Os juros médios cobrados no cheque especial atingiram, em março, o maior patamar desde julho de 1994, início da série histórica: 300% ao ano. Em fevereiro, a taxa era de 293,9%. Junto com o cartão de crédito rotativo, os juros do cheque especial estão entre os mais altos do mercado.

A taxa do rotativo do cartão de crédito – crédito tomado pelo consumidor quando paga menos que o valor integral da fatura – também subiu em março e atingiu a marca de 449,1% ao ano. Em fevereiro, a taxa era 443,9%. Vale lembrar que especialistas alertam que esses empréstimos só devem ser utilizados em casos de emergência e por um curto prazo.

Já a inadimplência nesta modalidade recuou de 16,9% para 16,2% no último mês. Se o brasileiro está pagando suas dívidas em dia, como explicar o aumento da taxa de juros?

José Carlos Polidoro, professor do curso de Administração da Universidade Anhembi Morumbi, explica que no Brasil as taxas de juros não são determinadas com base apenas nos indicadores de mercado (oferta e procura por crédito), mas pelo custo de captação dos bancos, dos recursos que serão utilizados e pelo “spread bancário” – diferença entre as taxas de captações pagas e as taxas cobradas pelos bancos nas operações de crédito.

O percentual de juros do cheque especial é definido pelas próprias instituições financeiras, baseando-se na taxa básica de juros definida pelo Copom e nos custos e lucros dos bancos.

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A inadimplência, os custos administrativos e operacionais dos bancos, os custos de regulação do setor financeiro, de tributação direta e indireta que incidem sobre as operações financeiras e os lucros almejados pelas instituições determinam o “spread”.

“Portanto, um recuo pontual do percentual de inadimplência pode não provocar uma redução da taxa de juros das operações com cheque especial, pois o comportamento negativo de outros ingredientes que compõem este custo poderá absorvê-lo ou até contribuir para que o total da taxa destas operações eleve”, afirma José Carlos.

O professor também destaca que, recentemente, os bancos tiveram aumento na tributação de seus lucros, o que pode resultar em repasse para o custo de suas operações.

Outro fator que deve ser considerado, na opinião de Polidoro, é que, apesar de um recuo pontual, o nível de inadimplência é elevado, resultado da expectativa econômica de médio prazo. “As instituições financeiras estão operando em meio às incertezas políticas, o que contribui para o conservadorismo das taxas de juros, tornando as instituições mais seletivas e reduzindo o estoque de crédito”, diz.

O pesquisador em finanças pessoais e comportamentais da Universidade Federal do Ceará, Érico Marques, segue na mesma linha e afirma que, num ambiente de expectativas negativas, quem hoje está adimplente pode tornar-se rapidamente inadimplente.

Segundo Marques, a conjunção de fatores como Selic alta, crescimento negativo do PIB (recessão), inflação alta e aumento do desemprego eleva o risco de o consumidor não vir a ter condição de honrar o uso do cheque especial.

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Tal fato também demandará um aumento de provisão para devedores duvidosos, ou seja, mais custo e mais risco para o banco. Consequentemente, maior taxa de juros no cheque especial. “Em síntese, um ambiente econômico ruim com expectativas ruins torna o crédito escasso e caro”, conclui Érico.

Isabella Abreu
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