Em queda desde 2014, o preço internacional do petróleo vem batendo recordes negativos nos últimos dias. O Brent, referência tradicionalmente usada para informar o preço global da commodity, chegou a US$ 26,05 no último dia 11, atingindo o seu menor valor em 12 anos.

No entanto, essa queda não se reflete no preço dos combustíveis no Brasil. Desde novembro de 2014, a Petrobras já reajustou os preços da gasolina duas vezes, enquanto a cotação do petróleo caiu mais de 50% no período.

Giovana Araújo, da consultoria MB Agro, explica que os preços do Brasil são regulados pela Petrobras e não obedecem uma lógica de mercado. Diferente do que acontece no mercado internacional, a estatal fixa os preços de acordo com critério próprio, com o argumento de que, dessa forma, a empresa não transmite volatilidade ao consumidor.

“Uma redução de preços da gasolina teria impacto negativo sobre as finanças da estatal, já que quase 70% da receita da empresa vem de preços regulados. Por outro lado, uma alta de preços nesse momento traria pressões inflacionárias adicionais, em um momento delicado para o governo do ponto de vista político e econômico”, ressalta.

Dessa forma, a petroleira mantém os preços nas refinarias no Brasil, com o intuito de tentar compensar as perdas que obteve ao longo de 2014, quando manteve os preços abaixo dos internacionais, para evitar repasse à inflação.

Outro fator que também dificulta a queda do preço da gasolina por aqui é a alta do dólar. Desde 2011, o país aumentou a quantidade de gasolina que importa do exterior, já que passou a consumir mais do que produz.

“Atualmente, estamos com um prêmio em torno de 10% sobre a gasolina no mercado internacional na paridade de importação, considerando todos os custos de internalização do produto. O preço da gasolina no mercado norte-americano e o dólar são os principais elementos nessa equação de paridade de importação. Estamos vendo muita volatilidade nesses dois componentes, o que torna baixa a previsibilidade sobre evolução de preços da gasolina”, diz Giovana.

Composição de preços ao consumidor

De acordo com a Petrobras, o preço que os consumidores pagam nas bombas é formado por: 31% são os custos de operação da empresa para produzir o combustível, 10% são impostos da União (Cide, PIS/Cofins), 28% são impostos estaduais (Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS), 15% é o custo do etanol adicionado à gasolina e 16% se refere à distribuição e revenda.

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FONTE: Petrobras

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Preços em queda livre

O preço do barril de petróleo encerrou 2015 com queda acumulada de 35% e iniciou 2016 ladeira abaixo, em meio a preocupações com o crescimento da China, com a crise diplomática entre Irã e Arábia Saudita e aumento de estoques de derivados nos Estados Unidos.

Segundo Giovana, da MB Agro, a queda no petróleo tem várias motivações, que incluem componentes de oferta, demanda, questões políticas e macroeconômicas. Do ponto de vista de oferta, a principal razão foi o aumento da produção de petróleo não convencional nos Estados Unidos, da ordem de 6 mm barris dia entre 2004 e 2014.

Enquanto isso, houve também a redução da procura, provocada pelo esfriamento da economia da China e outros mercados emergentes. Em 2015, o país asiático, que é o segundo maior consumidor de petróleo do mundo depois dos EUA, cresceu apenas 6,9% – seu desempenho mais fraco em 25 anos.

“Como resposta a um aumento crescente de produção de petróleo não convencional nos EUA e a crescente formação de estoques globais, os países integrantes da OPEC  (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) mudaram a estratégia de controle de preços, via controle de oferta, por uma estratégia de manutenção de marketing share, permitindo que as cotações caíssem abaixo do break-even do petróleo não convencional dos EUA, que se concentra no intervalo de 50 e 90 dólares o barril. Esse é o principal componente político”, explica.

Já do ponto de vista macroeconômico, a valorização do dólar tem um impacto negativo nas commodities, reduzindo o poder de compra de países importadores. Para a especialista, a velocidade e intensidade de recuperação de preços globais vai depender da dinâmica dos estoques globais.

“Nessa equação, está a entrada do Irã no mercado global, o ajuste da produção dos EUA em resposta aos menores preços, demanda global e política de preços de produtores. O departamento de energia do Estados Unidos aponta para uma redução dos estoques apenas no início de 2017, quando os preços podem voltar a 50 dólares/barril nas estimativas da entidade”, conclui Giovana.

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Foto “Oil prices”, Shutterstock.

Isabella Abreu
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