 meses, por exemplo, e o empreendedor propor 10% de equity da sua startup, o valuation da startup poderá ser elevado para R$ 1 milhão de reais (R$ 1.000.000,00 x 10% = R$ 100.000,00). Se quer ou pretende dar mais ou menos percentual, aplique este conceito e verifique o que vale a pena. Entendeu?

No meu caso, eu só entro em um investimento se essa simples conta fizer sentido para ambas as partes e se for suficiente para bancar o burnrate em pelo menos 12 meses. Além, é claro, se a percepção de valor da startup no mercado for essa, baseado no segmento que atua e modelo de negócio.

Agora, atenção, valuation alto pode ser bom ou ruim. Se for muito alto, nivela por cima e pode complicar uma negociação em rodadas futuras; se for muito baixo, além de poder desvalorizar a imagem, pode não parecer interessante financeiramente ao mercado. Enfim, trata-se de uma conta que requer muita atenção, critérios e cuidado.

Cada caso é um caso. É assim que eu procuro fazer. Além disso, eu gosto muito de entrar em projetos de parceria e cotas com outros investidores-anjos que se complementam em habilidades e que se dividem em participações iguais no negócio, ou seja, dividindo tudo, incluindo dedicação e riscos, para obviamente somar múltiplos na sequência.

Foto “Angel investor”, Shutterstock.

João Kepler
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